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Os olhos de vacina da OMS

Em uma mesa na calçada, num barzinho improvisado junto às vendedoras de bebida e petiscos da região do Império, no centro de Bissau, tomava cerveja com alguns amigos guineenses. Eles comentavam entusiasmados sobre as várias atrações turísticas de sua terra. Era meados de abril, falávamos sobre o que fazer no fim de semana até que uma ideia já nascia interditada:

– Pessôa, eu queria que tu comesses macaco, pá – disse Sadja.
Eu confesso que fiquei tentado a experimentar. Nunca me imaginara comendo tal carne.
– O Júlio, aqui – ele apontava para uma das pessoas à mesa – faz uma carne de macaco maravilhosa!
– Eu coloco um limãozinho, deixo um tempinho a mais no tempero e ela fica deliciosa – completava o cozinheiro, explicando-me os detalhes da limpeza do bicho, da retirada da pele, da cabeça, etc…

De qualquer forma, não seria daquela vez que experimentaria o macaco do Júlio. O ébola (ou ebola) estava à volta e qualquer pessoa com algum esclarecimento sobre o vírus já não se arriscava mais a comer a carne. Morcego também não apetecia mais, poderia ser fatal.

O ébola, em abril, já aterrorizava a Guiné-Conacri e mexia com a cultura e com os costumes de toda a África Ocidental, incluindo a vizinha Guiné-Bissau.

De pobres para pobres

Tais males proliferam em meio à precariedade. E podem acreditar que o prazer de comer o macaquinho e o morceguinho no fim de semana não faz parte desta tal precariedade. O que está em questão aqui são ideias já bastante batidas na saúde pública: qualidade em vigilância, prevenção de agravos e resposta.

O alerta para a não ingestão da carne é uma medida preventiva “tardia”, por mais contraditório que isto possa soar.

O que deveria ocorrer é a mobilização constante para que a doença incurável e altamente letal (com mais de 60% de óbitos) não se alastrasse. Para isso, é claro, seria preciso um sistema de saúde bem estruturado nestes países – com planejamento, recursos e previsão de medidas emergenciais eficientes.

Mas esta infelizmente não é a realidade da África Ocidental e de outras tantas regiões do planeta. O ébola faz estremecer as frágeis estruturas de saúde de Libéria, Serra Leoa e Guiné Conacry. A baixa capacidade de resposta preventiva e a infra-estrutura inadequada das unidades de saúde tornam a epidemia especialmente dramática na região.

Mesmo a Nigéria, que vive um boom econômico e se encontra em estado de emergência, não teria condições de atender às pessoas infectadas de forma adequada, caso o vírus se espalhasse pelo país. “O potencial de resposta é muito lento”, dizia-me um jornalista nigeriano, reproduzindo a voz corrente dos especialistas locais. A Nigéria registrou três mortes por ébola.

O mantra

“Deus salve as ONGs e a indústria farmacêutica!” Este parece ser o mantra da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos governos dos países afetados. Ora, convenhamos, soa-me como uma cantilena de mau gosto.

O ébola foi descoberto há quase 40 anos. Não se pode admitir que algumas regiões consideradas de risco não contem com todos os recursos humanos e materiais necessários para uma pronta resposta.

O vírus surge onde hoje é o Sudão do Sul e no noroeste da República Democrática do Congo (RDC) na década de 1970. Volta à tona nos anos 1990, na Costa do Marfim, Gabão e na região central da RDC. Nos anos 2000, RDC, Gabão, Congo Brazzaville e o território do atual Sudão do Sul registram mais casos. Dessa vez, Guiné, Serra Leoa e Libéria são os países afetados.

Pelo menos desde os anos 1990, a OMS deveria participar ou colaborar de forma efetiva com a prevenção e pronta resposta ao ébola na África Ocidental e Central, incluindo a RDC e Sudão do Sul. Afinal, um novo surto poderia acontecer a qualquer momento de tal forma que a falta de parcerias sólidas entre a OMS e os setores governamentais é injustificável.

Conforme informações da ONG Médicos sem Fronteira (MSF), além de recursos materiais básicos, falta mão de obra qualificada. Médicos precisam ser treinados às pressas para lidar com o vírus em toda África Ocidental.

Além de recrutar profissionais e levantar equipamento para lidar com o problema, a MSF instala unidades de tratamento em diversas cidades das regiões de risco. Será que estes países precisariam de tanto esforço das ONGs se contassem com o apoio permanente da OMS e da comunidade internacional para qualificar o sistema de saúde pública?

Tal esforço seria plenamente justificável porque, afinal de contas, a ameaça é global. Não haveria quem pudesse torcer o nariz caso a OMS assumisse à frente nesta luta para evitar o ressurgimento do ébola, certo?

O deleite farmacêutico

Errado, porque existe quem lucra com isto. Na continuação da tal precariedade, surge o deleite farmacêutico oportunista. A “indústria da doença” está em festa e emergiu nesta semana como a “salvadora da humanidade”. Colhe os frutos plantados pela omissão da OMS e falta de recursos dos Estados atingidos. Sem vigilância, prevenção e resposta, a tal indústria entra em ação e, a médio prazo, prepara-se para fazer dinheiro.

O ébola parece fora de controle. Já são cerca de 1,8 mil infectados e mais de mil mortos. O pânico e o despreparo leva, neste momento, a implementação de um produto inacabado – o ZMapp. Logo, qualquer iniciativa, por mais inócua que seja, é vista como a última esperança e não encontra oposição ou discussão.

O governo norte-americano aceitou colocar à disposição de Libéria e Nigéria o soro curativo contra o vírus. O ZMapp será fornecido alegadamente de forma gratuita para administração controlada para profissionais de saúde eventualmente infectados. No caso da Libéria, houve solicitação expressa da presidente Ellen Johnson Sierleaf. No auge de sua impotência, o governo liberiano celebra oficialmente a medida drástica.

Com as mãos amarradas

Antes inoperante e agora atrasada, a OMS se resume a rotular o ressurgimento da doença como “emergência global”, mobilizar recursos e aprovar eticamente o uso do ZMapp, atendendo aos apelos da empresa californiana Mapp Pharmaceuticals e dos governos reféns da epidemia.

Há alguns meses, a empresa tem se manifestado na mídia internacional em favor do uso de seu medicamento contra o ébola, mesmo que sem um teste prévio. O discurso era: “diante do elevadíssimo risco de morte, que se use o que há, por mais que não tenha sido testado.”

Assim, abriu-se o precedente e pelo menos outras seis empresas norte-americanas devem estar prontas para testar seus medicamentos em “cobaias africanas” nas próximas semanas.

Com se não bastasse, a Libéria sofre os efeitos econômicos do ébola. A maioria das empresas estrangeiras já retirou o seu pessoal do país, os voos para a Libéria estão suspensos e os funcionários do Governo cumprem pausa obrigatória de 30 dias. Entre abril e junho deste ano, o surto já custou à economia da Libéria 12 milhões de dólares, segundo o ministro das Finanças, Amara Konneh, disse à reportagem da DW África.

O abrandamento dos negócios também já está a ser sentido pelos comerciantes locais. A rede hoteleira começa a ser comprometida, com o país sendo praticamente interditado para o turismo. Na boleia da doença vem a miséria, como se não bastasse.

A musa da corrupção na África

Os jornalistas brasileiros costumam apontar musas para tudo. Tem a musa dos campeonatos de futebol, das novelas, das piscinas dos clubes, dos BBBs e dos terríveis programas dos fins de semana da TV aberta. São geralmente mulheres que se aproximam mais daquilo que a sociedade machista elegeu como “ideal de beleza”.

Eu vou exagerar um pouquinho neste “direito midiático” e propor mais um título neste rol: “a musa da corrupção na África”. Eis algo que estava caindo de maduro… ou madura, uma vez que a musa em causa tem lá seus 40 anos.

Isabel dos Santos – a filha mais velha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, é bonita e bem tratada. A revista Jeune Afrique, que traz na sua última edição as pessoas mais ricas da África, dedica a página central à angolana.

Isabel é descrita como uma mulher que corria dos holofotes da mídia até o final de março deste ano. Resolveu, entretanto, colocar o pescoço para fora da toca e conceder uma entrevista ao Financial Times. Aí, acabou sendo apanhada para não sair mais de jornais e revistas – ficando marcada internacionalmente de uma forma que, talvez, não esperasse. Bastante desconfortável para quem luta com unhas e dentes pelo rótulo de empresária

Ovos de ouro

Para o jornal londrino, ela negou que era favorecida, mesmo que licitamente, pela influência de seu pai. Declarou que sempre teve tino de negócios e que iniciou aos 6 anos de idade, vendendo ovos. Em Angola, ficou conhecida como “a menina dos ovos”.

Hoje, a “musa dos ovos de ouro”, segundo colegas jornalistas que prefiro não identificar, evita qualquer contato com a população, usando escolta de seguranças e limusine blindada.

Conforme a Jeune Afrique, Isabel ostenta um iate de 400 mil dólares em Marbella, na Espanha, usado apenas uma vez para comemorar o seu aniversário de 38 anos. A manutenção da embarcação custa 40 mil euros.

Neste ano, a revista Forbes apontou Isabel dos Santos como a primeira mulher bilionária do continente. A mesma Forbes, meses depois de tê-la colocado no pedestal dos ricos, mostrou-lhe a humilhação pela pura corrupção.

A “filha do papá” foi alvo de uma matéria difícil de se fazer no “Estado-patrulha” angolano, onde a imprensa livre é um sonho. O texto, assinado por Rafael Marques e Kelly Dolan, acusa a empresária de enriquecimento ilícito e favorecimento por nepotismo.

A revista publica que “todos os grandes investimentos angolanos detidos por Isabel vêm de uma empresa que quer fazer negócios no país ou de uma assinatura presidencial que a inclui na ação”.

Conversei com Rafael Marques que diz ter encontrado provas do favorecimento econômico à filha do presidente através da simples pesquisa no Diário Oficial de Angola. “É um caso claro de nepotismo e corrupção, quando o presidente usa o seu poder de Estado para facilitar o enriquecimento da filha”, ressaltou o jornalista que classifica o regime como uma “cleptocracia”.

Rica por decreto

O caso da empresa Nova Cimangola, também publicado pela Forbes, é bastante contundente. O governo angolano, segundo Marques, teria abocanhando 49% da empresa de cimentos por 74 milhões de dólares públicos. O negócio foi fechado pelo ministro das Obras Públicas, Higino Carneiro, e pelo ministro das Finanças José Pedro de Moraes.

Após alguns dias, a compra feita pelo Estado teria passado, conforme Marques, para a titularidade da Ciminvest “que é uma empresa que Isabel dos Santos admite ser sua. A Ciminvest foi criada alguns dias antes desta transação.”

Jornais portugueses e angolanos divulgaram que a transação fora feita com financiamento do Banco BIC Português, do qual Isabel é acionista. “Ela não poderia conceder empréstimo a si própria. Foi uma justificativa de fachada. Não existe registro desta transação no diário da república. Quando se compra bens do Estado, deve haver um concurso público”, questiona Marques.

A Forbes divulga que Isabel dos Santos teria 24,5% da Endiama, a empresa concessionária da exploração mineira no Norte do país, criada por decreto presidencial. A revista cita que Isabel também assumira por “decreto” o controle de 25% da Unitel, a primeira operadora de telecomunicações privada do país.

A grande família

O texto dos jornalistas apresenta a versão da porta-voz de Isabel dos Santos, afirmando que a empresária “pagou pela sua parte da Unitel, mas não especificou a quantia. Um ano depois, a Portugal Telecom pagou 12,6 milhões de dólares por outra fatia de 25%”.

Mesmo com a assessoria de imprensa da empresária divulgando nota e trabalhando duro para encontrar argumentos a fim de negar as acusações, o histórico da família dos Santos pesa contra Isabel. Marques lembrou, em matéria publicada na DW África, que outros familiares são favorecidos.

José Filomeno dos Santos “Zenu”, filho do presidente angolano, é o vice-presidente da Administração do Fundo Soberano de Angola (FSA), uma instituição pública que seria dedicada a financiar projetos de desenvolvimento. E não para por aí: “Tchizé” dos Santos, outra filha do presidente, está à frente da gestão de um dos canais da Televisão Pública Angolana (TPA 2). Nenhum dos dois contariam com a simpatia da irmã mais velha.

Prejuízo incalculável

Nem mesmo o somatório da fortuna da família do presidente pode oferecer alguma noção do quanto Angola é prejudicada pela péssima gestão pública.

A esclarecedora matéria de Guilherme Correa da Silva para a DW África lembra que, em 2012, Angola voltou a ter nota ruim na lista da organização Transparência Internacional sobre percepção da corrupção. Ficou no lugar 157 num conjunto de 176 países.

O colega ouviu o consultor alemão Markus Weimer, da Control Risks, que comentou a dificuldade que um investidor externo enfrenta para fazer negócios em Angola. “Quando se faz uma parceria com uma empresa angolana, não é muito fácil encontrar os documentos no ramo público para fazer o ‘due dilligence’, como se deve fazer”, explica o analista.

Weimer disse a Guilherme que acaba sendo um desafio investir no país. “Mas acho que, com o investimento de tempo e recursos e também com bom aconselhamento, pode-se fazer negócios em Angola sem correr o risco de corrupção”, acrescenta.

Apenas para lembrar: conforme o RMG, Angola é o segundo produtor de petróleo da África, faturando 70 bilhões de dólares anualmente, e é responsável por 7% da exportação de diamantes no continente. O país é considerado potência econômica emergente na região, com crescimento econômico em franca ascensão: 1,6% em 2010, 7,8% em 2011 e 10,5% em 2012.

Por outro lado, a população, vitimada por anos de guerra civil, acumula índices perversos. Conforme o PNUD, é o sétimo país com índice mais baixo de desenvolvimento humano pela segunda vez consecutiva em 2013. Segundo a Human Rights Watch, 3% da população têm acesso à Internet. A UNESCO aponta que 75% dos angolanos vivem com menos de 1,5 dólar por dia e mais da metade da população adulta é analfabeta.

Em outras palavras, a musa deste texto está afundada na lama de um dos regimes mais cínicos e cruéis do planeta.

A cinco dias do caos

Integrantes da sociedade civil zimbabueana e políticos do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) discutem via Facebook o que farão após a vitória eleitoral do presidente Robert Mugabe, há 33 anos no poder.

A alegação de massivas fraudes é geral. O MDC denunciou que nomes de eleitores não constavam nas listas de votação, publicadas menos de 24 horas antes da eleição – o que teria inviabilizado a verificação independente.

A ONG Rede de Suporte para as Eleições (ZESN) enviou sete mil observadores para diversas partes do país e indicou que cerca de um milhão de nomes desapareceram das listas eleitorais. O número de eleitores cadastrados deveria ser de 6 milhões.

Via Facebook, conversei com alguns líderes da sociedade civil do país e com zimbabueanos radicados na Europa. Muitos pedem para se “esperar os resultados oficiais”. “Seria eu um dos poucos cidadãos que viveram em um mar de admiração e nostalgia pela ZANU-PF?”, provoca um dos líderes de uma importante ONG do país.

Alguns mostram impotência, certos de que houve fraude: “nós lidamos com a mais sofisticada ditadura”, diz um zimbabueano na diáspora também pelo Facebook. Há os que querem ir para as ruas protestar. “É meu futuro que está em jogo. Eu não vou mais permitir isto. Vamos para a “Freedom Square” contra esta fraude”, disse um amigo ativista, que também prefiro não identificar.

Eternizado no poder

Integrantes do partido União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (ZANU-PF), de Mugabe, têm declarado informalmente que venceram o pleito. “Nós ganhamos de forma bastante enfática”, disse um representante do partido para agências de notícias sob a condição de anonimato.

A armação parece ter ficado bem clara quando Mugabe não aceitou a presença de observadores e jornalistas ocidentais nas eleições de quarta-feira (31/07). A União Africana, entretanto, já disse que o pleito foi “pacífico, ordeiro, livre e justo.”

Morgan Tsvangirai, um antigo sindicalista que emergiu no final dos anos 1980, com longa trajetória de resistência e várias prisões “subversivas” no currículo, assiste, pela terceira vez como candidato, o mesmo filme. “As eleições foram uma farsa. Não vão refletir a vontade do povo”, disse nesta quinta-feira Tsvangirai, que há poucos dias exercia o cargo de primeiro-ministro na precária partilha de poder do país.

Rumo à violência

As palavras de Tsvangirai refletem na mídia social e tendem a inflamar a sua militância, acostumada a um ambiente de violência pós-eleitoral. Desde 2008, os esforços de partilha do poder têm o objetivo de levar as duas correntes políticas ao diálogo.

Em cinco dias, os resultados das eleições serão divulgados. Em caso de vitória de Mugabe, é possível haver manifestações de oposicionistas indignados pela fraude eleitoral. Em caso de derrota do líder zimbabueano temporão, dificilmente a cúpula da ZANU-PF vai aceitar os resultados, podendo repetir a onda de violência após a derrota no Primeiro Turno em 2008.

Ou seja, não há alternativa. Em cinco dias, a não ser que algo extraordinário aconteça, é muito grande a chance de nova onda de violência. Haverá conflito. Resta apenas saber em que escala.

O Zimbábue mostra que viveu eleições sem estar preparado. É o desfecho da partilha de poder apressada e mal negociada pelo MDC. A frágil democracia da África Austral acumula mais uma derrota. Até quando?

Ego trip revolution

I have decided to open another blog since I noticed two different types of readers during last months. Many people would like to know more about my personal experience here in Europe, and sometimes in Africa. Other people, on the other hand, would rather know my opinion about Geopolitical issues.

That is why I start a new blog that only touches upon Ego-trips. If you would like to know more about my experience, my point of view concerning places where I have been as well as my contacts with interesting people that I have met, please visit www.egotriprevolution.wordpress.com. This blog will be written in English, but I am open for changes, if you as a reader think that I should make it in Portuguese.

If you want to know more about critical issues in the political agenda, international relations with an African emphasis, go for http://www.blogdopessoa.wordpress.com. There is lack of qualified information about Africa in Brazilian Portuguese. As well as, the quantity of debatable measures towards Africa that Brazil does inside its own territory and abroad justifies why http://www.blogdopessoa.wordpress.com will be written in Portuguese.

Yes…maybe you ask yourself how I will have time to maintain two blogs. I don’t even know that. However, this is a good way to respond to people that demand different kind of information from me, concerning to my career and my life nowadays. I hope you enjoy it. If you have some suggestion, please feel free to talk to me. Everything can be changed.

The www.egotriprevolution.wordpress.com will be online in July.

Kony 2012: pastelão ocidental

A campanha instalada em nível global pela captura do warlord ugandês Joseph Kony cai como uma luva para política externa norte-americana na África. É legítima, a iniciativa da organização “Invisible Children” (Crianças Invisíveis) em mobilizar a opinião pública do seu país e usar os canais institucionais que a sociedade norte-americana tem para exigir e pressionar por medidas em nível de Estado contra uma causa que defende.

Pode-se até discutir se é legítimo o fato de a organização pressionar por uma intervenção militar fora de seu país, mas a ONG está no seu direito ao exigir uma medida de governo. O fato é que a campanha interna deu resultado e o Congresso Norte-americano aprovou a caçada a Kony em novembro de 2011. Discuto, entretanto, se os parlamentares realmente estavam pensando nas crianças-soldados quando aprovaram a “benfeitoria”. Afinal, se é para fazer uma ação efetiva contra as crianças-soldados, que seja uma ação global. Por que somente contra Kony?

Porque todos sabem que os Estados Unidos pretendem há algum tempo aumentar sua presença militar na África Central e estavam sofrendo a oposição de alguns “líderes” africanos, principalmente do coronel Kadafi. Torna-se evidente que a morte do ditador líbio, de influência inquestionável junto a outros governos do continente, e o apoio internacional à campanha facilitam as coisas.

O incremento do AFRICOM, Comando Militar dos EUA na África, em um cenário de comoção nacional e internacional e com eventuais opositores amaciados, ganha, portanto, sinal verde. Uma quase legitimidade necessária em tempos de fracasso no Afeganistão e crescente instabilidade no Iraque, quando Obama tem que calcular cada passo bélico por motivos eleitorais.

Visível e constrangedor

Bem visível foi o vídeo divulgado pela “Invisible Children”, cuja mensagem e formato seguem uma velha receita, aquela da canção “We Are the World”, que nos anos 1980 mobilizou Ocidente e países periféricos contra a fome na Etiópia. Agora, porém, o modelo é o audiovisual e a plataforma muito mais rápida, “pulverizante”, nas redes sociais.

Hoje se sabe que os recursos ocidentais que aliviariam a fome no país do Chifre da África foram desviados para equipar e manter a guerrilha que derrubaria a ditadura marxista de Mengistu Haile Mariam em 1991, após mais de 15 anos de guerra civil. Uma ditadura marxista substituída por governos mais alinhados com o Ocidente, mas extremamente repressores.

Não surpreende, mas assusta bastante o fato de cidadãos norte-americanos ainda pensarem que suas forças armadas podem servir como “super-heróis” em qualquer lugar do planeta. O vídeo expõe, sem qualquer cuidado, crianças vítimas de violência, como os outdoors das ONGs alemãs, que insistem em expor crianças negras em colos gordos de freiras e de belas moças loiras. Tudo isso para sensibilizar os doadores.

A imprensa britânica martelou bastante em cima da campanha pela cabeça de Kony sem maiores conteúdos críticos, apoiando a causa. Brasileiros postaram no Facebook apoio e desconfiança sobre o tema.

Enfim, a “Invisible Children” conseguiu o que queria. Fez o procurado número um da Corte Penal Internacional aparecer para todos os continentes, embora a opinião pública africana e o promotor argentino Jose Luis Moreno Ocampo saberem que Kony está em solo africano, provavelmente não no Uganda, mas na República Democrática do Congo, onde tem barbarizado com seus alegados mil homens.

O evidente

Mais interessante é a manifestação da jovem ugandesa Rosebell Kagumiri, cobrando que os organizadores da campanha esclareçam sobre a situação atual do país, segundo ela mais pacífica e sem atividade do Exército de Resistência do Senhor (LRA), uma guerrilha que mistura extremismo cristão e misticismo. “Este é outro vídeo onde eu vejo um estrangeiro tentando bancar o herói, resgatando crianças africanas. Nós já vimos isto na Etiópia. Celebridades vindo para a Somália”, diz Kagumiri.

O AFRICOM é o maior empreendimento militar norte-americano no continente. Foi instalado no Uganda por ser uma país estratégico tanto no acesso a riquezas da região central e do Chifre da África, como para conter os avanços de milícias radicais. Ou seja, faz parte de um projeto de estabilização em favor dos interesses econômicos e de segurança dos “Estados Unidos pós-Afeganistão”.

Uganda é o coração do continente africano, o novo posto de polícia da região. O emprego de qualquer ação militar no Quênia e na Somália contra piratas e Al Shabaab e as investidas já anunciadas contra os grupos armados AQMI, no Magreb Islâmico, e Boko Haram, em atividade na Nigéria, está agora bastante facilitado.

O LRA já estava com seus dias contados. Há alguns meses o exército norte-americano treina militares congoleses para ações contra o grupo armado de Kony. A única dúvida nesta história é a seguinte: já que a criação da Corte Penal Internacional basea-se em uma resolução da ONU porque os chamados “capacetes azuis” não trabalham na captura de Kony e de outros da lista de Ocampo? Por que deixar o AFRICOM tomar conta da situação? Perguntas óbvias que precisam ser feitas também em nível global.

Veja o depoimento da jovem ugandesa Rosebell Kagumiri

Não dá para esquecer

A minha chegada em Harare foi muito tranquila. Não houve qualquer revista na entrada do país. A única coisa que me deixou bastante chateado foi o fato de, mesmo tendo um visto válido até janeiro de 2011, ter que me apresentar no escritório da migração no próximo dia 15 para retirar uma renovação do visto. Provavelmente terei que pagar mais uma taxa pela renovação, talvez os mesmos 30 dólares que eles cobram para o estrangeiro que chega no país sem visto.

Chegando na área rural de Kwe-kwe para a discussão sobre a constituição do país com a comunidade

Em outras palavras a minha expectativa é terminar esta burocracia de entrada no país com um prejuízo de 50 euros. Antes da viagem, paguei 90 euros à embaixada zimbabueana em Berlim pelo visto de múltiplas entradas no país. Eles não aceitaram me conceder este tipo de visto, ficaram com meu dinheiro e me deram direito a dupla entrada, que custa 70 euros. Poderia ter pago 30 dólares no aeroporto e me sentiria menos roubado.

Harare é uma cidade que vive às escuras. Não há iluminação pública constante. No local que estou morando, na área norte da cidade, os postes existem, mas não funcionam. Semáforos parecem funcionar em regime de racionamento, revezando o abastecimento pelas diferentes áreas ao longo das semanas, assim como o fornecimento de energia elétrica às residências. Uma cidade com 3 milhões de habitantes, com pavimentação apenas na região central. Isto é Harare – que significa em shona (Ele não dorme). Pode não dormir, mas não é por luz em excesso.

Visitando residência com líderes comunitários

Massacre dos anos 1980

Após cinco dias em Kwe-kwe, a 300 km de Harare, participanado do processo de debate da nova constituição do país junto a comunidades rurais, fui um pouco mais adiante em direção à fronteira com Botswana para conhecer Bulawayo, que é a segunda maior cidade do Zimbábue, a 500km ao sul de Harare. É uma cidade de muita história. A etnia ndebele é, digamos assim, “irmã” dos zulus sul-africanos. Atualmente é a segunda etnia que compõe o povo zimbabueano. No final do século XIX, ndebeles invadiram e mataram os shona que viviam na região. Mais tarde, após a independência reconhecida pelo mundo ocidental, em 1980, após a ascenção do atual presidente ao poder, ocorreu o massacre de 40 mil ndebele na região porque as lideranças da área queriam se separar do Zimbábue. Os shona são a grande maioria hoje no Zimbábue.

Bulawayo é uma cidade mais bonita, sem os congestionamentos de Harare, com um povo acolhedor, mas, ainda assim, às escuras. Não tem os prédios altos da região central da capital zimbabueana, mas há prédios coloniais bastante marcantes. Sofre da mesma mazela econômica e a criminalidade na região é assustadora, assim como em Harare. Fiquei dois dias na cidade, pagando 25 dólares por um quarto de hotel sem chuveiro quente após terem me prometido este item de conforto. Tentaram me compensar oferecendo banheiras que pareciam ter sido limpas pela última vez na década de 1970.

Almoço na área rural de Kwe-kwe

Isso não chega a ser um problema porque o banho frio faz parte da minha vida aqui no Zimbábue. No inverno, o zimbabueano toma seu banho gelado, mantendo a boca fechada para não pegar cólera. Quando falta luz pela manhã e à noite, como aconteceu toda esta semana que passou, o banho é de balde. Não me incomoda e, para eles, isso faz parte do cotidiano. Além do mais, nem sempre faz tanto frio como agora, quando a temperatura está entre os 7 e15 graus.

A homenagem da vida

Estou na casa de Mr. Mavhiki e de sua filha Rose. Uma residência bastante simples, mas com pessoas maravilhosas, especiais mesmo. Neste domingo, fizeram uma festa em minha homenagem, que, eu confesso, nunca tive igual. Foram cerca de 20 pessoas da família que se reuniram para celebrar a minha presença com direito a discursos emocionados e tudo.

Sempre lembrando Ruvimbo, os familiares me davam as boas-vindas e se colocavam à disposição para me ajudar, deixando contatos telefônicos e endereços. Mr. Mavihki estava adorando a quantidade de cerveja no freezer. “Marcio, você está feliz?”, ele me perguntava. Quando eu respondia que estava, ele dizia: “se você está feliz, eu também estou feliz!”.

Ao fundo, de boné branco, Mrs. Elizabeth Musonga. Ganhei a camisa que estou vestindo. Este é o início da festa. Mais tarde, chegariam mais convidados amontoados em uma caminhonete. Dançamos ao som de músicas locais das 14h até às 23h. Uh, festerê!

A idéia era fazer uma festa surpresa, mas, devido a minha viagem para Bulawayo, tiveram que me contar sobre o evento para que eu realmente não marcasse nada para domingo. Porém, eles me surpreenderam de qualquer forma pela comida, pelas danças e pela alegria. Eu realmente me apeguei a todos e, com muito respeito, levo mais esta lembrança desta jornada longe do meu país. A energia que recebi e a força de todos ali são coisas que nunca mais vou esquecer e vou levar certamente para o resto dos meus dias.

O conto (12.07.2010)

Chegando de Bonn após fazer o comentário do jogo final da Copa do Mundo para a Deutsche Welle, às 5h da manhã, depois de mais uma viagem de 3 horas e meia de trem até Osnabrück, cheio de sono, ilumino o meu coração ao abrir a caixa de correspondência e ver uma carta da embaixada zimbabueana em Berlim com meu passaporte e o visto de entrada no Zimbábue com validade até 07 de janeiro de 2011.

No dia seguinte, chegaria de Porto Alegre o meu cartão com registro da minha vacinação contra febre amarela feita em 2003 na ocasião da minha viagem para Caracas em função de um prêmio de jornalismo. O cartão tem validade até 2013.

A semana de viagem para Harare não poderia começar melhor. Havia consultado um médico na semana anterior que me receitou comprimidos contra malária cujo efeitos colaterais eram um pouco menos devastadores para o sistema nervoso central. Seria necessário ingeri-los somente dois dias antes de ir para uma região de alta incidência de malária e adotar a estratégia de usar sistematicamente repelente enquanto estivesse na capital do país.

Cadeira que trabalhei na DW, deixei meu chimarrão na Alemanha.

Claro que a burocracia para uma viagem dessas ocupou todo o meu tempo durante a semana. Não terminei nem mesmo trabalhos acadêmicos que, é verdade, têm prazo para 31 de setembro, mas pretendia concluí-los o mais rápido possível por não saber como é a Internet e por não confiar que seria tão fácil me concentrar em tarefas pendentes do mestrado com tanta coisa nova para absorver.

Conseguir meu visto não foi tão simples como o meu primeiro contato com a embaixada zimbabueana me fez pensar que seria. Primeiro lugar, fui extremamente bem tratado pelo funcionário da embaixada responsável pelos vistos, Mr. Robert Mabulala, o que já é um bocado atípico. O sujeito fez uma festa quando descobriu que eu sou brasileiro e disse que precisaria de um formulário preenchido com informações básicas a meu respeito e com a escolha do tipo de visto que gostaria. Bom, evidentemente omiti que era jornalista com medo de não conseguir o visto por uma bobagem. Afinal de contas, vou fazer uma pesquisa de campo não registros jornalísticas. Robert me disse que, uma vez com o formulário em suas mãos e as taxas pagas, o visto demoraria até sete dias úteis para chegar às minhas mãos.

Muito bem, creio que foram quase quatro semanas para eu receber o visto. Harare não aceitou me dar o tipo de visto que solicitei e paguei (quase 90 euros). Havia pedido um visto de múltiplas entradas durante 3 meses no país porque, apesar da minha situação financeira nada confortável, tinha a esperança de ir para Moçambique visitar colegas jornalistas e “um terceiro território a minha escolha”. Porém, Harare bateu o pé querendo me dar apenas um visto de dupla entrada no país no valor de 60 euros. Ainda pediram para os integrantes da organização que vai me receber, a Crisis in Zimbabwe Coalition (CZC), relatarem oficialmente o que irei fazer no país.

Após uma semana de negociações, acabei ficando com o visto de 60 euros tendo pago por um de 90. Não chorei pelo prejuízo já que sei para onde estou indo e este pode ser o primeiro de vários pequenos problemas a serem enfrentados nesta empreitada.

Esqueça que é jornalista (15.07.2010)

Obert Odhzi é um homem calmo, de fala mansa. Trata-se de um bacharel em direito zimbabueano com pós-graduação em relações internacionais na África do Sul e meu colega no mestrado em Governança Democrática e Sociedade Civil em Onsabrueck, Alemanha. Não existe como tirá-lo do sério, talvez pela sua flagrante assiduidade religiosa. Entre os alertas que Obert me deu a respeito do meu período em sua terra natal estão frases do tipo: “cuidado com o interior do país, é terra de ninguém. Não beba água em qualquer lugar devido à cólera, não coma em qualquer lugar porque os alimentos são geralmente mal acondicionados, não pague nada para ninguém, não dê confiança para desconhecidos porque podem estar coletando informações sobre você e jamais, eu repito, jamais diga que você é um jornalista porque não tem autorização para exercer sua profissão por lá. Esqueça que é jornalista.”

Se eu fosse um pintor de parede em um estágio técnico qualquer, o quadro seria menos ameaçador. Porém, sou um jornalista de ofício com matérias feitas sobre a política zimbabueana sob o ponto de vista da imprensa ocidental. Acentuava-se a incerteza sobre o que poderia acontecer ao chegar à migração com computador, gravador, máquina fotográfica e livros sobre democracia e políticas públicas. Claro, posso ser um estudante indo fazer uma pesquisa de campo acadêmica, mas ainda sou um jornalista. Se tiverem esta informação e me virem entrando com gravador e câmera fotográfica, vou ter que me explicar. Aí, até provar que mula não é cavalo já estarei na prisão ou no próximo vôo de volta à Europa. Claro que prefiro a segunda opção, afinal ser prisioneiro político no Zimbábue deve ser algo bem desconfortável. Mesmo após ser tranquilizado pelo diretor da CZC, McDonald Lewanika, que disse que não iria acontecer nada, fiquei ansioso para ver logo no que está história iria dar.

Deixei Taku em Osnabrueck e Xuxu no portão de embarque para o Timor Leste

A noiva de Obert, Ruvimbo Natalie Mavhiki, estuda Ciências Políticas na Universidade de Bremen. Tive a oportuniadade de conhecê-la em um “churrasco almeão” a céu aberto (o famoso grill) realizado no início do verão europeu de 2010, na ocasião do aniversário de uma colega caraquenha – Esther Maria.

Ruvimbo significa “esperança” em shona, nomes da língua local e da etnia predominante no país. É uma moça de sorriso franco e fascinante. Obert arranjou para que nos conhecêssemos e nesta oportunidade surgiu o convite para que eu ficasse na casa de seu pai, Mr. Clifford Mavhiki, durante o perído que estivesse em Harare. Conversamos e acertamos o preço. Deveria pagar 150 dólares por mês pela estadia. “Se você gosta de cerveja, vai adorar o meu pai”. Bom, interessante referência, mas eu diria que não seria a melhor caracaterística que um abstêmio espera encontrar em um anfitrião.

Sim, por acaso, nunca fui tão abstêmio quanto hoje. Ingressei desde o dia 19 de Maio em um onda saúde total. Separando até uma hora e meia do meu dia para atividades físicas, perdendo, em quase dois meses, 10 Kg. Reduzindo quase que 100% a ingestão de bebida alcoólica, uma atitude considerada corajosa quando se é estrangeiro e se vive na Alemanha, onde a cerveja espetacular e o inverno um tanto depressivo para um latino-americano acabam sendo um convite à fuga da realidade, por mais efêmera que seja. Acredite ou não, estava bebendo apenas vinho em casamento.

Pois bem, chegou a semana da viagem e o último encontro com Obert e Ruvimbo foi bem especial. O casal me indicou lugares para conhecer e recomendaram fortemente as montanhas de Mutare, local também famoso pelas minas de diamante. Deram-me uma série de telefones de amigos de Obert e familiares de Ruvimbo e o de uma advogada chamada Sharon. Para aprender o shona, indicaram-me a Avondale Primary School. Em troca desta imensa generosidade, resolvi levar uma camisa azul da seleção brasileira para Mr. Mavhiki e um conjunto de cremes para a pele comprados na Body Shop para Mrs Elizabeth Musonka, a mãe de Ruvimbo. “Ela é carinhosa e adora mimar a todos, você vai gostar muito dela. Tem um coração gigante”, disse a noiva de Obert, na ocasião do grill.

Eis uma das últimas grandes festas etílicas que fiz com colegas do mestrado. Na foto estão os amigos Lisa e Frederik. Detalhe para a camisa do Werder que troquei pela minha do Grêmio. Não me arrependi, mas deu um aperto no coração.

“But, Ruvimbo, you know, what should I do to help Mr. Mavhiki at home? For example, I will have a bed from him and should I buy something to eat by myself or we’ll eat the same food together. What do I need to do?”
“You don´t need to take care about that. He’s a nice guy that likes to talk and drink a lot”.
“But, you know, I don’t want to disturb. So, which would be my rights there”?
“Don’t worry, Marcio. You don’t even have to pay”.

No dia da viagem liguei para Mr. Mavhiki. Ele foi bastante receptivo. Perguntou-me quando chegava, quis saber a respeito do meu vôo porque gostaria de me receber já no aerporto com uma placa com meu nome. “Marcio, do you like beer?” Eu não pensei duas vezes para responder. “Ofcourse, I do! By the way, I’m very curious about the Zimbabwean beer is”. “That’s very good!!!”, respondeu Mavhiki aos soluços de um sorriso rasgado.

Um terço do conteúdo da minha mala eram presentes de Ruvimbo para a família. Tirei muita coisa do que iria levar. Coisas que não iriam me dar prejuízo algum se ficassem de fora da empreitada. Tudo isso para satisfazer o desejo de Ruvimbo e retribuir o imenso favor de me oferecer a sua rede de relacionamentos para que eu não fique sozinho em seu país.