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Que pierdan los dos!

No dia seguinte, no elevador da empresa, ouvi o seguinte diálogo:

“O que foi aquilo ontem?”
“Sim! Incrível!”
“Até vibrei no início, mas depois do terceiro gol eu senti muita pena. O que era a dor daquelas crianças na tribuna? Todas chorando!”

Eram colegas, uma alemã e outra portuguesa.

Quem conseguiria imaginar isto? A equipe com mais tradição no futebol mundial simplesmente sucumbe em casa, num estádio lotado, a um passo de chegar à decisão da competição esportiva mais importante e midiática, por um placar muito difícil de se ver no futebol profissional. O que eu ouvi dizer várias vezes foi: “parecia que jogavam contra crianças”.

Pra gente que vive no exterior, cercado de pessoas de tantas nacionalidades, o sentimento é muito chato – inclusive, creio eu, para o brasileiro ou a brasileira que nem se interessa muito por futebol. A gente tem a noção de que realmente o mundo todo viu aquele fiasco e vai ser difícil falar de futebol por um bom tempo fora do Brasil.

Eu demorei dois dias para me comunicar com os meus amigos pelo Facebook. Acho que fiquei dois dias procurando palavras. Só estou escrevendo aqui porque atendo ao pedido de dois amigos especiais que queriam informações sobre como eu estava testemunhando este momento na perspectiva do adversário vitorioso.

Pena, respeito ou engana bobo?

Qual colorado nunca pensou nisso após tomar uma sova num Grenal: como vou sair de casa na segunda-feira? Reproduzo aqui o que já escrevi para Gustavo Scotti no FB:

Naquela noite, “dormi muito menos do que queria com a festa nos últimos gols e alguns raros buzinaços. Queria que o Fred fosse trabalhar comigo no dia seguinte. Encarei uma reunião onde eu era o único estrangeiro – casualmente um brasileiro. Fizeram alusões, mas não se arriaram muito por pena (o que é muito pior do que uma zoação franca). Bom, o Fred também iria curtir receber os SMSs que ainda estou recebendo e também dar uma passadinha no supermercado comigo” para receber as “condolências” (foi esta a palavra que eu ouvi).

Eu simplesmente deixei de prestar atenção aos jornais e canais de TV locais. Sei que eles têm usado expressões como “é um sonho”, “inacreditável”… dificilmente se atrevem a falar em “massacre” ou algo que o valha. Talvez pelo cuidado natural do alemão com este tipo de expressão.

O que mais percebo é um respeito considerável pela tradição do nosso futebol. Um respeito talvez muito maior do que o do brasileiro pela própria Seleção e pelo futebol – este esporte classificado como “arte” por muitos. É claro, aos meus olhos, uma “arte” castigada pela moldura mercadológica e mafiosa, mas capaz de atrair a atenção de centenas de milhões pelo mundo durante os mesmos 90 minutos.

É inegável. Infelizmente, para alguns brasileiros, nesta coisa, o Brasil ainda é destaque e tem um patrimônio de respeito.

Como saí de casa

Horas antes do jogo, lembro-me de ter lido um título da revista Spiegel que dizia: “Robustos contra um Brasil extremamente pressionado”. Foi a melhor frase para definir o cenário e praticamente premeditar o que seria visto em campo – um time à beira de um ataque de nervos contra outro forte, reto e controlado.

Chovia muito no dia seguinte à partida. Acostumado com a cultura Grenal, fui trabalhar buscando argumentos históricos para me defender. Tentava me lembrar dos detalhes de 2002, do quão fregueses eles são, etc… Seria minha arma primeira: “Oliver Kahn amarelou!” “Somos Penta”, etc…

No entanto, os caras me surpreenderam com o respeito. Quem veio com sacanagem e muito sarcasmo foram os outros europeus ou latino-americanos. A maioria dos africanos parecia também pasma e chateada – decepcionada, eu diria.

Gentileza ou bom marketing?

Mesmo com todo este respeito, não pinto os alemães como santos no futebol. Não são. Ainda acho que Podolski, Schweinsteiger e Neuer estão sendo pivôs de um marketing bem calculado, que está dando certo no Brasil. Nada que seja desonesto, é claro. Apenas uma ação extracampo legítima.

Eles sabiam que teriam que passar de qualquer forma pelo Brasil para ir à final. Este projeto – FINAL NO RIO – muito provavelmente contava com a ideia de construir uma atmosfera favorável para a conquista do título no Maracanã.

Fotos com camisetas de diversos clubes brasileiros, interação com a população local, doações, visitas a escolas, elogios gratuitos ao país na mídia social… tudo isto tem grande chance de ser premeditado, para conquistar o público. Todas estas mensagens de elogios ao Brasil e ao brasileiro são destaques na mídia brasileira. Não surgem muito na mídia alemã.

Pelo menos que eu tenha visto. Lembro apenas de ter visto aquelas imagens do Schweini e do Neuer cantando o hino do Bahia aqui na TV alemã e das visitas às escolas. Mas as mensagens pela mídia social, eu vi na imprensa brasileira.

A tese de marketing puro dos alemães ganha mais força se você buscar por exemplo o que aconteceu no México em 1986. A seleção alemã compôs uma canção para conquistar os mexicanos, chamando o México de MI AMOR. Quem lembra disso?

Não dá pra engolir

Mas o marketing faz parte e é bem feito. Podolski e Schweinsteiger talvez fossem os jogadores mais famosos no Brasil antes da Copa e, por isso, talvez sejam os que mais martelam a ideia do “Brasil: país maravilhoso”, “levante a cabeça Brasil”, etc… Aliás, esta última me embrulha um pouco o estômago.

Mesmo assim, gostei da forma que eles trataram o resultado de terça-feira. Eles brincam com a gente, mas não pisam. Há sarcasmo, mas não há humilhação – talvez porque o resultado por si só já é humilhante. Não falam muito do placar, tentam explicá-lo. As sacanagenzinhas são muito mais leves do que qualquer cantito amargo argentino em território brasileiro.

Apesar de todo o respeito, não consigo torcer para outra seleção em uma final de Copa do Mundo no Brasil. Não dá. Talvez seja herança da tal “Cultura Grenal”. Portanto, como disseram alguns hermanos antes das quartas de final de 2002 entre Inglaterra e Brasil: “que pierdan los dos!”

Copa 2010: A Copa Sudaca e o placebo futebolístico

Sudaca é um termo perjorativo, racista. É como os espanhóis se referem a todos os sul-americanos. Para os europeus, é uma surpresa Uruguai, Paraguai e Chile, por exemplo, apresentarem bom futebol neste Mundial. Como acompanham mais enfrentamentos das seleções africanas do que as competições sul-americanas, os europeus sofrem dessas surpresas e défcits de informação por não darem atenção às eliminatórias sudacas.

Porém, para quem vive as eliminatórias da América do Sul, não há surpresa no futebol apresentado pelo Paraguai, por exemplo. Aliás, até fiquei surpreso porque, mesmo sem Cabañas, o ataque paraguaio mantém nível altíssimo, privilegiado pelo esquema audacioso de Gerardo Martino, que gosta de três atacantes de oficio em campo. O Paraguai vence com naturalidade e supremacia.

Na copa mais sudaca dos últimos tempos, encanta-me o futebol argentino, objetivo – que mistura técnica e luta na busca insistente pelo gol. O Chile tem resultado com adversários um pouco mais modestos. Porém suas atuações o credenciam a tirar, sem surpresas, a favorita da Copa – Espanha (Ah, coño, sudacas en el camino!)

Aos trancos e barrancos

O Uruguai é pura concentração e raça. Sabe que não tem o melhor time do mundo e, por isso, seus jogadores têm atenção para errar o mínimo. Forlan assumiu finalmente protagonismo que sempre se esperou dele na seleção. Aliás, o mesmo acontece com Messi na Argentina. Interessante, que os dois “camisa 10“ resolveram mostrar isso no Mundial.

E o Brasil? Erra passes fáceis; cede espaços para o adversário em um sistema defensivo privilegiado por Dunga, mas deficiente; promove o isolamento de Luís Fabiano que é facilmente dominado pela defesa adversária, enfim, se o Brasil continuar dormindo em campo, não passará das oitavas. E lamento dizer isso, mas boa parte dessa sonolência se deve ao futebol “70%” de Kaká.

Comentei para a Deutsche Welle a partida entre Brasil e Costa do Marfim neste domingo (20.06) pela segunda rodada do grupo G da Copa do Mundo. Eu confesso que fiquei espantado com o efeito do escore na crônica esportiva, principalmente brasileira. Tudo bem que o produto seleção brasileira garante os rendimentos da empresa para o resto do ano, mas não dá pra exagerar.

A ausência de Kaká pode ser melhor

Pareceu-me evidente, no jogo contra a Coréia e nos 45 minutos iniciais contra a Costa do Marfim, a falta de velocidade, movimentação e precisão de passes da seleção. Foi um time sonolento, sem explosão, desconcentrado no meio-campo, facilmente envolvido pela marcação adversária. Pareceu não saber agredir e esperar um adversario, que, covarde, não vai sair. Aí, não há jogo. No segundo tempo, o Brasil foi favorecido porque a Costa do Mafim teve que sair e expôs sua frágil defesa.

Contra Portugal, Dunga conseguirá provar porque não convocou Ganso, por exemplo. Talvez o substituto de Kaká dê movimentação e vivacidade ao meio-campo. Kaká é indiscutivelmente o melhor jogador do elenco, mas precisa estar inteiro. Do contrário, o efeito dele em campo é o mesmo de Ronaldinho – um placebo futebolístico.

Com este futebol, um confronto com qualquer outro sudaca é fatal para o Brasil. Em um eventual enfrentamento, quem optar por propor o jogo, fica perigoso para o Brasil. Argentina e Paraguai, por exemplo, podem propor o jogo contra o Brasil porque têm estrutura no setor defensivo. O Paraguai fez isso em Assunção em 2008. Ganhou do Brasil por 2 gols com naturalidade. Pegar o Paraguai já seria complicado. Imagine a Argentina nesta fase boa?

Abaixo um dos momentos mais tristes da seleção brasileira na África do Sul. Diante da perda de elegância, não há comentários. “Era Dunga” dentro das quatro linhas, mas, hoje, tornou-se um Zangado nas coletivas e sua seleção, Soneca diante dos advesrários da copa. Está bem, o Maradona – um Dengoso com seus jogadores.