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A vontade de Goodluck Jonathan

O australiano Stephen Davis ganhou notoriedade por tentar iniciar um diálogo com o Boko Haram a fim de resgatar as quase 300 jovens sequestradas pelo grupo radical em abril.

Desde o início de agosto, conforme escreve Patrick Begley, do The Sidney Morning Herald, agentes do contra-terrorismo australiano tentam saber como este relacionamento com os extremistas nigerianos começou.

Davis trabalhou como consultor da Shell na tentativa da multinacional negociar a paz com os guerrilheiros do Delta do Níger nos anos 2000. Acabou sendo consultor do próprio governo nigeriano para o acordo de paz.

Em uma entrevista a um canal de televisão nigeriano, Davis defendeu que o ex-governador da província de Borno, Ali Modu Sheriff, e o ex-chefe das forças armadas nigerianas, Azubuike Ihejirike, fossem neutralizados porque estariam patrocinando os radicais.

Sheriff negou as acusações em entrevista à DW África.

Falso porto seguro

 Há poucos dias, Boko Haram controlou Gwoza, no Estado de Borno, no Nordeste do país, e declarou um califado. A cidade não era somente composta por muçulmanos. Há relatos de execuções sumárias durante a tomada da cidade – conforme escreve Daniel Agbiboa, consultor da União Africana em seu blog na Al Jazeera.

Sob o ponto de vista étnico e linguístico, é mais lógico que as pessoas que conseguiram fugir de Gwoza engrossem os acampamentos de fugitivos do Boko Haram nos Camarões. Conforme a ONU, 650 mil pessoas deixaram suas casas nas províncias estados de Borno, Yobe e Adamawa.

Na sequência da declaração do califado, veio a fuga de quase 500 soldados nigerianos, que transpuseram a fronteira devido ao avanço dos radicais.

O território camaronês, no entanto, não pode ser considerado nenhum “porto seguro” para os refugiados. O grupo armado tem investido frequentemente nos Camarões para sequestros e pilhagens. Os principais alvos são líderes locais, estrangeiros e clérigos.

Inclusive uma das ações mais audaciosas, depois do sequestro das quase 300 jovens em abril, ocorreu no final de julho. Integrantes da seita raptaram a esposa do vice-primeiro-ministro, Ahmadou Ali, em Kolofata, a 45 quilômetros de Gwoza dentro dos Camarões.

Califado e consequências

Os ataques a postos de segurança e vilarejos camaroneses na fronteira não significam uma dor de cabeça somente para Yaoundé, mas também para o Chade. Gwoza fica a apenas 330 quilômetros de N´djamena, a capital chadeana.

A declaração de califado em Gwoza não passa de uma forma de Abubakar Shekau mobilizar seus homens e apoiadores. Do ponto de vista militar, pode ter algum impacto. Politicamente, no entanto, tal iniciativa não foi apoiada pelos outros muçulmanos nigerianos e acaba representando muito pouco.

Parece mais uma frágil tentativa de copiar a estratégia “psico-terrorista” do Estado Islâmico (EI) do que uma ação consequente. Seria o interesse te ter mais espaço na mídia. O EI também declarou califado em uma atitude sem muito efeito a não ser de mobilização dos próprios grupos radicais que o compõem.

No entanto, creio que a tomada de Gwoza, bem guarnecida e estruturada, pode significar um ponto de concentração de poder militar importante e tornar-se estratégica. Em outras palavras,  seria uma ameaça séria às comunidades do norte da Nigéria, à segurança da fronteira dos Camarões e do próprio Chade devido à proximidade com N´djamena.

Bando armado

Boko Haram não é um grupo homogêneo e seus interesses são bastante difusos atualmente. Muitos dos seus guerreiros são mercenários, oriundos do vizinho Níger que engajaram na esperança de alguns dólares.

De janeiro a agosto de 2014, foram mais de 2,200 mortes em quase 100 ações. O jornalista alemão Marc Engelhardt, em seu livro “Guerra Santa, Santo Lucro”, escreve que a partir de Agosto de 2011, após o ataque à sede das Nações Unidas em Lagos – quando 25 foram mortos e 85 feridos – o Boko Haram começou a diversificar as suas táticas de combate.

Obrigou o deslocamento de dezenas de milhares de cristãos do Norte, majoritariamente ocupado por muçulmanos, para o Sul. Conforme ONGs da região de Borno, a etnia Igbo tem sido especialmente massacrada e não acredita mais na polícia ou no exército, refugiando-se em outras áreas do país.

Vale lembrar que os Igbo foram protagonistas da sangrenta Guerra do Biafra, que opôs a província ao governo central no final da década de 1960.

Difícil solução

A declaração de Davis beira o absurdo porque o ex-governador Ali Modu Sheriff é um dos fundadores do movimento, aproveitou-se dele na política, mas, mais tarde, juntou-se ás forças armadas para sabotar a seita .

Heirich Bergstresser, por exemplo – um jornalista alemão especialista em temas nigerianos – acredita que, para Sheriff, negociar ou até mesmo patrocinar o grupo diante destes relacionamentos conflitantes seria “correr em uma aventura”.

Já o General Ihejirika não tem qualquer familiaridade com o Norte do país. No entanto, teria contribuído para a mercantilização do exército nigeriano que, por incrível que pareça, impediria que a “guerra contra o terror” seja bem-sucedida.

Afinal a prontidão contra o Boko Haram significa importante afluxo de recursos para as forças armadas, concentração de atenção e poder.

Recursos do Boko Haram

Há muito tempo o Boko Haram não é somente uma seita. Também tem características de bando armado fora da lei, sem ideologia ou fé.

Roubos, pilhagens e sequestros: é assim que o Boko Haram consegue recursos para a sua campanha de violência. Logo, a neutralização de Sheriff ou Ihejirike – mesmo se a tese de Davis for comprovada – não seria suficiente para acabar com o Boko Haram.

Bergstresser acha que ambos trabalham em um nível completamente diferente e que os principais apoiadores políticos do Boko Haram seriam os ex-governadores de províncias do norte da Nigéria depois de Sheriff.

“Estas pessoas deveriam ser chamadas para prestar contas. Colaboram para sedimentar o Boko Haram na estrutura política local”, defendeu Bergstresser em entrevista à DW África.

Um outro fator que fortalece o Boko Haram é a corrupção do sistema de segurança do país. Muitos setores da sociedade civil nigeriana acreditam que o aparelho de segurança do Estado lucre com contratos de segurança e venda de armas.

Conforme Bergstresser, tais negócios estariam sendo “colocados nos ombros de simples soldados e de civis e este seria o escândalo na Nigéria atualmente.”

Entretanto, não há nada concreto para provar um eventual “corpo mole” das forças de segurança em relação ao combate ao Boko Haram. Tais declarações podem ser até levianas diante dos massacres do grupo armado. Talvez o mais apropriado seria pensar na falta de capacidade geral do Estado em controlar a situação.

Próximas ações

No encontro entre líderes africanos e norte-americanos, chamou atenção o quanto o presidente Goodluck Jonathan foi evasivo ao falar sobre as meninas desaparecidas. Ficou claro que a crise provocada pelo Boko Haram será minimizada devido às eleições.

O tema não está no topo das prioridades no momento. A ideia é projetar a Nigéria como potência econômica emergente e atrair investidores.

No entanto, sem estabilidade interna dificilmente um país consegue atrair investidores como poderia.

Neste contexto, conforme Agbiboa, cresce o medo de que vigilantes juvenis, que se agrupam para proteger suas cidades do Boko Haram, acabem se tornando milicianos. Na província de Borno, os integrantes destes grupos já recebem dinheiro e no país são chamados de heróis por Goodluck Jonathan.

Kony 2012: pastelão ocidental

A campanha instalada em nível global pela captura do warlord ugandês Joseph Kony cai como uma luva para política externa norte-americana na África. É legítima, a iniciativa da organização “Invisible Children” (Crianças Invisíveis) em mobilizar a opinião pública do seu país e usar os canais institucionais que a sociedade norte-americana tem para exigir e pressionar por medidas em nível de Estado contra uma causa que defende.

Pode-se até discutir se é legítimo o fato de a organização pressionar por uma intervenção militar fora de seu país, mas a ONG está no seu direito ao exigir uma medida de governo. O fato é que a campanha interna deu resultado e o Congresso Norte-americano aprovou a caçada a Kony em novembro de 2011. Discuto, entretanto, se os parlamentares realmente estavam pensando nas crianças-soldados quando aprovaram a “benfeitoria”. Afinal, se é para fazer uma ação efetiva contra as crianças-soldados, que seja uma ação global. Por que somente contra Kony?

Porque todos sabem que os Estados Unidos pretendem há algum tempo aumentar sua presença militar na África Central e estavam sofrendo a oposição de alguns “líderes” africanos, principalmente do coronel Kadafi. Torna-se evidente que a morte do ditador líbio, de influência inquestionável junto a outros governos do continente, e o apoio internacional à campanha facilitam as coisas.

O incremento do AFRICOM, Comando Militar dos EUA na África, em um cenário de comoção nacional e internacional e com eventuais opositores amaciados, ganha, portanto, sinal verde. Uma quase legitimidade necessária em tempos de fracasso no Afeganistão e crescente instabilidade no Iraque, quando Obama tem que calcular cada passo bélico por motivos eleitorais.

Visível e constrangedor

Bem visível foi o vídeo divulgado pela “Invisible Children”, cuja mensagem e formato seguem uma velha receita, aquela da canção “We Are the World”, que nos anos 1980 mobilizou Ocidente e países periféricos contra a fome na Etiópia. Agora, porém, o modelo é o audiovisual e a plataforma muito mais rápida, “pulverizante”, nas redes sociais.

Hoje se sabe que os recursos ocidentais que aliviariam a fome no país do Chifre da África foram desviados para equipar e manter a guerrilha que derrubaria a ditadura marxista de Mengistu Haile Mariam em 1991, após mais de 15 anos de guerra civil. Uma ditadura marxista substituída por governos mais alinhados com o Ocidente, mas extremamente repressores.

Não surpreende, mas assusta bastante o fato de cidadãos norte-americanos ainda pensarem que suas forças armadas podem servir como “super-heróis” em qualquer lugar do planeta. O vídeo expõe, sem qualquer cuidado, crianças vítimas de violência, como os outdoors das ONGs alemãs, que insistem em expor crianças negras em colos gordos de freiras e de belas moças loiras. Tudo isso para sensibilizar os doadores.

A imprensa britânica martelou bastante em cima da campanha pela cabeça de Kony sem maiores conteúdos críticos, apoiando a causa. Brasileiros postaram no Facebook apoio e desconfiança sobre o tema.

Enfim, a “Invisible Children” conseguiu o que queria. Fez o procurado número um da Corte Penal Internacional aparecer para todos os continentes, embora a opinião pública africana e o promotor argentino Jose Luis Moreno Ocampo saberem que Kony está em solo africano, provavelmente não no Uganda, mas na República Democrática do Congo, onde tem barbarizado com seus alegados mil homens.

O evidente

Mais interessante é a manifestação da jovem ugandesa Rosebell Kagumiri, cobrando que os organizadores da campanha esclareçam sobre a situação atual do país, segundo ela mais pacífica e sem atividade do Exército de Resistência do Senhor (LRA), uma guerrilha que mistura extremismo cristão e misticismo. “Este é outro vídeo onde eu vejo um estrangeiro tentando bancar o herói, resgatando crianças africanas. Nós já vimos isto na Etiópia. Celebridades vindo para a Somália”, diz Kagumiri.

O AFRICOM é o maior empreendimento militar norte-americano no continente. Foi instalado no Uganda por ser uma país estratégico tanto no acesso a riquezas da região central e do Chifre da África, como para conter os avanços de milícias radicais. Ou seja, faz parte de um projeto de estabilização em favor dos interesses econômicos e de segurança dos “Estados Unidos pós-Afeganistão”.

Uganda é o coração do continente africano, o novo posto de polícia da região. O emprego de qualquer ação militar no Quênia e na Somália contra piratas e Al Shabaab e as investidas já anunciadas contra os grupos armados AQMI, no Magreb Islâmico, e Boko Haram, em atividade na Nigéria, está agora bastante facilitado.

O LRA já estava com seus dias contados. Há alguns meses o exército norte-americano treina militares congoleses para ações contra o grupo armado de Kony. A única dúvida nesta história é a seguinte: já que a criação da Corte Penal Internacional basea-se em uma resolução da ONU porque os chamados “capacetes azuis” não trabalham na captura de Kony e de outros da lista de Ocampo? Por que deixar o AFRICOM tomar conta da situação? Perguntas óbvias que precisam ser feitas também em nível global.

Veja o depoimento da jovem ugandesa Rosebell Kagumiri