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Que pierdan los dos!

No dia seguinte, no elevador da empresa, ouvi o seguinte diálogo:

“O que foi aquilo ontem?”
“Sim! Incrível!”
“Até vibrei no início, mas depois do terceiro gol eu senti muita pena. O que era a dor daquelas crianças na tribuna? Todas chorando!”

Eram colegas, uma alemã e outra portuguesa.

Quem conseguiria imaginar isto? A equipe com mais tradição no futebol mundial simplesmente sucumbe em casa, num estádio lotado, a um passo de chegar à decisão da competição esportiva mais importante e midiática, por um placar muito difícil de se ver no futebol profissional. O que eu ouvi dizer várias vezes foi: “parecia que jogavam contra crianças”.

Pra gente que vive no exterior, cercado de pessoas de tantas nacionalidades, o sentimento é muito chato – inclusive, creio eu, para o brasileiro ou a brasileira que nem se interessa muito por futebol. A gente tem a noção de que realmente o mundo todo viu aquele fiasco e vai ser difícil falar de futebol por um bom tempo fora do Brasil.

Eu demorei dois dias para me comunicar com os meus amigos pelo Facebook. Acho que fiquei dois dias procurando palavras. Só estou escrevendo aqui porque atendo ao pedido de dois amigos especiais que queriam informações sobre como eu estava testemunhando este momento na perspectiva do adversário vitorioso.

Pena, respeito ou engana bobo?

Qual colorado nunca pensou nisso após tomar uma sova num Grenal: como vou sair de casa na segunda-feira? Reproduzo aqui o que já escrevi para Gustavo Scotti no FB:

Naquela noite, “dormi muito menos do que queria com a festa nos últimos gols e alguns raros buzinaços. Queria que o Fred fosse trabalhar comigo no dia seguinte. Encarei uma reunião onde eu era o único estrangeiro – casualmente um brasileiro. Fizeram alusões, mas não se arriaram muito por pena (o que é muito pior do que uma zoação franca). Bom, o Fred também iria curtir receber os SMSs que ainda estou recebendo e também dar uma passadinha no supermercado comigo” para receber as “condolências” (foi esta a palavra que eu ouvi).

Eu simplesmente deixei de prestar atenção aos jornais e canais de TV locais. Sei que eles têm usado expressões como “é um sonho”, “inacreditável”… dificilmente se atrevem a falar em “massacre” ou algo que o valha. Talvez pelo cuidado natural do alemão com este tipo de expressão.

O que mais percebo é um respeito considerável pela tradição do nosso futebol. Um respeito talvez muito maior do que o do brasileiro pela própria Seleção e pelo futebol – este esporte classificado como “arte” por muitos. É claro, aos meus olhos, uma “arte” castigada pela moldura mercadológica e mafiosa, mas capaz de atrair a atenção de centenas de milhões pelo mundo durante os mesmos 90 minutos.

É inegável. Infelizmente, para alguns brasileiros, nesta coisa, o Brasil ainda é destaque e tem um patrimônio de respeito.

Como saí de casa

Horas antes do jogo, lembro-me de ter lido um título da revista Spiegel que dizia: “Robustos contra um Brasil extremamente pressionado”. Foi a melhor frase para definir o cenário e praticamente premeditar o que seria visto em campo – um time à beira de um ataque de nervos contra outro forte, reto e controlado.

Chovia muito no dia seguinte à partida. Acostumado com a cultura Grenal, fui trabalhar buscando argumentos históricos para me defender. Tentava me lembrar dos detalhes de 2002, do quão fregueses eles são, etc… Seria minha arma primeira: “Oliver Kahn amarelou!” “Somos Penta”, etc…

No entanto, os caras me surpreenderam com o respeito. Quem veio com sacanagem e muito sarcasmo foram os outros europeus ou latino-americanos. A maioria dos africanos parecia também pasma e chateada – decepcionada, eu diria.

Gentileza ou bom marketing?

Mesmo com todo este respeito, não pinto os alemães como santos no futebol. Não são. Ainda acho que Podolski, Schweinsteiger e Neuer estão sendo pivôs de um marketing bem calculado, que está dando certo no Brasil. Nada que seja desonesto, é claro. Apenas uma ação extracampo legítima.

Eles sabiam que teriam que passar de qualquer forma pelo Brasil para ir à final. Este projeto – FINAL NO RIO – muito provavelmente contava com a ideia de construir uma atmosfera favorável para a conquista do título no Maracanã.

Fotos com camisetas de diversos clubes brasileiros, interação com a população local, doações, visitas a escolas, elogios gratuitos ao país na mídia social… tudo isto tem grande chance de ser premeditado, para conquistar o público. Todas estas mensagens de elogios ao Brasil e ao brasileiro são destaques na mídia brasileira. Não surgem muito na mídia alemã.

Pelo menos que eu tenha visto. Lembro apenas de ter visto aquelas imagens do Schweini e do Neuer cantando o hino do Bahia aqui na TV alemã e das visitas às escolas. Mas as mensagens pela mídia social, eu vi na imprensa brasileira.

A tese de marketing puro dos alemães ganha mais força se você buscar por exemplo o que aconteceu no México em 1986. A seleção alemã compôs uma canção para conquistar os mexicanos, chamando o México de MI AMOR. Quem lembra disso?

Não dá pra engolir

Mas o marketing faz parte e é bem feito. Podolski e Schweinsteiger talvez fossem os jogadores mais famosos no Brasil antes da Copa e, por isso, talvez sejam os que mais martelam a ideia do “Brasil: país maravilhoso”, “levante a cabeça Brasil”, etc… Aliás, esta última me embrulha um pouco o estômago.

Mesmo assim, gostei da forma que eles trataram o resultado de terça-feira. Eles brincam com a gente, mas não pisam. Há sarcasmo, mas não há humilhação – talvez porque o resultado por si só já é humilhante. Não falam muito do placar, tentam explicá-lo. As sacanagenzinhas são muito mais leves do que qualquer cantito amargo argentino em território brasileiro.

Apesar de todo o respeito, não consigo torcer para outra seleção em uma final de Copa do Mundo no Brasil. Não dá. Talvez seja herança da tal “Cultura Grenal”. Portanto, como disseram alguns hermanos antes das quartas de final de 2002 entre Inglaterra e Brasil: “que pierdan los dos!”

Copa 2010: Era temperar a feijoada e ser campeão

No artigo “Está em boas mãos”, publicado neste blog, destaquei que respeitava os critérios de convocação do capitão do tetra, Dunga. Porém também sublinhei que o tempo diria se suas apostas, que estavam em má fase durante a convocação, realmente iriam render o que o treinador esperava.

Muitos perguntam por que esta seleção venceu todos os torneios nos últimos quatro anos, goleou a Argentina e o Uruguai fora de casa, classificou-se com antecedência para o Mundial? Por que teve tanto sucesso antes da África do Sul e apresentou este futebol pífio neste mês de Julho?

Em todos estes jogos anteriores à Copa do Mundo, Dunga testou, mas não apostou com risco. Convocou quem ele achava que era digno de vestir a camisa da seleção e quem estava em boa fase. Ponto. Resolveu com lógica e obteve o resultado. No rico mapa da mão de obra futebolística brasileira, Dunga fez o simples, convocou quem estava bem e ganhou tudo.

Avaliação ineficiente

Na Copa do Mundo, Dunga fez o contrário do que estava fazendo há quatro anos: convocou quem estava comprometido, mas também quem estava mal. O critério comprometimento é respeitável e inquestionável se há mesmo a convicção de que os jogadores não somente terão amor a camiseta, mas também estarão em sua melhor fase no Mundial.

Pensei que a convicção por Kaká não era somente pelo seu comprometimento ou brilhante trajetória, mas também baseada em avaliações clínicas e físicas que davam garantia de que ele iria jogar o seu melhor futebol na Copa do Mundo.

A comissão técnica errou ao deixar o futebol da seleção dependendo de um jogador que não estava 100% física e clinicamente. Errou também ao apostar que Júlio Baptista, há algum tempo em má fase, poderia substituir Kaká em condições de mostrar um bom futebol.

O tempero da experiência

É prática da nossa interminável gestão da CBF repetir erros a cada quatro anos, indo de um extremo a outro das diferentes facetas do futebol brasileiro, sem mesclar a sua natureza diversa. Ou se aposta na arte pura com ambiente relaxado, democrático e de festividade clichê, no bom estilo de Parreira; ou se vai ao extremo com comprometimento, pegada e coração na ponta da chuteira, com Dunga.

Na minha vida, só vi um técnico fazer bem esta mescla na seleção. Felipão veio de uma escola renegada pelo “Brasil do futebol arte”, aquela escola que prega o jogo aguerrido do Sul. Consagrou-se na seleção porque impôs o seu estilo “até então renegado” sem inibir o enorme potencial técnico de uma equipe cheia de estrelas. Daí surgiu o conceito “Família Scolari”, que nada mais é do que o comprometimento de Dunga com uma pitada de panelismo sadio.

Então o que faltou para Dunga? Eu diria, o tempero para a comida desta panela apetecer. O ingrediente dado ao comandante por um senhor da guerra chamado Tempo. A sabedoria do líder que já passou por diferentes situações em uma batalha, superou obstáculos em 90 minutos, soube se adaptar às piores derrotas e dimensionar as vitórias. Em suma, Dunga foi capitão, mas não foi general. Isso pesou não só na última partida, mas na sua convocação final.

Abaixo, um dos poucos momentos que posso dizer que realmente me comoveram no futebol. O que aconteceu com o Uruguai contra Gana me fez lembrar o que acontece vez em quando com o Grêmio. Foi inacreditável e vale DVD. Detalhe para a beleza plástica do pulo do defensor uruguaio que tenta evitar o gol junto com Suarez. O gaúcho é épico!

Copa 2010: A revolta dos titãs

Não dá para dizer que os alemães estão com medo, mas eu diria que estão divididos entre o nervosismo e o pensamento realista. No meu contato com as pessoas, percebo que muitos acreditam que não passam da Argentina. Outros pensam que vão ser campeões porque venceram a rival Inglaterra com superioridade.

Comentei os jogos de sábado e domingo pela Deutsche Welle e vi que a Argentina apresentou por um momento um futebol mais dentro da sua realidade das eliminatórias no enfrentamento contra o México porque, afinal de contas, jogou contra uma equipe que está um pouco acima do nível das demais do seu grupo na primeira fase.

O México jogava concentrado, até melhor que os argentinos na primeira metade do primeiro tempo. Levou o gol e acusou o golpe. Era evidente que os mexicanos jogavam no limite da atenção e do rendimento até o primeiro gol, e tinham que fazer isso porque sabiam que se desconcentrassem, perderiam o jogo.

“La mano de Dios” segura a do bandeirinha

A única coisa que os mexicanos não contavam é que o juizão iria dar uma ajuda para a Argentina. Isso derrubou a todos dentro de campo e fez crescer a Argentina que não estava com a partida sob controle. Foi como aconteceu com o Brasil contra o Chile. Os chilenos jogavam também no limite, porém o gol de Juan desmontou a equipe e o Brasil cresceu, resolveu jogar.

Quanto a Alemanha, é claro que o jogo seria outro se o gol de Lampard fosse validado. Alemanha fez dois gols no contra-ataque no segundo tempo. Se o jogo estivesse empatado, os ingleses não iriam pra cima deixando espaço para o mortal contra-ataque alemão. Nessa bagunça, ainda tem o gol de David Villa contra Portugal, que também estava em posição irregular.

A gente pode dizer que os deuses do futebol usaram estas oitavas de final para dois recados, ambos apelando por mais justiça. Primeiro aos alemães que tiveram a chance de serem compensados por 1966 (embora eu acredite que não levam o título que perderam na ocasião). Segundo, porque multiplicaram-se evidências de que é necessário mudar algo na fiscalização de impedimentos e lances de gol.

Romantismo com o dos outros é emocionante

Sep Blatter diz que o jogo iria parar demais com a tecnologia sendo empregada para ver impedimentos e analisar se bolas realmente entraram. Porém, há como o jogo continuar no seu ritmo normal. Em lances de gols ilegais por exemplo, o juiz poderia receber avisos de auxiliares fora do campo que poderiam monitorar o lance.

Esse processo não demoraria mais tempo do que o usado para tirar a bola do fundo das redes e colocá-la novamente no centro do gramado. Aliás, seria mais rápido do que quatro anos de preparação para o Mundial, que, para algumas federações, é custosa e quase impossível de ser feita com qualidade. O único que ganha com erros de arbitragem deste porte é quem apostou na equipe beneficiada, que vai ganhar, apostar novamente e beneficiar as máfias de apostas. Exagero?

Em 2008, o jornalista canadense Declan Hill, evidenciou no livro „Como manipular uma partida de futebol“, que tanto jogos pequenos da segunda divisão da Finlândia, como jogos de copa podem ser manipulados por máfias asiáticas de aposta. Um dos jogos citados no livro é Brasil e Gana nas oitavas de 2006. “Não digo que ganeses foram comprados, mas houve algo estranho em torno deste jogo”, disse Hill.

Ele conversou com jogadores de Gana que confirmaram que foram procurados por apostadores. Seu informante do livro teria lhe dito que Gana iria perder por, pelo menos, dois gols de diferença. Gana se atirou pra cima do Brasil jogando com a defesa em linha. Contra os Ronaldos e Adriano isso é suicídio. Foram 3 gols iguais. O segundo e o terceiro gols do Brasil são bastante duvidosos, inclusive.

Copa 2010: A Copa Sudaca e o placebo futebolístico

Sudaca é um termo perjorativo, racista. É como os espanhóis se referem a todos os sul-americanos. Para os europeus, é uma surpresa Uruguai, Paraguai e Chile, por exemplo, apresentarem bom futebol neste Mundial. Como acompanham mais enfrentamentos das seleções africanas do que as competições sul-americanas, os europeus sofrem dessas surpresas e défcits de informação por não darem atenção às eliminatórias sudacas.

Porém, para quem vive as eliminatórias da América do Sul, não há surpresa no futebol apresentado pelo Paraguai, por exemplo. Aliás, até fiquei surpreso porque, mesmo sem Cabañas, o ataque paraguaio mantém nível altíssimo, privilegiado pelo esquema audacioso de Gerardo Martino, que gosta de três atacantes de oficio em campo. O Paraguai vence com naturalidade e supremacia.

Na copa mais sudaca dos últimos tempos, encanta-me o futebol argentino, objetivo – que mistura técnica e luta na busca insistente pelo gol. O Chile tem resultado com adversários um pouco mais modestos. Porém suas atuações o credenciam a tirar, sem surpresas, a favorita da Copa – Espanha (Ah, coño, sudacas en el camino!)

Aos trancos e barrancos

O Uruguai é pura concentração e raça. Sabe que não tem o melhor time do mundo e, por isso, seus jogadores têm atenção para errar o mínimo. Forlan assumiu finalmente protagonismo que sempre se esperou dele na seleção. Aliás, o mesmo acontece com Messi na Argentina. Interessante, que os dois “camisa 10“ resolveram mostrar isso no Mundial.

E o Brasil? Erra passes fáceis; cede espaços para o adversário em um sistema defensivo privilegiado por Dunga, mas deficiente; promove o isolamento de Luís Fabiano que é facilmente dominado pela defesa adversária, enfim, se o Brasil continuar dormindo em campo, não passará das oitavas. E lamento dizer isso, mas boa parte dessa sonolência se deve ao futebol “70%” de Kaká.

Comentei para a Deutsche Welle a partida entre Brasil e Costa do Marfim neste domingo (20.06) pela segunda rodada do grupo G da Copa do Mundo. Eu confesso que fiquei espantado com o efeito do escore na crônica esportiva, principalmente brasileira. Tudo bem que o produto seleção brasileira garante os rendimentos da empresa para o resto do ano, mas não dá pra exagerar.

A ausência de Kaká pode ser melhor

Pareceu-me evidente, no jogo contra a Coréia e nos 45 minutos iniciais contra a Costa do Marfim, a falta de velocidade, movimentação e precisão de passes da seleção. Foi um time sonolento, sem explosão, desconcentrado no meio-campo, facilmente envolvido pela marcação adversária. Pareceu não saber agredir e esperar um adversario, que, covarde, não vai sair. Aí, não há jogo. No segundo tempo, o Brasil foi favorecido porque a Costa do Mafim teve que sair e expôs sua frágil defesa.

Contra Portugal, Dunga conseguirá provar porque não convocou Ganso, por exemplo. Talvez o substituto de Kaká dê movimentação e vivacidade ao meio-campo. Kaká é indiscutivelmente o melhor jogador do elenco, mas precisa estar inteiro. Do contrário, o efeito dele em campo é o mesmo de Ronaldinho – um placebo futebolístico.

Com este futebol, um confronto com qualquer outro sudaca é fatal para o Brasil. Em um eventual enfrentamento, quem optar por propor o jogo, fica perigoso para o Brasil. Argentina e Paraguai, por exemplo, podem propor o jogo contra o Brasil porque têm estrutura no setor defensivo. O Paraguai fez isso em Assunção em 2008. Ganhou do Brasil por 2 gols com naturalidade. Pegar o Paraguai já seria complicado. Imagine a Argentina nesta fase boa?

Abaixo um dos momentos mais tristes da seleção brasileira na África do Sul. Diante da perda de elegância, não há comentários. “Era Dunga” dentro das quatro linhas, mas, hoje, tornou-se um Zangado nas coletivas e sua seleção, Soneca diante dos advesrários da copa. Está bem, o Maradona – um Dengoso com seus jogadores.

Copa 2010: Qual será a próxima reclamação?

Os moderadores alemães estão enlouquecidos com as vuvuzelas. Desligaram os microfones ambientais dos estádios para ficar somente com o microfone direcional do locutor. Mesmo assim, as vuvuzelas estão sempre presentes. O título do Sueddeutsche Zeitung da segunda-feira foi “Vespas no Ouvido”, em alusão ao instrumento da torcida sul-africana.

A matéria de Fabian Heckenberger destaca as palavras do presidente da Fifa, Sepp Blatter, recusando-se a proibir o “vespeiro” para não haver discriminação. Afinal, né, Blatter, já enquadraram tanto as cidades sul-africanas para a realização dos jogos, que mais essa mudança pegaria mal. O que querem, que a Cidade do Cabo se transforme em Paris?

Heckenberger diz que assistir os jogos chega a ser “irritante”. No jogo África do Sul e México, os locutores da ARD chegaram a tirar os Headsets (fones com microfones acoplados) e pediram para a sede na Alemanha microfones direcionais simples, de mão, à moda antiga. “Nós já usamos todos os filtros disponíveis. Mais é impossível”, diz Bertram Bittel, diretor da cobertura da ARD.

Polêmica desnecessária

O mundo tem que aceitar que a copa não acontece na Europa nem nos Estados Unidos. A bola está rolando bem longe da barulhenta e sincronizada torcida oriental. O jogos acontecem na África e os anfitriões têm o direito de torcer como quiserem. Independente da opinião da mídia global, cuja função é registrar inclusive as vuvuzelas, mas quer mais uma vez extrapolar.

Os locutores querem ser diretores do espetáculo e influenciar o comportamento do torcedor. Aí é demais. Vão narrar em tubo! Soluções podem ser encontradas, mas não queiram ser mais importantes do que a notícia, se é que vocês realmente fazem jornalismo (Vide o texto “Talvez um cartelzinho amigo, um protecionismozinho… Afinal eu te dou a vida!).

A África do Sul já fez um esforço tremendo para conseguir atender as exigências da Fifa. Pagou caro por isso. Foi pressão pesada, que colocou em jogo a capacidade do país de promover o mega-evento. Ameaças, prazos, barganhas políticas, eleição de Zuma, conflitos urbanos em função de gigantescas reformas no espaço público, enfim, muita coisa aconteceu e o povo sul-africano foi colocado em cheque de várias formas.

Cada um faz o seu e estamos conversados

Seria justo o público da região não poder mostrar ao mundo a sua forma de torcer? Aí, algum Zé Mané vai querer acrescentar: “mas as vuvuzelas são globais, não é um fenômeno cultural, logo não seria racismo proibi-las”. Historicamente falando, onde convidados são capazes de ofender e proibir anfitriões? Nos Estados Unidos ou na Inglaterra, por acaso?

Alguém já viu tanta vuvuzela assim? Claro que não. Só lá mesmo, na África do Sul. Portanto, colegas e jogadores de futebol, deixem os torcedores sul-africanos aproveitarem a oportunidade de serem anfitriões.

Primeiro foram os estádios – claro, alguns sequer existiam; depois, o comportamento da bola – criticada por muitos que na infância até com bola de meia jogaram, e agora é o comportamento da torcida. Daqui a pouco será o frio do Hemisfério Sul na época da Copa. E assim, acumulam-se queixas pouco condizentes com a pretensão plural, justa e democrática do evento.

O Brasil do estrangeiro

A propósito, a nossa seleção começou miúda a Copa do Mundo e eu é que estou ouvindo de hora em hora as reclamações ou gozações de togoleses, ganeses, ugandeses, etíopes, norte-americanos, alemães, russos, turcos… todos me veem e dão o recado sobre a atuação média do Brasil.

Alguém pode sugerir qual desculpa devo dar se ganharmos sem espetáculo, empatarmos ou perdemos a próxima partida? Temos sim a simpátia do mundo, mas também a sua exigência. O estrangeiro que vê um jogo do Brasil, via de regra, por incrível que pareça, torce para a nossa seleção, mas espera o chamado “jogo bonito” e, nesse quesito, com Kaka a 70%, Robinho esta sozinho.

Abaixo uma matéria da ESPN Brasil sobre as vuvuzelas

Copa 2010: Está em boas mãos

Eu vejo uma contradição em um critério, inclusive dito pelo próprio comandante Dunga: “seleção é o melhor momento de cada jogador”. Porém, acho que esta contradição ficou pequena diante da justificativa gigante dada por Dunga para escolher os jogadores que irão para a África do Sul.

Pelo menos quatro convocados não estão no seu melhor momento. Grafite, Júlio Batista, Felipe Melo e Ramires. Além disso, mostrando convicção, Dunga polemizou com as ausências dos chamados “meninos da vila”, de Ronaldinho, de Adriano e do goleiro Victor (duas vezes melhor goleiro do Brasil).

O comandante da seleção não respeitou o critério “melhor momento” porque priorizou em alguns casos o critério “comprometimento”. Essa justificativa me dá a certeza de que a equipe vai jogar a Copa do Mundo para ganhar realmente. Vai ser um time competitivo com quem quer que seja e, acima de tudo, não vai envergonhar o Brasil.

Palavra-chave

Comprometimento é chave para o sucesso de qualquer equipe de trabalho em qualquer setor e é um componente importante para o time de Dunga. É o algo mais. Não basta ter nome, tradição e ter os melhores. É preciso ter entrega para qualquer desafio. Todos os convocados já haviam sido chamados anteriormente e mostraram comprometimento, de acordo com Dunga.

Nas seleções mais displicentes brasileiras, aí coloco a que passou pela Alemanha em 2006, o que faltou foi justamente isso, comprometimento com a trajetória do Brasil. Todos estavam comprometidos com a sua imagem, com seus euros e com o samba. Achavam que iriam ganhar no nome, na bela imagem do trabalho de 2002, na alegria ou na magia.

O resultado foi vergonhoso. A equipe até tinha vários jogadores-chave, Ronaldinho, Fenômeno, Roberto Carlos, Robinho, Kaká. Porém o foco estava errado. Era espetáculo e samba, como em 1982. Com a ressalva de que em 1982, o time brasileiro não envergonhou o Brasil. Tinha pouca arrogância e muito caráter.

Difícil de ser batido

Eu tenho a tese de que a seleção brasileira tem tudo para ganhar todos mundiais se tiver disciplina e comprometimento. Se tiver pelo menos isso, vai ganhar como em 1994, com um futebol feinho, mas competitivo. Talvez dependendo de um gênio para colocar a bola para dentro em momentos cruciais.

Se tiver disciplina, comprometimento e talento em diversas posições, vai dar espetáculo. Porém, um espetáculo vencedor.

O problema nesta edição de 2010, é que não surgiram gênios nestes últimos três anos para justificar uma convocação criteriosa. Foram convocados grandes jogadores, com perfil de extrema consciência tática. Há sim talento ofensivo com Kaká e Robinho e faro de gol com Nilmar e Luís Fabiano. Isso pode suprir a carência do “gênio”.

Neutralizar o samba em excesso

Note que a religiosidade de Kaká e o profissionalismo de Nilmar e Fabiano podem sim neutralizar a molecagem às vezes displicente de Robinho. Mais um ponto para Dunga.

Então, conte comigo, a seleção tem disciplina. O treinador tem comando pela sua coerência principalmente durante a convocação. O time tem jogadores com perfil vencedor com a seleção – campeão das copas América e Confederações. E a equipe é inegavelmente competitiva.

Dunga foi coerente e lógico. Porém, apenas em um fator é bastante criticável. Ele aposta que o comprometimento pode recuperar os jogadores que não estão em seu melhor momento neste último mês antes da copa. Isto é uma visão da comissão técnica e deverá ser provada.

Acho que é possível, mas não é certo. Para jogadores “velhos” como Júlio Batista, por exemplo, que talvez tenha chegado à decadência natural do jogador que começa a sentir que o rendimento físico não é mais o mesmo.

Vão espernear até o fim

Claro que a imprensa carioca e paulista vai chorar até o final da Copa do Mundo o fato de Ganso, por exemplo, não estar na lista. Vimos este episódio em 2002 com o Felipão quase sendo linchado na sede da CBF pela não convocação de Romário. Porém há de se considerar que o menino da vila nunca foi convocado. Isto é um critério para ir para o Mundial, segundo Dunga.

Claro que o Ronaldinho não fará falta. Há muito, trata-se de um gênio que não consegue mais executar o que pensa, sequelado pelo “samba” em excesso. Ele não é mais o exuberante Ronaldinho que mereceu a convocação de 2002. Não rende e não consegue mais chegar aquele nível. Tanto para Ronaldinho quanto para Ganso, a suplência ficou de bom tamanho.

Não falo em 2006 porque ele já não fez a diferença nem na seleção nem no Barcelona em momentos cruciais. Por isso, o atual Ronaldinho do Milan não fará falta. Aquele do Grêmio, do PSG e dos primeiros anos de Barcelona, faz. Adriano não vai para a copa porque não quer, não se comprometeu. Foi atrapalhado pela vida que escolheu. E Victor foi vítima da falta de atuações com a camisa da seleção e, para mim, não está também no seu melhor momento.

Escola Felipão

Não comparo Dunga com Felipão, mesmo sendo farinhas do mesmo saco, terem a mesma escola de comando. Dunga, apesar do português catastrófico, como o de muitos outros brasileiros, expôs na coletiva à imprensa, de forma clara, o que motivou sua escolha e transmitiu segurança.

Fica pra mim, como jornalista, o desabafo de Jorginho (o sujeito mais elegante na equipe) em um tom que, acredito, dificilmente vimos e teremos a oportunidade de ver novamente: “essa é a seleção brasileira, é o nosso país é a nossa pátria”, esbravejou o assistente-técnico da seleção. Se fosse sem noção como Maradona ainda mandaria um “carajo” no final da frase.

Para mim, essa é a cara da seleção de Dunga. Uma seleção de sangue quente, competitiva, com o comprometimento de quem vai representar o país no exterior. Isso pode fazer a diferença. Profissionalismo com amor a camiseta. Tudo isso faltou em 1986, 1990 e 2006. Porém, é tudo o que Dunga sempre simbolizou.

Confira os escolhidos com imagens da SPORTV:

Silas e o presente grego

Um domingo de bastante suor, alguma preocupação, mas com um final já bastante óbvio. Ou alguém achava que poderia ser diferente? Antes da luta, o Internacional já havia jogado a toalha. Tanto é que anunciaram que iriam poupar titulares (que hoje são apontados como prováveis reservas) e não buscariam o título, mas “tentar estragar a festa tricolor”.

A surpresa agora é esta lamúria amarga que ouço lá do outro lado do Atlântico. Ora, vão pentear macacos com este mantra inútil! O mérito é dos missionários Silas e Paulo e ponto. Eles levaram a palavra ao aterro e fizeram o suficiente na semana seguinte. À amargura, o que dizer? Ano que vem tem mais, talvez…

Aí, os gols que valeram o Gauchão 2010. Dos dois “Cavalos de Tróia” apresentados pelos visitantes nos dois confrontos finais, o gremista no Beira Rio foi mais eficiente.

O final de semana foi também de bastante suor para a chanceler federal alemã Angela Merkel e de choro para o povo grego. Como na crise do Lehman Brothers, quando assumiu papel de liderança por uma solução global, Merkel tomou a frente na manobra que visou, acima de tudo, “garantir a manutenção do Euro”, conforme muitos analistas têm classificado.

A Dama do Euro

Na verdade, Merkel apresenta-se como a líder natural do bloco europeu na empreitada de resgate à economia grega porque a Alemanha entra com 22,4 bilhões no fundo de emergência de 120 bilhões de euros, aprovado pelo FMI e pela União Européia.

“Por que resgataremos estes bilionários gregos com o dinheiro dos nossos impostos?”, estampava o sensacionalista Bild em sua manchete dominical. Na matéria, cidadãos alemães apresentam seus próprios problemas de financiamento em setores como educação, saúde e emprego.

Resistentes a um protagonismo tão forte, frações do governo alemão já haviam sugerido que a Grécia abandonasse o Euro. O líder do oposicionista SPD, Frank Walter-Steinmeier (ex-ministro do exterior), classificou que o acordo teve erros em sua construção. Merkel reage com “abraços retóricos” e com o tempero da inexorabilidade: “não havia outra alternativa”.

Até quem não pode também ajuda

Cada integrante da zona do euro vai ajudar com o que pode e muitos ajudam já na esperança de contarem com a solidariedade alheia no futuro. Portugal, por exemplo, anunciou 2 bilhões de euros para o fundo de resgate e figura na lista dos países a serem também abalados pela crise como Irlanda, Itália e Espanha.

Merkel elogiou o pacotaço do seu homólog Georgios Papandreou, que pretende reduzir o déficit do país de 13% para 2% do PIB em quatro anos às custas do sufoco da população grega.

“É um plano bastante audacioso e é a unica saída”, disse a dama do Euro, firme e convicta ao abraçar a receita que a UE e o FMI ofereceram para Papandreou em contrapartida aos bilhões concedidos em resgate.

Quem deve pagar?

Enquanto isso, em Atenas, no olho do furacão, os líderes das principais centrais sindicais gregas iniciaram a semana esperneando contra o pacotaço. Papandreou prometeu, em troca da ajuda da UE e do FMI, cortar salários e pensões, aumentar impostos sobre tabaco, álcool, gasolina e valor agregado.

Jornais gregos falam em greve geral convocada para quarta-feira. Já nesta segundo, trabalhadores municipais paralisaram atividades e professores devem fazê-lo na terça também.

Abaixo manifestações do 1 de Maio em Berlim. A primeira parte são militantes de esquerda. Exatamente no minuto 0’50 surge a manifestação neonazista e a chamada contra-marcha (bloqueio popular à manifestação nazista). Policiais de toda a Alemanha reforçam o efetivo da capital nesta data todos os anos. Mais tarde no vídeo, voltam imagens das manifestações da esquerda na capital alemã, no resto do país e também na Grécia. A matéria é da N24.