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Ramos-Horta e a Guiné-Bissau

No período em que estive na Guiné-Bissau pela DW África, entre as tantas conversas interessantes que tive está a entrevista com o representante do secretário-geral da ONU no país José Ramos-Horta. A matéria foi publicada no http://www.dw.de/portugues e a reproduzo aqui no blog.

Ramos-Horta é um prêmio Nobel cujo trabalho na Guiné tem alguns momentos bastante felizes e outros controversos.

Muitos guineenses reclamam que ele estaria interferindo demais na política do país, agindo muitas vezes como presidente. Eu gosto das tentativas do ex-presidente do Timor-Leste de incentivar o diálogo entre as diferentes correntes políticas da Guiné-Bissau. Aqui ele fala sobre o seu trabalho no processo de transição da Guiné-Bissau e os desafios do país depois das eleições.

DW África: O que o senhor encontrou ao chegar na Guiné-Bissau?

Ramos-Horta: Encontrei um povo desorientado, sem esperança e, mais uma vez, profundamente decepcionado com as elites política e militar. Encontrei uma comunidade internacional pessimista em relação ao futuro da Guiné-Bissau, decepcionada com a atitude dos militares de terem realizado mais um golpe. Havia fortes divergências entre os membros da comunidade internacional sobre o que fazer ou não fazer em relação ao país. [Praticamente] não havia diálogo. Quando havia, sentia-se muita tensão entre os vários parceiros da Guiné-Bissau. Sentia-me às vezes muito incomodado pela grande expectativa e euforia dos guineenses com a minha nomeação pra cá.

Havia a idéia de que o senhor poderia resolver os problemas do país?

Exatamente. Vem aí José Ramos-Horta, prêmio Nobel da Paz, ex-chefe de Estado, figura internacionalmente conhecida, levou a bom termo o processo de estabilização do seu país, etc. Logo, o mesmo sucesso pode se replicar rapidamente na Guiné-Bissau.

O senhor pode fazer um paralelo entre os conflitos que havia no Timor-Leste e os que o senhor na Guiné-Bissau?

Felizmente, em Timor-Leste nunca tivemos um golpe militar na nossa curta história. Apesar de que, em outras circunstâncias, em outros países, a crise política provocada pelos políticos no meu país, teria levado a um golpe. Aconteceu na Tailândia, aconteceu nas Filipinas e acontece na Guiné-Bissau. Felizmente, a nossa elite militar é muito diferente, é disciplinada. Mas foi necessário recorrer ao apoio militar internacional – ONU e países amigos – para controlar a situação de segurança em Dili. Conseguimos, via atividades policiais operacionais, controlar a violência nos bairros. Ao mesmo tempo, isto criou espaço para modernizar e reorganizar a nossa polícia e as nossas forças armadas. Com a Guiné-Bissau, há um paralelismo apenas no sentido de que é um país pobre, com muito desemprego, com, pelo menos, um passado de indisciplina na polícia e nas forças armadas que são muito mal pagas. Quando polícias ou militares são muito mal pagos, recorrem a algumas atividades menos formais e menos lícitas para obter dinheiro. São seres humanos. Daí surge alegações contra alguns elementos das forças armadas de estarem implicados no negócio do tráfico ilícito de drogas e outras atividades.

O senhor propôs uma espécie de partilha de poder. Em quais moldes ela ocorreria depois das eleições?

O governo cessante de transição já foi uma experiência [neste sentido]. Neste governo de transição, inaugurado em junho de 2013, constam todos os partidos políticos e personalidades independentes. É um ensaio que fizemos e mostrou que os guineenses pode fazê-lo. Não tem funcionado muito bem porque o primeiro-ministro [Rui de Barros], uma pessoa íntegra, não tem poder político. Ele sofria depressões por todo o lado. É uma pessoa independente, não fez parte do golpe. O mesmo aconteceu com o presidente [Serifo Nhamadjo] que não participou do golpe e foi chamado pela Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (CEDEAO) para ocupar o cargo. O saldo do governo de transição não é positivo na parte financeira, econômica e social, mas este governo não herdou um Estado que começou mal no dia 12 de abril de 2012. Começou [a ficar] mal quando o então primeiro-ministro deste país, Nino Vieira – não contente com o cargo, querendo ser presidente – fez o primeiro golpe. Portanto, foi um trabalho duro para o governo de transição. Por outro lado, devo dizer que há vontade política, que eu saiba, de todos os líderes políticos e dos militares deste país de fazer uma verdadeira viragem. Eu estou convencido que haverá possibilidade de um governo de inclusão. Não necessariamente de coligação. O partido vencedor convidará pessoas que o primeiro-ministro eleito [Domingos Simões Pereira] entender que – pelas suas qualificações profissionais, integridade, autoridade moral e ética – possa contribuir para o governo. Seja ele pertencente a algum partido ou independente. Seria um governo de inclusão, não de coligação. Mas se ele preferir um governo de coligação, o fará. É necessário um esforço para que ninguém se sinta perdedor ou excluído do processo de reconstrução do país.

O senhor acredita que ainda existe algo a ser feito pelos integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa para ajudar a Guiné-Bissau?

Timor-Leste é um país jovem, com 10 anos de independência. Quem teve um papel mais interveniente neste processo eleitoral aqui na Guiné-Bissau, sobretudo na primeira fase? A primeira fase é a do recenseamento e todos consideram que obteve êxito sem precedentes. Pela primeira vez na história, 95,6% dos potenciais eleitores foram registrados em tempo recorde – em menos de três meses. [O processo contou] com técnicos timorenses e, obviamente, centenas e centenas de voluntários guineenses. O processo foi financiado por Timor-Leste. Se o Timor-Leste, que é um país jovem, pequeno e relativamente pobre, pode marcar a sua presença e hoje ser aplaudido na Guiné-Bissau e em toda a região da África Ocidental, muito mais poderá ser o Brasil, Angola, Moçambique e Portugal. Eu creio que é necessário vontade política, mas também que os novos líderes da Guiné-Bissau façam tudo para recuperar a boa vontade de Portugal, Angola e Brasil. Porque estes países irmãos estiveram aqui 40 anos. Portugal deve ter investido centenas de milhões de dólares neste país em Educação, Saúde e Ajuda Humanitária. Onde está o resultado? O Brasil também investiu imenso aqui. Angola veio com muita generosidade e solidariedade. É necessário que os novos primeiro-ministro e presidente façam tudo para refazer a ponte com Angola, assim como continuar a reforçar as relações com os países da região: Senegal, Nigéria e Gana. São países importantes para a Guiné-Bissau.

O homem das pombas

Foram poucos dias, mas o suficiente para eu ser contagiado pela imensa vontade do povo guineense de reconstruir o país depois de sucessivos golpes de Estado. Todos estão fartos e querem mudanças.

No entanto, a situação política é ainda bastante delicada.

Nenhum presidente da Guiné-Bissau conseguiu cumprir o seu mandato na íntegra desde a independência, em 1974, e o caminho ainda parece assustadoramente longo para que este tabu seja quebrado.

O representante do secretário-geral da ONU na Guiné-Bissau, José Ramos Horta, sugeriu às diferentes forças políticas uma saída clássica para o perfil dos países fragmentados por conflitos étnicos e religiosos: a “partilha de poder” – comumente chamada de “governo de unidade” ou “governo de inclusão”.

O novo primeiro-ministro, Domingos Simões Pereira, já deu os primeiros passos para implementar o modelo, iniciando diálogos com a oposição logo após o anúncio da vitória do Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde (PAIGC) nas Legislativas.

No entanto, temo que a mira dos atores de “boa vontade” esteja fora de foco. As diferenças políticas ou étnicas – apesar de mais acentuadas de uns anos para cá – não são as únicas razões para a instabilidade política da Guiné-Bissau na última década.

O que está em jogo aqui é muito mais o poder de milicianos e narcotraficantes. Trata-se de uma questão de segurança pública e crime organizado internacional. E, pelo discurso dos candidatos ao segundo turno, parece que este problema vai continuar intocado por mais algum tempo.

“Estamos sem Estado”

Intocado porque ninguém fala sobre o assunto e ninguém dentro do país pode bater de frente com os gangsters ainda incrustados nas forças armadas. No Estado falido, a lei do silêncio é oficial.

Os servidores públicos estão há cinco meses sem receber salários, mas, às vésperas do primeiro turno das eleições, o país intensificava a exportação de troncos de árvore para empresas chinesas e teoricamente continuava faturando milhões de dólares. Para onde foi este dinheiro?

O valor da carga e os detalhes da exploração ilegal serão divulgados em uma matéria na DW África dentro de poucos dias. O arrecadado pela máfia daria para resolver o problema da máquina parada do governo e ainda sobraria.

“Nós estamos sem Estado”, dizia-me um histórico político guineense há poucos dias. Ele se referia ao período entre abril de 2012 a abril de 2014 – quando o chefe das forças armadas António Indjai e alguns civis preocupados com a aproximação da Guiné com Angola, com os planos de reforma das forças armadas “à angolana” e com eventuais perdas no business, decidiram por mais um golpe.

A ação resultou em negociações com a Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (CEDEAO) e a implementação de um sonolento governo de transição.

O dono do morro

A imagem que tranquilizou milhões durante as eleições me deixou especialmente alerta. A foto de Indjai de túnica branca, soltando pombas brancas na hora do voto, querendo paz no pleito correu o mundo.

Não quero crer que a postura pacífica de Indjai tenha sido negociada. Isto significaria que os interesses do general teriam sido acomodados e seu poder paralelo reconhecido, respeitado e concentrado. Indjai sairia fortalecido das eleições, o que é inaceitável.

Para o público brasileiro entender, a questão aqui se assemelha com a velha história do “quem é o dono do morro” ou o “dono da boca”. Eles transformaram a Guiné-Bissau em uma espécie de “Estado favela”.

Basta observar o cotidiano de uma clássica favela brasileira, onde a ausência de Estado é aproveitada pelo crime organizado e a população não tem o básico em infraestrutura, saúde e qualidade de vida, sendo oprimida diariamente por homens armados.

Mesmo assim, tal população segue lutando pela vida, pela felicidade e bela na sua simplicidade. É assim.

Futura Complacência?

Os dois candidatos que foram para o segundo turno parecem caminhar pela via “da acomodação” dos interesses da banda podre das forças de segurança. O economista José Mário Vaz, do PAIGC, fala em “perdoar criminosos”.

“A partir do dia 14 de abril todo o mundo será perdoado, mesmo aqueles que cometeram crimes no dia 13, só assim teremos uma verdadeira reconciliação nacional, paz e estabilidade”, disse o candidato. Vale lembrar que Jomav é processado devido ao sumiço de 9,1 milhões de euros que Angola ofereceu à Guiné-Bissau, mas que não teriam dado entrada nos cofres do Tesouro.

No contexto da medida também estaria o perdão de quem está para ser condenado por tráfico e pelo assassinato da cúpula do poder em 2009. Aliás, tais nomes ainda não foram denunciados por obstrução dos trabalhos do Ministério Público em função do golpe. O réu do caso dos assassinatos do ex-presidente Nino Vieira e general Batista Tagme Na Waie já é confesso.

Seu adversário, o candidato independente, engenheiro Nuno Nabiam, apoiado pelo falecido Kumba Ialá, é evasivo e liso ao falar em reforma das forças armadas.

O fato de conhecer o general Indjai e desviar o foco quando a cúpula militar está em questão alerta os setores mais céticos. Carrega a herança de Kumba Ialá, o que lhe faz simpático às forças armadas e a uma fatia da população que ainda crê no “voto étnico”.

Ganha força, portanto, a tese de que as posturas dos dois candidatos para o segundo turno foram negociadas com o tal “homem das pombas” que, por sua vez, permitiu que as eleições acontecessem pacificamente. Inteligente, Indjai acalma a pressão internacional e ganha tempo.

A partilha eficiente

Como eu vejo uma partilha de poder que possa funcionar na Guiné-Bissau em sete ideias para além do que já está programado.

1) Inclusão das forças de segurança na partilha de poder: o poder concentrado em um general chefe do Estado Maior das Forças Armadas vem se mostrando prejudicial ao país. Indjai deveria sair do cargo e seu poder partilhado entre as diferentes correntes políticas e étnicas do país, preferencialmente com um ministro da Defesa.

2) Plano de neutralização da banda podre: A partilha de poder não pode ser aplicada sem um plano de neutralização e punição dos militares gangsters que transformaram a Guiné em um entreposto da exportação da cocaína sul-americana para a Europa e criaram células de poder nas forças armadas, gerando “milícias pessoais”. Tais personagens são pontos de instabilidade. Não adianta partilhar o poder se tudo pode ser destruído arbitrariamente por um homem armado e seu bando.

3) Reforma ampla das forças de segurança: oficiais guineenses mais arejados devem planejar a reforma das forçar armadas, iniciando um pacto interno pela garantia do Estado de Direito e contemplação da representatividade de outros grupos da sociedade guineense. Existem quadros militares experientes e jovens capazes de iniciar esta tarefa. Inclusive com o apoio externo, caso julguem necessário. As forças armadas não podem mais ser fragmentadas em milícias e precisam ser profissionalizadas.

4) Plano de Integridade do Estado: Autoridades e servidores do Estado, cúmplices com contrabando de madeira, pesca predatória de peixes e tráfico de drogas devem ser denunciados, condenados e tirados de atividade. O Estado precisa ser moralizado, primar pela transparência e trabalhar pela sua credibilidade para as diferentes correntes políticas e a sociedade começarem a respeitá-lo. A sociedade civil deve estar ativa neste processo.

5) Pacto Geral de Reconciliação: É preciso sufocar o conflito étnico latente e com o conflito entre instituições do Estado e sociedade. A banda podre das forças de segurança incentiva isto, salientando a existência de uma etnia majoritária no exército, que garante o seu poder e que a vontade de políticos de tal etnia prevaleça – como viu-se em 2012. Isto deve ser minimizado. Seria pertinente criar uma cúpula de segurança partilhada entre diferentes correntes políticas, grupos étnicos e organizações ligadas aos direitos humanos, das mulheres e das crianças.

6) Combate ao clientelismo étnico e partidário: Os nomes de outros partidos tem que ter mérito para ocupar pastas no governo. É necessário um pacto pela competência e eficiência no país, deixando de lado o favorecimento barato pelo critério étnico e o apadrinhamento político. A Guiné precisa se levar à sério, enxergar-se como um Estado sério de todos os guineenses. Nenhum autor poderia ser autorizado a entrar no governo beneficiando a sua família ou grupo étnico, isto é condição essencial para a partilha de poder ter legitimidade, ser respeitada pela sociedade e não haver margem para revanchismo.

7) Fim do Exílio forçado: Anistia e incentivo ao retorno dos exilados políticos. O país precisa promover a reconciliação e ampliar o espectro democrático. Não é possível o povo continuar refém de um homem que condena cidadãos a viverem no exterior.

Eu tenho esperança, mas a Guiné-Bissau parece prestes a perder uma oportunidade histórica de se reerguer. Tanto Jomav como Nabiam não contribuirão muito com as propostas que apresentaram para o setor de segurança. Precisam de mais coragem.

A partilha de poder é um modelo que pode dar certo e ser benéfico para qualquer país nesta condição. No entanto, é a hora da audácia do líder. É a hora de concentrar forças internas e externas para enfrentar a máfia e trazer o Estado de volta.

Vamos protestar! Que caia o presidente!

O golpe militar no Mali é um episódio que deixa clara a dimensão e a fragilidade da democracia no continente africano. Insatisfeitos com os meios disponíveis para o trabalho e com a gestão do conflito com a guerrilha separatista da etnia tuaregue, o exército do Mali não somente protestou, mas derrubou o presidente Amadou Toumani Toure.

Em uma primeira análise, o grupo comandado pelo capitão Amadou Sanogo exagerou. De fato, gritou alto demais diante de sua própria impotência, uma força armada que acumula derrotas para os rebeldes no norte do país. Sanogo observa de perto os tuaregues ganharem o reforço dos ex-combatentes da mesma etnia que lutaram junto às tropas leais a Muammar Kadafi na Líbia.

Após o assassinato do ditador líbio, reforço de material bélico e humano faz com que a guerrilha avance. O movimento quer aplicar a lei islâmica através da luta armada e já reivindicou o controle das localidades de Aguelhok, Tessalit e Tinezawaten, no Nordeste. A queda da segunda cidade mais importante do país, Kidar, é questão de tempo. Por isso Sanogo não esperou as eleições marcadas para o dia 29 de abril. Derrubou Toure e quis começar a negociar o conflito pessoalmente.

Senil?

Para diminuir a pressão internacional, a elite contrária a Toure e militares mais esclarecidos oferecem garantias de que novas eleições serão realizadas, embora ainda não definam data. Como um paliativo raquítico, dizem que nenhum militar será candidato, oferecem uma ata legal para substituir a constituição e libertam alguns líderes políticos. Em outras palavras, o movimento militar dá sinais de pouca inteligência e o grito da caserna parece perder força.

Mas os últimos dias foram marcados por gritarias diversas na África Ocidental. A agitação pré-eleitoral no Senegal e pós-eleitoral na Guiné-Bissau foi provocada por atores políticos confusos. No Senegal, trata-se de um caso de senilidade plena de uma das figuras mais importantes da democratização africana, Abdoulaye Wade, de 85 anos.

Durante as primeiras semanas do ano, um dos principais personagens da resistência ao sistema de partido único no Senegal quase mancha a sua imagem brilhante no cenário político regional. Wade fez o que é de praxe em algumas regiões africanas, interpretando a legislação do seu jeito, lançando a sua candidatura para um terceiro mandato quando a constituição prevê apenas dois.

Democracia esfacelada

O líder alegava que foi eleito pela primeira vez em 2000, antes de a constituição entrar em vigor. A oposição foi às ruas, conflitos com a polícia e mortes foram registrados e um exemplo de democracia relativamente estável na África quase degringola. Horas após fecharem as urnas do segundo turno das presidenciais senegalesas, no domingo (25/03), o reconhecimento da derrota por parte do presidente cessante provocou alívio geral. Ou seja, Wade caiu em si.

Tudo indica que ele não calculou bem o prejuízo de sua candidatura para a democracia na região e o quanto esta derrota vai acabar, casualmente, beneficiando a sua memória na história do Senegal no futuro. Macky Sall, que já esteve no time de Wade, será o novo presidente. Mais do mesmo? Talvez. Ele está com o apoio de setores importantes da sociedade civil, tem a maioria da população, mas não é o preferido dos setores da elite religiosa do país, fundamental para a estabilidade do Senegal. Carrega muita esperança, isto é temerário porque seu poder pode ser limitado, dando chance à frustração.

O ciclo eleitoral da Guiné-Bissau

Mais uma vez os passos peculiares de uma eleição na Guiné-Bissau se repetiram. Após o primeiro turno realizado no dia 18 de março, o que se espera agora é caos e PAIGC no governo. A lógica se repete desde a independência (reconhecida em 1974). Há um ciclo definido: tudo ocorre muito bem até o fechamento das urnas. Depois, pipocam alegações de fraude sem fundamento e emerge tensão nas forças de segurança. Logo após, um assassinato surge como a “cereja” no bolo eleitoral.

Dessa vez, mais uma queima de arquivo. E que arquivo! O chefe de informações militares, Samba Djaló, foi assassinado no meio do pingue-pongue mafioso da “política armada” do país. Para terminar, Kumba-Yalá, o eterno candidato, não quer participar do Segundo Turno alegando fraude. Ele tem este direito, é claro, mas seria bastante produtivo concorrer e gritar depois. A maior contribuição de Kumba-Yalá seria não brindar o seu povo com um processo eleitoral sem conclusão. É mais um capítulo da democracia na África Ocidental que costuma ficar assim, pela metade, com presidentes quase eleitos cumprindo mandatos.

Abaixo vídeo da PressTVGlobalNews sobre o golpe no Mali, um dos países que ostetavam alguma estabilidade democrática na África Ocidental. No trecho do discurso do capitão Sanogo, na ocasião do golpe, ele afirma o interesse de “restaurar a democracia e o Estado”.

O desserviço das milícias pessoais guineenses

Neste domingo busquei informações sobre a Guiné-Bissau em função da intervenção militar de primeiro de abril, que resultou na prisão do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Zamora Induta, e na detenção provisória do primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior (Cadogo).

Acessei uma fonte sempre disposta a avaliar a situação do país junto à mídia, porém, desta vez, ela se negou a gravar entrevista. A pessoa estava com medo e revelou que vários ativistas e jornalistas têm sido ameaçados, evitando publicar opinião.

Ou seja, como se não bastasse truculência e arbitrariedade militar, ameaças e medo generalizados dão um toque de quase ditadura a este broto de democracia guineense, que não consegue germinar devido ao eterno peso dos coturnos nas cabeças dos atores políticos do país.

Bandos

Zamora Induta está detido há quase dois meses por ordens do seu antigo número dois, o major-general António Indjai. As acusações são bastante pesadas, remetem inclusive ao desvio de dinheiro e de drogas apreendidas. O caso está com a Procuradoria Geral.

Fala-se em reforma das precárias Forças Armadas, com militares desde a década de 1960 na ativa finalmente indo para a reserva. Mas não adianta uma reforma sem formação adequada para que o militar perceba sua função em uma democracia.

Setores militares guineenses mostram ano a ano insubordinação aos seus superiores paisanos e fardados. Trata-se de uma corporação fragmentada, que acaba agindo como pequenos “bandos” comandados por oficiais descontentes (Ver artigo “Encomenda estilo Corleone”).

Ditadura esfacelada

Os militares guineenses viciaram em golpes de estado, porém não têm forças para sustentar uma ditadura nem centralização para ocupar espaço na estrutura política do país. Vivem em um limbo, desconsiderando autoridades e se aliando ao crime, perdendo portanto a legitimidade, assumindo a característica das chamadas “milícias pessoais”.

Nem mesmo aquele nacionalismo exacerbado – característico de qualquer instituição militar – é verificado nos fardados que ousam sujar suas mãos nas drogas. Hoje, prestam inclusive um desserviço ao país. São o motivo da suspensão de investimentos de mais de 4 milhões de euros da União Européia (UE) em diversos setores, inclusive segurança e defesa.

A UE condiciona o apoio à libertação de Zamora Induta, à nomeação de novas chefias militares e à apresentação à justiça dos responsáveis pela última intervenção militar. A expectativa é de que o presidente Malam Bacai Sanhá promulgue nesta semana a lei que determina reformas profundas nas Forças Armadas.

Abaixo nota coberta da Telesurtv sobre as detenções em abril.

Encomenda estilo Corleone

Eu sou muito comedido quando falo em “respeito à autoridade”. Até porque muitas autoridades não se dão ao respeito. Acho que autoridades eleitas devem ser respeitadas se respeitam os eleitores – e não somente os seus.

Despotismo em qualquer instância do serviço público não merece meu apreço. É a minha opinião.

Agora, o assassinato do presidente João Bernardo Nino Vieira na madrugada dessa segunda-feira (02.03.2009) na Guiné-Bissau parece acerto de contas de gangsters. Talvez o que me leve a comparação é todo o contexto mafioso internacional que envolve esse país africano, lusófono, de pouco mais de 1,5 milhão de habitantes.

Guiné-Bissau: estaria incluída na rota do narcotráfico internacional

Guiné-Bissau estaria incluída na rota do narcotráfico internacional

Pode soar sarcástico ou de um vil humor negro o que vou escrever, mas todo o atentado a presidente que se preze tem um palácio, um ato público, uma tocaia como pano de fundo. Nino Vieira foi deliberadamente atacado em sua residência. Militares invadiram a casa do presidente e o mataram no estilo dos capangas de Dom Corleone.

A imprensa mundial está falando em vingança. O presidente teria sido assassinado horas depois da explosão que matou o comandante do Estado Maior das Forças Armadas guineense, Tagmé Na Waié. (confira foto das ruínas do quartel (http://jn.sapo.pt/paginainicial/mundo/default.aspx). Investidas contra a residência do presidente na intenção de matá-lo vinham se repetindo há mais de seis meses. Era claro que, em algum momento, alguém conseguiria atingir o objetivo.

Logo após o atentado ao presidente guineense, aqui na Alemanha, fui acordado pela ligação do correspondente da DW em Bissau. Braima Darame me informou que a tranqüilidade da capital guineense foi rompida por intenso tiroteio e explosões na madrugada. “Estou em casa com a minha família, assim como toda a gente”, dizia o guineense, suspeitando de mais um golpe de Estado.

Narcoestado

Quando estive em Bissau, em Novembro, vários colegas me explicaram o papel do país no tráfico de drogas internacional. Os EUA apontam a Guiné-Bissau como porta de entrada da cocaína que chega à Europa. Jornalistas guineenses falaram do flagrante envolvimento de militares no negócio, alguns inclusive respondem processos por isso.

Como a vigilância do território é precária, traficantes aproveitam localidades de população bastante carente ou áreas desertas como parada no transporte da droga para o mercado europeu. O líder da etnia Balanta e do PRS, Kumba Yala, chegou a acusar o presidente de envolvimento com o narcotráfico em entrevista dada a mim e a outros colegas.

Kumba responde processo pelas suas declarações – que devem ter o desconto tendo em vista o “calor eleitoral”, porém não podem ser ignoradas.

Kumba Yala: líder Balanta, etnia que domina o exército guineense

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Passou em branco

Hoje, os jornalistas em Bissau ouviram o vice-chefe de Estado-Maior da Armada da Guiné-Bissau, Zamora Induta. Ele disse que “não houve golpe de Estado”, sublinhando que o ataque contra o general Tagmé Na Waié se “alastrou” ao presidente guineense.

Segundo Zamora, “simplesmente aconteceu este atentado relativamente ao chefe de Estado-Maior e infelizmente este acidente alastrou ao caso do Presidente da República”.

Descontando o fato de Induta ter falado em “acidente”, o que definitivamente não combina com este caso, a explicação é bastante reveladora. Se não houve golpe de Estado, que diabos houve então? Quem ganhou com a morte de Nino Vieira? O que o presidente obstruía? O que boicotava ou não dividia?

A entrevista que falta

Para mim, como jornalista, a entrevista mais aguardada é a do ex-comandante da Marinha guineense, José Américo Bubo Na Tchuto, que ficou sob prisão domiciliar e conseguiu fugir para a Gâmbia após tentativa de golpe de Estado em 8 de Agosto do ano passado.

Esse sim, eu gostaria de ouvir. Ele retornou “coincidentemente” há menos de três semanas à Bissau e é um personagem importante na trajetória do governo Nino Vieira. Principalmente na tentativa de interrompê-lo.

Desde a manobra radical de Na Tchuto, a cada dois meses acontecia na Guiné algum atentado grave a figura institucional do presidente. A morte de Nino tinha grande chance de ser realmente efetivada. Em Novembro após as eleições legislativas, agentes da segurança nacional descobriram que haveria uma tentativa de “golpe de Estado por soldados rebeldes”, com certeza, a mando de alguém.

Carlos Gomes Jr

Carlos Gomes Jr

Um militar foi morto e outro ficou ferido também em ataque à casa do presidente. Na ocasião, eu deixava a capital guineense de certa forma impressionado com a tranqüilidade do pleito que testemunhara e chegava à Lisboa sendo surpreendido pela notícia do ataque. Fui acometido por um sentimento ruim de que alguma história séria passara aos meus olhos e não conseguira enxergar.

No início de Janeiro deste ano, nova investida contra a residência de Nino Vieira. Os atiradores estariam revoltados porque o comandante do Estado Maior, morto ontem, teria sido alvo de tiros supostamente disparados por paramilitares fiéis ao presidente, conhecidos como Anguentas. Em revide, soldados de Tagmé Na Waié investiram contra a residência do presidente. Um soldado rebelde morreu e cinco ficaram feridos.

Nesta ocasião, os militares apresentaram o descontentamento por alegado “desprestígio”. Eles lançaram comunicado à imprensa afirmando que não toleravam que os chamados Anguentas, cerca de 400 homens ligados ao Batalhão da Presidência da República, continuassem armados ilegalmente. Esses paramilitares eram historicamente fiéis ao presidente e acabaram, após este episódio, neutralizados.

A hora de Cadogo

No jogo do poder de um dito Narcoestado, onde as instituições são manchadas por declarações bizarras que as envolvem com o crime organizado internacional e militares são apontados como traficantes, há margem para muitas especulações após este atentado, mas prefiro deixar a imaginação do leitor fluir e as investigações vingarem, se é que vão realmente.

Acho que é o momento de o primeiro-ministro guineense, Carlos Gomes Júnior, o Cadogo, usar a sua liderança para acalmar os ânimos. Cadogo era ultimamente rival político do presidente Nino Viera, mas, depois da quase aclamação popular nas legislativas de Novembro, poderia dar uma boa contribuição para a tranqüilidade e para uma reflexão profunda sobre o que aconteceu.

As autoridades guineenses devem esta explicação para a população. A verdade também evitaria qualquer tipo de especulação mais vexatória às instituições já bastante abaladas do país. Mas se ela, a verdade, insistir em não vir à tona, o que devemos pensar?

Imagens de Nino Vieira votando nas eleições de Novembro são reproduzidas na televisão francesa após o anúncio do atentado. Confira no vídeo abaixo.