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Ramos-Horta e a Guiné-Bissau

No período em que estive na Guiné-Bissau pela DW África, entre as tantas conversas interessantes que tive está a entrevista com o representante do secretário-geral da ONU no país José Ramos-Horta. A matéria foi publicada no http://www.dw.de/portugues e a reproduzo aqui no blog.

Ramos-Horta é um prêmio Nobel cujo trabalho na Guiné tem alguns momentos bastante felizes e outros controversos.

Muitos guineenses reclamam que ele estaria interferindo demais na política do país, agindo muitas vezes como presidente. Eu gosto das tentativas do ex-presidente do Timor-Leste de incentivar o diálogo entre as diferentes correntes políticas da Guiné-Bissau. Aqui ele fala sobre o seu trabalho no processo de transição da Guiné-Bissau e os desafios do país depois das eleições.

DW África: O que o senhor encontrou ao chegar na Guiné-Bissau?

Ramos-Horta: Encontrei um povo desorientado, sem esperança e, mais uma vez, profundamente decepcionado com as elites política e militar. Encontrei uma comunidade internacional pessimista em relação ao futuro da Guiné-Bissau, decepcionada com a atitude dos militares de terem realizado mais um golpe. Havia fortes divergências entre os membros da comunidade internacional sobre o que fazer ou não fazer em relação ao país. [Praticamente] não havia diálogo. Quando havia, sentia-se muita tensão entre os vários parceiros da Guiné-Bissau. Sentia-me às vezes muito incomodado pela grande expectativa e euforia dos guineenses com a minha nomeação pra cá.

Havia a idéia de que o senhor poderia resolver os problemas do país?

Exatamente. Vem aí José Ramos-Horta, prêmio Nobel da Paz, ex-chefe de Estado, figura internacionalmente conhecida, levou a bom termo o processo de estabilização do seu país, etc. Logo, o mesmo sucesso pode se replicar rapidamente na Guiné-Bissau.

O senhor pode fazer um paralelo entre os conflitos que havia no Timor-Leste e os que o senhor na Guiné-Bissau?

Felizmente, em Timor-Leste nunca tivemos um golpe militar na nossa curta história. Apesar de que, em outras circunstâncias, em outros países, a crise política provocada pelos políticos no meu país, teria levado a um golpe. Aconteceu na Tailândia, aconteceu nas Filipinas e acontece na Guiné-Bissau. Felizmente, a nossa elite militar é muito diferente, é disciplinada. Mas foi necessário recorrer ao apoio militar internacional – ONU e países amigos – para controlar a situação de segurança em Dili. Conseguimos, via atividades policiais operacionais, controlar a violência nos bairros. Ao mesmo tempo, isto criou espaço para modernizar e reorganizar a nossa polícia e as nossas forças armadas. Com a Guiné-Bissau, há um paralelismo apenas no sentido de que é um país pobre, com muito desemprego, com, pelo menos, um passado de indisciplina na polícia e nas forças armadas que são muito mal pagas. Quando polícias ou militares são muito mal pagos, recorrem a algumas atividades menos formais e menos lícitas para obter dinheiro. São seres humanos. Daí surge alegações contra alguns elementos das forças armadas de estarem implicados no negócio do tráfico ilícito de drogas e outras atividades.

O senhor propôs uma espécie de partilha de poder. Em quais moldes ela ocorreria depois das eleições?

O governo cessante de transição já foi uma experiência [neste sentido]. Neste governo de transição, inaugurado em junho de 2013, constam todos os partidos políticos e personalidades independentes. É um ensaio que fizemos e mostrou que os guineenses pode fazê-lo. Não tem funcionado muito bem porque o primeiro-ministro [Rui de Barros], uma pessoa íntegra, não tem poder político. Ele sofria depressões por todo o lado. É uma pessoa independente, não fez parte do golpe. O mesmo aconteceu com o presidente [Serifo Nhamadjo] que não participou do golpe e foi chamado pela Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (CEDEAO) para ocupar o cargo. O saldo do governo de transição não é positivo na parte financeira, econômica e social, mas este governo não herdou um Estado que começou mal no dia 12 de abril de 2012. Começou [a ficar] mal quando o então primeiro-ministro deste país, Nino Vieira – não contente com o cargo, querendo ser presidente – fez o primeiro golpe. Portanto, foi um trabalho duro para o governo de transição. Por outro lado, devo dizer que há vontade política, que eu saiba, de todos os líderes políticos e dos militares deste país de fazer uma verdadeira viragem. Eu estou convencido que haverá possibilidade de um governo de inclusão. Não necessariamente de coligação. O partido vencedor convidará pessoas que o primeiro-ministro eleito [Domingos Simões Pereira] entender que – pelas suas qualificações profissionais, integridade, autoridade moral e ética – possa contribuir para o governo. Seja ele pertencente a algum partido ou independente. Seria um governo de inclusão, não de coligação. Mas se ele preferir um governo de coligação, o fará. É necessário um esforço para que ninguém se sinta perdedor ou excluído do processo de reconstrução do país.

O senhor acredita que ainda existe algo a ser feito pelos integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa para ajudar a Guiné-Bissau?

Timor-Leste é um país jovem, com 10 anos de independência. Quem teve um papel mais interveniente neste processo eleitoral aqui na Guiné-Bissau, sobretudo na primeira fase? A primeira fase é a do recenseamento e todos consideram que obteve êxito sem precedentes. Pela primeira vez na história, 95,6% dos potenciais eleitores foram registrados em tempo recorde – em menos de três meses. [O processo contou] com técnicos timorenses e, obviamente, centenas e centenas de voluntários guineenses. O processo foi financiado por Timor-Leste. Se o Timor-Leste, que é um país jovem, pequeno e relativamente pobre, pode marcar a sua presença e hoje ser aplaudido na Guiné-Bissau e em toda a região da África Ocidental, muito mais poderá ser o Brasil, Angola, Moçambique e Portugal. Eu creio que é necessário vontade política, mas também que os novos líderes da Guiné-Bissau façam tudo para recuperar a boa vontade de Portugal, Angola e Brasil. Porque estes países irmãos estiveram aqui 40 anos. Portugal deve ter investido centenas de milhões de dólares neste país em Educação, Saúde e Ajuda Humanitária. Onde está o resultado? O Brasil também investiu imenso aqui. Angola veio com muita generosidade e solidariedade. É necessário que os novos primeiro-ministro e presidente façam tudo para refazer a ponte com Angola, assim como continuar a reforçar as relações com os países da região: Senegal, Nigéria e Gana. São países importantes para a Guiné-Bissau.

A cinco dias do caos

Integrantes da sociedade civil zimbabueana e políticos do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) discutem via Facebook o que farão após a vitória eleitoral do presidente Robert Mugabe, há 33 anos no poder.

A alegação de massivas fraudes é geral. O MDC denunciou que nomes de eleitores não constavam nas listas de votação, publicadas menos de 24 horas antes da eleição – o que teria inviabilizado a verificação independente.

A ONG Rede de Suporte para as Eleições (ZESN) enviou sete mil observadores para diversas partes do país e indicou que cerca de um milhão de nomes desapareceram das listas eleitorais. O número de eleitores cadastrados deveria ser de 6 milhões.

Via Facebook, conversei com alguns líderes da sociedade civil do país e com zimbabueanos radicados na Europa. Muitos pedem para se “esperar os resultados oficiais”. “Seria eu um dos poucos cidadãos que viveram em um mar de admiração e nostalgia pela ZANU-PF?”, provoca um dos líderes de uma importante ONG do país.

Alguns mostram impotência, certos de que houve fraude: “nós lidamos com a mais sofisticada ditadura”, diz um zimbabueano na diáspora também pelo Facebook. Há os que querem ir para as ruas protestar. “É meu futuro que está em jogo. Eu não vou mais permitir isto. Vamos para a “Freedom Square” contra esta fraude”, disse um amigo ativista, que também prefiro não identificar.

Eternizado no poder

Integrantes do partido União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (ZANU-PF), de Mugabe, têm declarado informalmente que venceram o pleito. “Nós ganhamos de forma bastante enfática”, disse um representante do partido para agências de notícias sob a condição de anonimato.

A armação parece ter ficado bem clara quando Mugabe não aceitou a presença de observadores e jornalistas ocidentais nas eleições de quarta-feira (31/07). A União Africana, entretanto, já disse que o pleito foi “pacífico, ordeiro, livre e justo.”

Morgan Tsvangirai, um antigo sindicalista que emergiu no final dos anos 1980, com longa trajetória de resistência e várias prisões “subversivas” no currículo, assiste, pela terceira vez como candidato, o mesmo filme. “As eleições foram uma farsa. Não vão refletir a vontade do povo”, disse nesta quinta-feira Tsvangirai, que há poucos dias exercia o cargo de primeiro-ministro na precária partilha de poder do país.

Rumo à violência

As palavras de Tsvangirai refletem na mídia social e tendem a inflamar a sua militância, acostumada a um ambiente de violência pós-eleitoral. Desde 2008, os esforços de partilha do poder têm o objetivo de levar as duas correntes políticas ao diálogo.

Em cinco dias, os resultados das eleições serão divulgados. Em caso de vitória de Mugabe, é possível haver manifestações de oposicionistas indignados pela fraude eleitoral. Em caso de derrota do líder zimbabueano temporão, dificilmente a cúpula da ZANU-PF vai aceitar os resultados, podendo repetir a onda de violência após a derrota no Primeiro Turno em 2008.

Ou seja, não há alternativa. Em cinco dias, a não ser que algo extraordinário aconteça, é muito grande a chance de nova onda de violência. Haverá conflito. Resta apenas saber em que escala.

O Zimbábue mostra que viveu eleições sem estar preparado. É o desfecho da partilha de poder apressada e mal negociada pelo MDC. A frágil democracia da África Austral acumula mais uma derrota. Até quando?