Arquivo da tag: África Ocidental

Os olhos de vacina da OMS

Em uma mesa na calçada, num barzinho improvisado junto às vendedoras de bebida e petiscos da região do Império, no centro de Bissau, tomava cerveja com alguns amigos guineenses. Eles comentavam entusiasmados sobre as várias atrações turísticas de sua terra. Era meados de abril, falávamos sobre o que fazer no fim de semana até que uma ideia já nascia interditada:

– Pessôa, eu queria que tu comesses macaco, pá – disse Sadja.
Eu confesso que fiquei tentado a experimentar. Nunca me imaginara comendo tal carne.
– O Júlio, aqui – ele apontava para uma das pessoas à mesa – faz uma carne de macaco maravilhosa!
– Eu coloco um limãozinho, deixo um tempinho a mais no tempero e ela fica deliciosa – completava o cozinheiro, explicando-me os detalhes da limpeza do bicho, da retirada da pele, da cabeça, etc…

De qualquer forma, não seria daquela vez que experimentaria o macaco do Júlio. O ébola (ou ebola) estava à volta e qualquer pessoa com algum esclarecimento sobre o vírus já não se arriscava mais a comer a carne. Morcego também não apetecia mais, poderia ser fatal.

O ébola, em abril, já aterrorizava a Guiné-Conacri e mexia com a cultura e com os costumes de toda a África Ocidental, incluindo a vizinha Guiné-Bissau.

De pobres para pobres

Tais males proliferam em meio à precariedade. E podem acreditar que o prazer de comer o macaquinho e o morceguinho no fim de semana não faz parte desta tal precariedade. O que está em questão aqui são ideias já bastante batidas na saúde pública: qualidade em vigilância, prevenção de agravos e resposta.

O alerta para a não ingestão da carne é uma medida preventiva “tardia”, por mais contraditório que isto possa soar.

O que deveria ocorrer é a mobilização constante para que a doença incurável e altamente letal (com mais de 60% de óbitos) não se alastrasse. Para isso, é claro, seria preciso um sistema de saúde bem estruturado nestes países – com planejamento, recursos e previsão de medidas emergenciais eficientes.

Mas esta infelizmente não é a realidade da África Ocidental e de outras tantas regiões do planeta. O ébola faz estremecer as frágeis estruturas de saúde de Libéria, Serra Leoa e Guiné Conacry. A baixa capacidade de resposta preventiva e a infra-estrutura inadequada das unidades de saúde tornam a epidemia especialmente dramática na região.

Mesmo a Nigéria, que vive um boom econômico e se encontra em estado de emergência, não teria condições de atender às pessoas infectadas de forma adequada, caso o vírus se espalhasse pelo país. “O potencial de resposta é muito lento”, dizia-me um jornalista nigeriano, reproduzindo a voz corrente dos especialistas locais. A Nigéria registrou três mortes por ébola.

O mantra

“Deus salve as ONGs e a indústria farmacêutica!” Este parece ser o mantra da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos governos dos países afetados. Ora, convenhamos, soa-me como uma cantilena de mau gosto.

O ébola foi descoberto há quase 40 anos. Não se pode admitir que algumas regiões consideradas de risco não contem com todos os recursos humanos e materiais necessários para uma pronta resposta.

O vírus surge onde hoje é o Sudão do Sul e no noroeste da República Democrática do Congo (RDC) na década de 1970. Volta à tona nos anos 1990, na Costa do Marfim, Gabão e na região central da RDC. Nos anos 2000, RDC, Gabão, Congo Brazzaville e o território do atual Sudão do Sul registram mais casos. Dessa vez, Guiné, Serra Leoa e Libéria são os países afetados.

Pelo menos desde os anos 1990, a OMS deveria participar ou colaborar de forma efetiva com a prevenção e pronta resposta ao ébola na África Ocidental e Central, incluindo a RDC e Sudão do Sul. Afinal, um novo surto poderia acontecer a qualquer momento de tal forma que a falta de parcerias sólidas entre a OMS e os setores governamentais é injustificável.

Conforme informações da ONG Médicos sem Fronteira (MSF), além de recursos materiais básicos, falta mão de obra qualificada. Médicos precisam ser treinados às pressas para lidar com o vírus em toda África Ocidental.

Além de recrutar profissionais e levantar equipamento para lidar com o problema, a MSF instala unidades de tratamento em diversas cidades das regiões de risco. Será que estes países precisariam de tanto esforço das ONGs se contassem com o apoio permanente da OMS e da comunidade internacional para qualificar o sistema de saúde pública?

Tal esforço seria plenamente justificável porque, afinal de contas, a ameaça é global. Não haveria quem pudesse torcer o nariz caso a OMS assumisse à frente nesta luta para evitar o ressurgimento do ébola, certo?

O deleite farmacêutico

Errado, porque existe quem lucra com isto. Na continuação da tal precariedade, surge o deleite farmacêutico oportunista. A “indústria da doença” está em festa e emergiu nesta semana como a “salvadora da humanidade”. Colhe os frutos plantados pela omissão da OMS e falta de recursos dos Estados atingidos. Sem vigilância, prevenção e resposta, a tal indústria entra em ação e, a médio prazo, prepara-se para fazer dinheiro.

O ébola parece fora de controle. Já são cerca de 1,8 mil infectados e mais de mil mortos. O pânico e o despreparo leva, neste momento, a implementação de um produto inacabado – o ZMapp. Logo, qualquer iniciativa, por mais inócua que seja, é vista como a última esperança e não encontra oposição ou discussão.

O governo norte-americano aceitou colocar à disposição de Libéria e Nigéria o soro curativo contra o vírus. O ZMapp será fornecido alegadamente de forma gratuita para administração controlada para profissionais de saúde eventualmente infectados. No caso da Libéria, houve solicitação expressa da presidente Ellen Johnson Sierleaf. No auge de sua impotência, o governo liberiano celebra oficialmente a medida drástica.

Com as mãos amarradas

Antes inoperante e agora atrasada, a OMS se resume a rotular o ressurgimento da doença como “emergência global”, mobilizar recursos e aprovar eticamente o uso do ZMapp, atendendo aos apelos da empresa californiana Mapp Pharmaceuticals e dos governos reféns da epidemia.

Há alguns meses, a empresa tem se manifestado na mídia internacional em favor do uso de seu medicamento contra o ébola, mesmo que sem um teste prévio. O discurso era: “diante do elevadíssimo risco de morte, que se use o que há, por mais que não tenha sido testado.”

Assim, abriu-se o precedente e pelo menos outras seis empresas norte-americanas devem estar prontas para testar seus medicamentos em “cobaias africanas” nas próximas semanas.

Com se não bastasse, a Libéria sofre os efeitos econômicos do ébola. A maioria das empresas estrangeiras já retirou o seu pessoal do país, os voos para a Libéria estão suspensos e os funcionários do Governo cumprem pausa obrigatória de 30 dias. Entre abril e junho deste ano, o surto já custou à economia da Libéria 12 milhões de dólares, segundo o ministro das Finanças, Amara Konneh, disse à reportagem da DW África.

O abrandamento dos negócios também já está a ser sentido pelos comerciantes locais. A rede hoteleira começa a ser comprometida, com o país sendo praticamente interditado para o turismo. Na boleia da doença vem a miséria, como se não bastasse.

O baiano e a “dinastia democrática” togolesa

Em 1850, um mulato brasileiro livre, de 17 anos, resolveu migrar para a terra de seus avós maternos para fugir da opressão. Francisco Olympio Silva chegou à África Ocidental em busca de uma oportunidade de trabalho junto à comunidade afro-brasileira instalada na região desde meados do século dezoito.

Deixou Salvador no refluxo da fracassada revolta dos escravos muçulmanos (ou Revolta dos Malês), que também resultou em perseguições do Estado aos não-brancos livres. Esta camada mestiça da população teve oportunidades econômicas bastante restritas durante os anos que sucederam à revolta.

Francisco se tornou empregado de traficantes de escravos (os Cerqueira Lima), que atuavam onde hoje é Gana, Togo e Benin e abasteciam o Brasil. Aproveitando-se das guerras étnicas na África, o negócio indigesto lhe rendeu notoriedade e fortaleceu seus laços com a elite baiana e togolesa da época. Ganhou confiança, fixou-se no Togo e criou o seu próprio negócio no tráfico.

Primeiro presidente

Com a pressão britânica que acabou com o comércio de escravos no Atlântico, Francisco mudou de ramo. Aproveitou seu prestígio e se tornou agricultor e comerciante na região de Togo e Benin. Ganhou terras de seus amigos e, pela influência da comunidade afro-brasileira na área, inseriu-se facilmente na sociedade local. Teve oito esposas e 21 filhos – vários com nomes portugueses.

A geração seguinte fez da família Olympio uma das mais influentes do Togo no século 20, com destaque para o empresário Octaviano – um dos homens mais ricos do país. Sua fortuna cresceu através de negócios com agências de comércio europeias. Sylvanos Olyimpio, neto de Francisco e sobrinho de Octaviano, tornou-se o primeiro presidente eleito democraticamente do Togo após o domínio colonial da França.

Sylvanos estudou na London School of Economics e, antes de ser presidente, foi diretor de operações da Unilever África e primeiro-ministro do país. A sua linha política era nacionalista e tinha franco apoio da população. Foi assassinado em 1963, durante um golpe de Estado que, segundo analistas togoleses, teve participação direta de soldados franceses.

Democracia e independência de fachada

Após quatro anos, um segundo golpe de Estado colocou outra família na posição de grupo mais influente do Togo independente: os Gnassingbé. O General Gnassingbé Yadema governou o Togo de 1967 até a sua morte em 2005 – sempre bastante amigo do Ocidente.

Seu filho, Faure Gnassingbé foi eleito em 2005 e reeleito em 2010 em dois pleitos bastante contestados pela oposição, mas engolido com alguma tranquilidade pelos observadores internacionais.

Neste ano, a “dinastia” completa 46 anos sem margem para dúvidas quanto a sua continuidade. Uma comissão eleitoral controlada pelo partido do governo – União para a República (UNIR, na sigla em francês), corrupção generalizada, setores da oposição cooptados, desorganização dos grupos resistentes e presença dos Gnassingbé em posições de destaque em todo o país acabam com a esperança de mudanças nas parlamentares desta quinta-feira (25/7).

Além da máquina do Estado mobilizada para a UNIR, a ameaça a blogueiros, a violenta repressão e uma situação social dramática sufocam levantes populares mais contundentes. De acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento, um em cada três jovens está desempregado no Togo. O país está entre os mais pobres do mundo – dois terços da população é analfabeta.

Apoio à repressão

Apesar da pouca esperança de mudança, existe um clima oposicionista no ar. O que falta é organização nos setores políticos para traduzir esta vontade em votos. As próprias eleições parlamentares foram atrasadas quase 10 meses em função da oposição da sociedade civil, basicamente de organizações estudantis.

Os togoleses foram às ruas em abril deste ano por alguns dias devido à greve dos professores. O governo fechou os estabelecimentos de ensino fazendo estudantes reagirem e engrossarem as marchas dos docentes.

Na ocasião, a repressão policial resultou na morte de um menino de 12 anos, o que aumentou a revolta. O clima pró-oposição é sedimentado não somente pelos protestos, mas também por algumas campanhas criativas isoladas.

Candidatos ao parlamento passaram semanas batendo nas portas das casas nos bairros da capital Lomé, cidade litorânea, com mais de 835 mil habitantes, para apresentar suas propostas. “Para nós não se trata somente de mobilizar, mas também permanecer vigilante para impedir que qualquer erro ou fraude aconteça nesta quinta-feira”, disse a DW, Jean Pierre Fabre, membro da corrente política “Salvemos o Togo”.

Um Olympio cooptado?

Com uma nova vitória iminente da UNIR, a tendência é que novos levantes aconteçam, a exemplo das manifestações pós-eleitorais de 2010, quando a oposição alegou manipulação em favor do presidente Faure Gnassingbé.

Tais protestos pediram a impugnação dos resultados, mas a polícia sufocou as manifestações com extrema violência. “O apoio que a França deu para as eleições no Togo foi equipar as forças de segurança para reagir aos protestos pós-eleitorais “, lembrava um jovem estudante togolês em uma conversa informal comigo, há alguns meses.

E onde está a família Olympio nesta hora? O filho de Sylvanos, Gilchrist Olympio, em 2010, negociou um acordo e se uniu à estrutura do Estado para, segundo ele, “checar as ações do Governo”. Gilchrist não se candidatou a nada agora. Em outras palavras, o seu partido, a União de Forças para a Mudança (UFC), que era a principal sigla da oposição, parece contrariar o próprio nome e não querer mudar mais nada.

Vamos protestar! Que caia o presidente!

O golpe militar no Mali é um episódio que deixa clara a dimensão e a fragilidade da democracia no continente africano. Insatisfeitos com os meios disponíveis para o trabalho e com a gestão do conflito com a guerrilha separatista da etnia tuaregue, o exército do Mali não somente protestou, mas derrubou o presidente Amadou Toumani Toure.

Em uma primeira análise, o grupo comandado pelo capitão Amadou Sanogo exagerou. De fato, gritou alto demais diante de sua própria impotência, uma força armada que acumula derrotas para os rebeldes no norte do país. Sanogo observa de perto os tuaregues ganharem o reforço dos ex-combatentes da mesma etnia que lutaram junto às tropas leais a Muammar Kadafi na Líbia.

Após o assassinato do ditador líbio, reforço de material bélico e humano faz com que a guerrilha avance. O movimento quer aplicar a lei islâmica através da luta armada e já reivindicou o controle das localidades de Aguelhok, Tessalit e Tinezawaten, no Nordeste. A queda da segunda cidade mais importante do país, Kidar, é questão de tempo. Por isso Sanogo não esperou as eleições marcadas para o dia 29 de abril. Derrubou Toure e quis começar a negociar o conflito pessoalmente.

Senil?

Para diminuir a pressão internacional, a elite contrária a Toure e militares mais esclarecidos oferecem garantias de que novas eleições serão realizadas, embora ainda não definam data. Como um paliativo raquítico, dizem que nenhum militar será candidato, oferecem uma ata legal para substituir a constituição e libertam alguns líderes políticos. Em outras palavras, o movimento militar dá sinais de pouca inteligência e o grito da caserna parece perder força.

Mas os últimos dias foram marcados por gritarias diversas na África Ocidental. A agitação pré-eleitoral no Senegal e pós-eleitoral na Guiné-Bissau foi provocada por atores políticos confusos. No Senegal, trata-se de um caso de senilidade plena de uma das figuras mais importantes da democratização africana, Abdoulaye Wade, de 85 anos.

Durante as primeiras semanas do ano, um dos principais personagens da resistência ao sistema de partido único no Senegal quase mancha a sua imagem brilhante no cenário político regional. Wade fez o que é de praxe em algumas regiões africanas, interpretando a legislação do seu jeito, lançando a sua candidatura para um terceiro mandato quando a constituição prevê apenas dois.

Democracia esfacelada

O líder alegava que foi eleito pela primeira vez em 2000, antes de a constituição entrar em vigor. A oposição foi às ruas, conflitos com a polícia e mortes foram registrados e um exemplo de democracia relativamente estável na África quase degringola. Horas após fecharem as urnas do segundo turno das presidenciais senegalesas, no domingo (25/03), o reconhecimento da derrota por parte do presidente cessante provocou alívio geral. Ou seja, Wade caiu em si.

Tudo indica que ele não calculou bem o prejuízo de sua candidatura para a democracia na região e o quanto esta derrota vai acabar, casualmente, beneficiando a sua memória na história do Senegal no futuro. Macky Sall, que já esteve no time de Wade, será o novo presidente. Mais do mesmo? Talvez. Ele está com o apoio de setores importantes da sociedade civil, tem a maioria da população, mas não é o preferido dos setores da elite religiosa do país, fundamental para a estabilidade do Senegal. Carrega muita esperança, isto é temerário porque seu poder pode ser limitado, dando chance à frustração.

O ciclo eleitoral da Guiné-Bissau

Mais uma vez os passos peculiares de uma eleição na Guiné-Bissau se repetiram. Após o primeiro turno realizado no dia 18 de março, o que se espera agora é caos e PAIGC no governo. A lógica se repete desde a independência (reconhecida em 1974). Há um ciclo definido: tudo ocorre muito bem até o fechamento das urnas. Depois, pipocam alegações de fraude sem fundamento e emerge tensão nas forças de segurança. Logo após, um assassinato surge como a “cereja” no bolo eleitoral.

Dessa vez, mais uma queima de arquivo. E que arquivo! O chefe de informações militares, Samba Djaló, foi assassinado no meio do pingue-pongue mafioso da “política armada” do país. Para terminar, Kumba-Yalá, o eterno candidato, não quer participar do Segundo Turno alegando fraude. Ele tem este direito, é claro, mas seria bastante produtivo concorrer e gritar depois. A maior contribuição de Kumba-Yalá seria não brindar o seu povo com um processo eleitoral sem conclusão. É mais um capítulo da democracia na África Ocidental que costuma ficar assim, pela metade, com presidentes quase eleitos cumprindo mandatos.

Abaixo vídeo da PressTVGlobalNews sobre o golpe no Mali, um dos países que ostetavam alguma estabilidade democrática na África Ocidental. No trecho do discurso do capitão Sanogo, na ocasião do golpe, ele afirma o interesse de “restaurar a democracia e o Estado”.

O desserviço das milícias pessoais guineenses

Neste domingo busquei informações sobre a Guiné-Bissau em função da intervenção militar de primeiro de abril, que resultou na prisão do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Zamora Induta, e na detenção provisória do primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior (Cadogo).

Acessei uma fonte sempre disposta a avaliar a situação do país junto à mídia, porém, desta vez, ela se negou a gravar entrevista. A pessoa estava com medo e revelou que vários ativistas e jornalistas têm sido ameaçados, evitando publicar opinião.

Ou seja, como se não bastasse truculência e arbitrariedade militar, ameaças e medo generalizados dão um toque de quase ditadura a este broto de democracia guineense, que não consegue germinar devido ao eterno peso dos coturnos nas cabeças dos atores políticos do país.

Bandos

Zamora Induta está detido há quase dois meses por ordens do seu antigo número dois, o major-general António Indjai. As acusações são bastante pesadas, remetem inclusive ao desvio de dinheiro e de drogas apreendidas. O caso está com a Procuradoria Geral.

Fala-se em reforma das precárias Forças Armadas, com militares desde a década de 1960 na ativa finalmente indo para a reserva. Mas não adianta uma reforma sem formação adequada para que o militar perceba sua função em uma democracia.

Setores militares guineenses mostram ano a ano insubordinação aos seus superiores paisanos e fardados. Trata-se de uma corporação fragmentada, que acaba agindo como pequenos “bandos” comandados por oficiais descontentes (Ver artigo “Encomenda estilo Corleone”).

Ditadura esfacelada

Os militares guineenses viciaram em golpes de estado, porém não têm forças para sustentar uma ditadura nem centralização para ocupar espaço na estrutura política do país. Vivem em um limbo, desconsiderando autoridades e se aliando ao crime, perdendo portanto a legitimidade, assumindo a característica das chamadas “milícias pessoais”.

Nem mesmo aquele nacionalismo exacerbado – característico de qualquer instituição militar – é verificado nos fardados que ousam sujar suas mãos nas drogas. Hoje, prestam inclusive um desserviço ao país. São o motivo da suspensão de investimentos de mais de 4 milhões de euros da União Européia (UE) em diversos setores, inclusive segurança e defesa.

A UE condiciona o apoio à libertação de Zamora Induta, à nomeação de novas chefias militares e à apresentação à justiça dos responsáveis pela última intervenção militar. A expectativa é de que o presidente Malam Bacai Sanhá promulgue nesta semana a lei que determina reformas profundas nas Forças Armadas.

Abaixo nota coberta da Telesurtv sobre as detenções em abril.