Arquivo da tag: Dilma

Que cérebro tem este animal?

Não adiantou acadêmicos e intelectuais espernearem. Esta quarta-feira (23.07) foi histórica para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A cúpula de Dili, no Timor Leste, marcou uma nova fase para a modesta organização. Na prática, foi criado um novo bloco econômico.

Foi aprovado o ingresso da Guiné Equatorial como membro de pleno direito e de Geórgia, Turquia, Namíbia e Japão como observadores associados da comunidade.

A identidade lusófona, mais vinculada à cooperação cultural e política – que marcou a organização desde a sua criação em 1996 – deu lugar ao pragmatismo do mundo dos negócios. Para muitos, a organização finalmente se torna útil. Para outros, no entanto, a já capenga CPLP tornou-se definitivamente um animal híbrido sem futuro, capturado pelas elites econômicas de seus associados.

É um enxerto vivo com pesadas patas de elefante, tronco de zebra, cabeça de camarão e dentes cerrados de macaco. Ah, o cérebro? Bom, escolha o animal ou a personalidade mais adequada para emprestar um rabo e um cérebro a este bicho.

A criatura continua majoritariamente negra e com o estômago vazio. Está doente e faminta, mas com seus pequenos bolsos cada vez mais cheios. Como pode ter bolsos pesados e barriga a roncar?

Bom, a resposta talvez esteja no cérebro que você colocará no tal animal.

Decisão polêmica

Nos últimos meses, acadêmicos e notáveis debateram o sentido da integração da Guiné Equatorial à comunidade de oito países de expressão portuguesa. Fizeram até uma petição contrária ao ingresso do país na organização. A antiga colônia espanhola pleiteava o status de membro de pleno direito na CPLP desde 2010.

A crítica não está centrada somente no fato de a Guiné Equatorial não ter o português como língua oficial, mas também porque lá está a pleno vapor uma das mais antigas ditaduras da África – encabeçada por Teodoro Obiang Nguema, há 35 anos no poder.

Organizações internacionais criticam o governo de Obiang por violações de direitos humanos, pena de morte, perseguição a opositores políticos, processos judiciais contra governantes no exterior e exclusão social – apesar da riqueza do país.

A Guiné Equatorial é o oitavo país da África subsaariana em reservas de petróleo com 1.1 bilhão de barris e também tem reservas estimadas em 1,3 trilhões de metros cúbicos de gás natural (conforme EIA – Jan.2013). Conta com a parceria de São Tomé e Príncipe para a exploração, uma vez que ambos se beneficiariam da mesma fonte.

Brasil e Angola também poderiam oferecer tecnologia em prospecção em águas profundas. Estima-se que as reservas de hidrocarbonetos no espaço do novo bloco econômico formado nesta quarta-feira devem, em 2015, corresponder, em conjunto, ao sétimo maior produtor do mundo e ao quarto em 2025.

A reunião de Dili foi marcada pela criação de uma plataforma específica para discutir questões energéticas do bloco.

É através deste peso estratégico que Angola, Brasil, Moçambique, São Tomé e Timor-Leste veem o futuro da CPLP. O bloco pode se tornar um importante player no setor energético em menos de 20 anos. Por isso, Obiang é tão bem-vindo, sendo aplaudidíssimo por todos quando da sua chegada à cúpula.

A banda dos déspotas

Mas não há dúvidas que ver Guebuza, Zedu e Obiang comerem na mesma mesa assusta. É preciso ter “estômago empreendedor” de Lula para superar os dilemas éticos e ver futuro numa organização como estas.

Eles formam um trio de peso na paisagem política africana. Como o zimbabueano Robert Mugabe, simbolizam mais de três décadas de domínio da mesma elite econômica e política nos seus respectivos países.

É claro que reforçar a parceria econômica seria positivo se a trajetória de boa governança e transparência fosse a marca destes governos. Entretanto o cenário não é tão bonito.

Parece-me mais que a CPLP foi oficialmente cedida a grupos econômicos na cúpula de Dili. A cultura lusófona ficou em segundo plano e a maior parte da população deste espaço dificilmente perceberá algum benefício na nova configuração da comunidade.

Não seria mais lógico portanto criar uma nova organização econômica sem adulterar a CPLP?

Uma das declarações mais caricatas do evento de criação do novo bloco econômico foi proferida pelo antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, António Martins da Cruz. Ele disse que Portugal estaria condenado ao “isolamento” caso não aprovasse o ingresso da Guiné Equatorial.

Lava-se as mãos

Uma das condições para Portugal aceitar o ingresso da Guiné Equatorial na CPLP foi o fim da pena de morte no país. Em resposta, Obiang assinou um decreto neste sentido.

Entretanto, segundo a Plataforma Portuguesa das Organizações Não-Governamentais, tal documento não passa de uma “declaração de intenções, pois não foi avaliado pelo parlamento e nem foi feita uma revisão da legislação. Ou seja, não tem valor jurídico ainda.”

Mesmo assim, o governo português engoliu o engodo. Foi escrito um roteiro para a Guiné Equatorial cumprir – o mapa da CPLP.

Martins da Cruz sublinha que, “segundo os ministros dos Negócios Estrangeiros da CPLP, incluindo o português, na reunião de ministros em Maputo, em fevereiro, todos os pontos foram cumpridos”.

Sobre a pena de morte, o antigo diplomata argumentou à agência Lusa que a Guiné Equatorial “comprometeu-se perante o Conselho dos Direitos Humanos nas Nações Unidas a estabelecer uma moratória”.

Mas não se preocupem, defensores da democracia, dos direitos humanos e da ética na política, o “persuasivo” presidente de Timor-Leste, Taur Matan Ruak, já se disponibilizou a trabalhar com Obiang a fim de cooperar e desenvolver os valores “fundadores e identitários” da CPLP.

Pra quê foto?

Nos últimos anos, a CPLP tem assumido um papel político importante no intercâmbio educacional e mesmo na democratização de alguns países da comunidade. Hoje, a organização envia observadores para eleições por exemplo.

Apesar do caráter histórico do evento, aparentemente os governos brasileiro e angolano minimizaram a importância da cúpula de Dili. Enquanto os outros países-membros contaram com seus chefes de Estado na reunião, o Brasil enviou o número dois do Ministério das Relações Exteriores.

O controverso presidente angolano, José Eduardo dos Santos, também enviou o seu vice, Manuel Vicente. Dilma #emcampanha nem a instituição Zedu estiveram presentes para celebrar o novo “bloco econômico”. Talvez os dois governos que mais queriam esta reforma na CPLP não mostraram a cara na hora da foto com Teodoro Obiang.

No caso de Dilma, talvez a ausência se justifique no medo de criar um eventual desconforto desnecessário na campanha, municiando os adversários. No caso de Zedu, temo que seja pura preguiça senil.

Cérebro de…

Aparentemente, o compromisso cultural da antiga organização lusófona deve continuar, mas em um plano inferior. A chamada “globalização da CPLP” é fria.

Sob o ponto de vista das relações internacionais, o que se espera é o cumprimento eficaz dos projetos de ampliação de plataformas empresariais e de cooperação econômica e tecnológica em setores estratégicos como energia e agricultura. Pilares plenamente justificáveis, uma vez que há um imenso potencial nestes setores no bloco.

O ingresso dos observadores Japão e Turquia – uma economia emergente que aspira à União Europeia há anos – também pode ser visto como importante componente para o novo bloco econômico.

Outro fato bastante caricato que marcou a quarta-feira de Dili, além da adesão em si, está o anúncio oficial do Governo da Guiné Equatorial sobre a sua inserção na CPLP no seu site oficial na Internet – com versões em espanhol, inglês e francês, mas não em língua portuguesa.

“Por consenso dos Estados-membros da CPLP, aprovou outorgar à República da Guiné Equatorial o estatuto de país membro de pleno direito no seio da comunidade, integrada até a data por um total de oito nações, cinco delas no continente africano. O nosso país passará a ser o sexto da África e o nono em ordem cronológica de adesão a esta comunidade, criada no ano de 1996”, diz o texto

Então, me diga: que cérebro tem este animal?