Arquivo da categoria: Direitos Humanos

Caros petistas, sejam bem-vindos de volta á luta

Primeiro lugar, gostaria de dar as boas-vindas aos amigos e militantes petistas que saíram nesta semana do Estado para voltar à sociedade civil de verdade, aquela que desacata. Um espaço que estava amansado por uma índole pelega que – como já era de se esperar – tomou conta do país nos anos 2000. Em qualquer parte do mundo, esta é a regra do jogo. Quando boa parte dos ativistas vão para a estrutura do Estado, eles e suas organizações são, em consequência, engolidos por este Estado. Isto apaga a chama das lutas por questões que realmente fazem sentido.

A vida é assim.

A expectativa agora é que vocês reativem este espaço que precisa ficar pulsante nas ruas, nos bairros, nas associações de classe – nos espaços conquistados e convidados (parlamentos, conselhos, etc….). Para quem está cansado do poder exclusivamente político-partidário e enxerga a participação direta do povo em questões que realmente interessam, o retorno de vocês é um alento. Sejam bem-vindos.

Endosso os clamores que exigem que a democracia siga um caminho que renda frutos para a nação, não somente para a elite. Condeno a resposta agressiva da polícia, que a cada ação desproporcional destrói a vida de várias pessoas de bem. Jovens que têm muito para contribuir para o país, que os agentes públicos de segurança deveriam defender, mas acabam alejando. É deplorável a incompetência gritante do Estado no setor da segurança em todas as dimensões.

Gostaria de estar ao lado dos militantes nas ruas se me identificasse com suas bandeiras desbotadas político-partidárias, mas não consigo. Desculpem, eu abraçaria o discurso de novas eleições, um revival do “Diretas Já!”. Aliás, isto faria muito sentido neste momento.

Para mim, os que acham que houve golpe e os que acham que não houve golpe não merecem Michel Temer nem como representante de turma numa escola primária, quanto mais em um mandato tampão num momento tão conturbado. Digo isto ao observar tudo o que está por trás de Temer e de seus amigos que capturaram o governo em uma manobra que não teve nada de genial. Foi uma ação articulada que encontrou espaço na inépcia política da presidente e de companheiros que criaram raízes no poder e se desgastaram, fazendo alianças até com aquele que “cheira a enxofre”. Aliás, Temer abriu a porta dos fundos desta casa para um grupo cansado, indiciado e obscuro. Todos estão vendo isto.

Por outro lado, os viúvos da presidenta deposta tentam capturar uma luta que deveria ser de todos os brasileiros. Mas por que não é?

Vejamos, eles não estragam a luta porque, afinal de contas, alguém tem de começar. No entanto, eles a ideologizam com um discurso que não convence a todos. É bom ir para rua, mas é melhor ir para a rua lutar por algo que faça sentido para todos. E vocês têm tudo isto caindo de maduro na frente de vocês. A democracia faz sentido, eleições diretas fazem sentido, mas a anulação de um processo legal não faz sentido.

Vejo imagens da ocupação dos espaços públicos pela retórica do golpe, que não convence a todos e é político-partidária. Não houve golpe de Estado, mas a radicalização do estado de direito. Isto acontece de vez em quando no Brasil… muito mais em nível local, eu diria. E sempre quando é conveniente para alguns. Como aconteceu com Collor, por exemplo. Não digo que isto é bom, mas o sistema permite isto. E em 13 anos, ninguém conseguiu mudar o sistema. Por que?

Aliás, um Estado radicalizado exacerba o seu poder, torna-se inconveniente ao desenvolvimento político pelas suas arbitrariedades e ao desenvolvimento econômico por conceder privilégios a quem é do time ou beneficia o time. O mínimo que eu espero é que o tal “crime de responsabilidade” que valeu o impeachment da presidenta sirva de exemplo e inspiração para a limpeza necessária e atrasada. Agilizar o julgamento dos parlamentares indiciados e dos governadores que cometeram e cometem crimes de responsabilidade, por exemplo, passa a ser o caminho natural das coisas. Qualquer ação que não seja esta nos retoma ao pesadelo da terra da impunidade e da politicagem.

Creio que a atual mobilização e ação coletiva do Judiciário, da PF e de setores da sociedade civil está tendo algum sentido, mas tem de continuar. Do contrário, a ofensiva contra a presidenta será vista historicamente como politizada.

Para mim, a missão da década de 2010 é despolarizar o Brasil. E a figura indigesta de Temer e seus convidados, convenhamos, não vai conseguir fazer isto. Unir vozes por democracia, eleições diretas e limpeza da estrutura do Estado é dever de todos. Está na hora dos cidadãos de qualquer cor partidária, que se identifiquem ou não com Dilma, participarem e ocuparem os espaços públicos unindo vozes. A maioria da população quer algo novo, mas quer algo novo de verdade.

Com todo o respeito a Paulo Paim, Raul Pont e Olívio Dutra – ativistas e políticos de boas ideias e respeitáveis – não creio que seja a hora de discursos populistas político-partidários. O momento é para ação nas ruas, mas com uma retórica lógica. Do contrário, não haverá mudança. Temer tem, sim, medo do povo. Mas não vai se abalar facilmente. Ele está bem calçado.

A elite brasileira está apoiada por quem manda no mundo, tem sangue de barata  e está fortemente armada contra o povo nas ruas. Aliás, sempre esteve.

A vontade de Goodluck Jonathan

O australiano Stephen Davis ganhou notoriedade por tentar iniciar um diálogo com o Boko Haram a fim de resgatar as quase 300 jovens sequestradas pelo grupo radical em abril.

Desde o início de agosto, conforme escreve Patrick Begley, do The Sidney Morning Herald, agentes do contra-terrorismo australiano tentam saber como este relacionamento com os extremistas nigerianos começou.

Davis trabalhou como consultor da Shell na tentativa da multinacional negociar a paz com os guerrilheiros do Delta do Níger nos anos 2000. Acabou sendo consultor do próprio governo nigeriano para o acordo de paz.

Em uma entrevista a um canal de televisão nigeriano, Davis defendeu que o ex-governador da província de Borno, Ali Modu Sheriff, e o ex-chefe das forças armadas nigerianas, Azubuike Ihejirike, fossem neutralizados porque estariam patrocinando os radicais.

Sheriff negou as acusações em entrevista à DW África.

Falso porto seguro

 Há poucos dias, Boko Haram controlou Gwoza, no Estado de Borno, no Nordeste do país, e declarou um califado. A cidade não era somente composta por muçulmanos. Há relatos de execuções sumárias durante a tomada da cidade – conforme escreve Daniel Agbiboa, consultor da União Africana em seu blog na Al Jazeera.

Sob o ponto de vista étnico e linguístico, é mais lógico que as pessoas que conseguiram fugir de Gwoza engrossem os acampamentos de fugitivos do Boko Haram nos Camarões. Conforme a ONU, 650 mil pessoas deixaram suas casas nas províncias estados de Borno, Yobe e Adamawa.

Na sequência da declaração do califado, veio a fuga de quase 500 soldados nigerianos, que transpuseram a fronteira devido ao avanço dos radicais.

O território camaronês, no entanto, não pode ser considerado nenhum “porto seguro” para os refugiados. O grupo armado tem investido frequentemente nos Camarões para sequestros e pilhagens. Os principais alvos são líderes locais, estrangeiros e clérigos.

Inclusive uma das ações mais audaciosas, depois do sequestro das quase 300 jovens em abril, ocorreu no final de julho. Integrantes da seita raptaram a esposa do vice-primeiro-ministro, Ahmadou Ali, em Kolofata, a 45 quilômetros de Gwoza dentro dos Camarões.

Califado e consequências

Os ataques a postos de segurança e vilarejos camaroneses na fronteira não significam uma dor de cabeça somente para Yaoundé, mas também para o Chade. Gwoza fica a apenas 330 quilômetros de N´djamena, a capital chadeana.

A declaração de califado em Gwoza não passa de uma forma de Abubakar Shekau mobilizar seus homens e apoiadores. Do ponto de vista militar, pode ter algum impacto. Politicamente, no entanto, tal iniciativa não foi apoiada pelos outros muçulmanos nigerianos e acaba representando muito pouco.

Parece mais uma frágil tentativa de copiar a estratégia “psico-terrorista” do Estado Islâmico (EI) do que uma ação consequente. Seria o interesse te ter mais espaço na mídia. O EI também declarou califado em uma atitude sem muito efeito a não ser de mobilização dos próprios grupos radicais que o compõem.

No entanto, creio que a tomada de Gwoza, bem guarnecida e estruturada, pode significar um ponto de concentração de poder militar importante e tornar-se estratégica. Em outras palavras,  seria uma ameaça séria às comunidades do norte da Nigéria, à segurança da fronteira dos Camarões e do próprio Chade devido à proximidade com N´djamena.

Bando armado

Boko Haram não é um grupo homogêneo e seus interesses são bastante difusos atualmente. Muitos dos seus guerreiros são mercenários, oriundos do vizinho Níger que engajaram na esperança de alguns dólares.

De janeiro a agosto de 2014, foram mais de 2,200 mortes em quase 100 ações. O jornalista alemão Marc Engelhardt, em seu livro “Guerra Santa, Santo Lucro”, escreve que a partir de Agosto de 2011, após o ataque à sede das Nações Unidas em Lagos – quando 25 foram mortos e 85 feridos – o Boko Haram começou a diversificar as suas táticas de combate.

Obrigou o deslocamento de dezenas de milhares de cristãos do Norte, majoritariamente ocupado por muçulmanos, para o Sul. Conforme ONGs da região de Borno, a etnia Igbo tem sido especialmente massacrada e não acredita mais na polícia ou no exército, refugiando-se em outras áreas do país.

Vale lembrar que os Igbo foram protagonistas da sangrenta Guerra do Biafra, que opôs a província ao governo central no final da década de 1960.

Difícil solução

A declaração de Davis beira o absurdo porque o ex-governador Ali Modu Sheriff é um dos fundadores do movimento, aproveitou-se dele na política, mas, mais tarde, juntou-se ás forças armadas para sabotar a seita .

Heirich Bergstresser, por exemplo – um jornalista alemão especialista em temas nigerianos – acredita que, para Sheriff, negociar ou até mesmo patrocinar o grupo diante destes relacionamentos conflitantes seria “correr em uma aventura”.

Já o General Ihejirika não tem qualquer familiaridade com o Norte do país. No entanto, teria contribuído para a mercantilização do exército nigeriano que, por incrível que pareça, impediria que a “guerra contra o terror” seja bem-sucedida.

Afinal a prontidão contra o Boko Haram significa importante afluxo de recursos para as forças armadas, concentração de atenção e poder.

Recursos do Boko Haram

Há muito tempo o Boko Haram não é somente uma seita. Também tem características de bando armado fora da lei, sem ideologia ou fé.

Roubos, pilhagens e sequestros: é assim que o Boko Haram consegue recursos para a sua campanha de violência. Logo, a neutralização de Sheriff ou Ihejirike – mesmo se a tese de Davis for comprovada – não seria suficiente para acabar com o Boko Haram.

Bergstresser acha que ambos trabalham em um nível completamente diferente e que os principais apoiadores políticos do Boko Haram seriam os ex-governadores de províncias do norte da Nigéria depois de Sheriff.

“Estas pessoas deveriam ser chamadas para prestar contas. Colaboram para sedimentar o Boko Haram na estrutura política local”, defendeu Bergstresser em entrevista à DW África.

Um outro fator que fortalece o Boko Haram é a corrupção do sistema de segurança do país. Muitos setores da sociedade civil nigeriana acreditam que o aparelho de segurança do Estado lucre com contratos de segurança e venda de armas.

Conforme Bergstresser, tais negócios estariam sendo “colocados nos ombros de simples soldados e de civis e este seria o escândalo na Nigéria atualmente.”

Entretanto, não há nada concreto para provar um eventual “corpo mole” das forças de segurança em relação ao combate ao Boko Haram. Tais declarações podem ser até levianas diante dos massacres do grupo armado. Talvez o mais apropriado seria pensar na falta de capacidade geral do Estado em controlar a situação.

Próximas ações

No encontro entre líderes africanos e norte-americanos, chamou atenção o quanto o presidente Goodluck Jonathan foi evasivo ao falar sobre as meninas desaparecidas. Ficou claro que a crise provocada pelo Boko Haram será minimizada devido às eleições.

O tema não está no topo das prioridades no momento. A ideia é projetar a Nigéria como potência econômica emergente e atrair investidores.

No entanto, sem estabilidade interna dificilmente um país consegue atrair investidores como poderia.

Neste contexto, conforme Agbiboa, cresce o medo de que vigilantes juvenis, que se agrupam para proteger suas cidades do Boko Haram, acabem se tornando milicianos. Na província de Borno, os integrantes destes grupos já recebem dinheiro e no país são chamados de heróis por Goodluck Jonathan.

Que cérebro tem este animal?

Não adiantou acadêmicos e intelectuais espernearem. Esta quarta-feira (23.07) foi histórica para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A cúpula de Dili, no Timor Leste, marcou uma nova fase para a modesta organização. Na prática, foi criado um novo bloco econômico.

Foi aprovado o ingresso da Guiné Equatorial como membro de pleno direito e de Geórgia, Turquia, Namíbia e Japão como observadores associados da comunidade.

A identidade lusófona, mais vinculada à cooperação cultural e política – que marcou a organização desde a sua criação em 1996 – deu lugar ao pragmatismo do mundo dos negócios. Para muitos, a organização finalmente se torna útil. Para outros, no entanto, a já capenga CPLP tornou-se definitivamente um animal híbrido sem futuro, capturado pelas elites econômicas de seus associados.

É um enxerto vivo com pesadas patas de elefante, tronco de zebra, cabeça de camarão e dentes cerrados de macaco. Ah, o cérebro? Bom, escolha o animal ou a personalidade mais adequada para emprestar um rabo e um cérebro a este bicho.

A criatura continua majoritariamente negra e com o estômago vazio. Está doente e faminta, mas com seus pequenos bolsos cada vez mais cheios. Como pode ter bolsos pesados e barriga a roncar?

Bom, a resposta talvez esteja no cérebro que você colocará no tal animal.

Decisão polêmica

Nos últimos meses, acadêmicos e notáveis debateram o sentido da integração da Guiné Equatorial à comunidade de oito países de expressão portuguesa. Fizeram até uma petição contrária ao ingresso do país na organização. A antiga colônia espanhola pleiteava o status de membro de pleno direito na CPLP desde 2010.

A crítica não está centrada somente no fato de a Guiné Equatorial não ter o português como língua oficial, mas também porque lá está a pleno vapor uma das mais antigas ditaduras da África – encabeçada por Teodoro Obiang Nguema, há 35 anos no poder.

Organizações internacionais criticam o governo de Obiang por violações de direitos humanos, pena de morte, perseguição a opositores políticos, processos judiciais contra governantes no exterior e exclusão social – apesar da riqueza do país.

A Guiné Equatorial é o oitavo país da África subsaariana em reservas de petróleo com 1.1 bilhão de barris e também tem reservas estimadas em 1,3 trilhões de metros cúbicos de gás natural (conforme EIA – Jan.2013). Conta com a parceria de São Tomé e Príncipe para a exploração, uma vez que ambos se beneficiariam da mesma fonte.

Brasil e Angola também poderiam oferecer tecnologia em prospecção em águas profundas. Estima-se que as reservas de hidrocarbonetos no espaço do novo bloco econômico formado nesta quarta-feira devem, em 2015, corresponder, em conjunto, ao sétimo maior produtor do mundo e ao quarto em 2025.

A reunião de Dili foi marcada pela criação de uma plataforma específica para discutir questões energéticas do bloco.

É através deste peso estratégico que Angola, Brasil, Moçambique, São Tomé e Timor-Leste veem o futuro da CPLP. O bloco pode se tornar um importante player no setor energético em menos de 20 anos. Por isso, Obiang é tão bem-vindo, sendo aplaudidíssimo por todos quando da sua chegada à cúpula.

A banda dos déspotas

Mas não há dúvidas que ver Guebuza, Zedu e Obiang comerem na mesma mesa assusta. É preciso ter “estômago empreendedor” de Lula para superar os dilemas éticos e ver futuro numa organização como estas.

Eles formam um trio de peso na paisagem política africana. Como o zimbabueano Robert Mugabe, simbolizam mais de três décadas de domínio da mesma elite econômica e política nos seus respectivos países.

É claro que reforçar a parceria econômica seria positivo se a trajetória de boa governança e transparência fosse a marca destes governos. Entretanto o cenário não é tão bonito.

Parece-me mais que a CPLP foi oficialmente cedida a grupos econômicos na cúpula de Dili. A cultura lusófona ficou em segundo plano e a maior parte da população deste espaço dificilmente perceberá algum benefício na nova configuração da comunidade.

Não seria mais lógico portanto criar uma nova organização econômica sem adulterar a CPLP?

Uma das declarações mais caricatas do evento de criação do novo bloco econômico foi proferida pelo antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, António Martins da Cruz. Ele disse que Portugal estaria condenado ao “isolamento” caso não aprovasse o ingresso da Guiné Equatorial.

Lava-se as mãos

Uma das condições para Portugal aceitar o ingresso da Guiné Equatorial na CPLP foi o fim da pena de morte no país. Em resposta, Obiang assinou um decreto neste sentido.

Entretanto, segundo a Plataforma Portuguesa das Organizações Não-Governamentais, tal documento não passa de uma “declaração de intenções, pois não foi avaliado pelo parlamento e nem foi feita uma revisão da legislação. Ou seja, não tem valor jurídico ainda.”

Mesmo assim, o governo português engoliu o engodo. Foi escrito um roteiro para a Guiné Equatorial cumprir – o mapa da CPLP.

Martins da Cruz sublinha que, “segundo os ministros dos Negócios Estrangeiros da CPLP, incluindo o português, na reunião de ministros em Maputo, em fevereiro, todos os pontos foram cumpridos”.

Sobre a pena de morte, o antigo diplomata argumentou à agência Lusa que a Guiné Equatorial “comprometeu-se perante o Conselho dos Direitos Humanos nas Nações Unidas a estabelecer uma moratória”.

Mas não se preocupem, defensores da democracia, dos direitos humanos e da ética na política, o “persuasivo” presidente de Timor-Leste, Taur Matan Ruak, já se disponibilizou a trabalhar com Obiang a fim de cooperar e desenvolver os valores “fundadores e identitários” da CPLP.

Pra quê foto?

Nos últimos anos, a CPLP tem assumido um papel político importante no intercâmbio educacional e mesmo na democratização de alguns países da comunidade. Hoje, a organização envia observadores para eleições por exemplo.

Apesar do caráter histórico do evento, aparentemente os governos brasileiro e angolano minimizaram a importância da cúpula de Dili. Enquanto os outros países-membros contaram com seus chefes de Estado na reunião, o Brasil enviou o número dois do Ministério das Relações Exteriores.

O controverso presidente angolano, José Eduardo dos Santos, também enviou o seu vice, Manuel Vicente. Dilma #emcampanha nem a instituição Zedu estiveram presentes para celebrar o novo “bloco econômico”. Talvez os dois governos que mais queriam esta reforma na CPLP não mostraram a cara na hora da foto com Teodoro Obiang.

No caso de Dilma, talvez a ausência se justifique no medo de criar um eventual desconforto desnecessário na campanha, municiando os adversários. No caso de Zedu, temo que seja pura preguiça senil.

Cérebro de…

Aparentemente, o compromisso cultural da antiga organização lusófona deve continuar, mas em um plano inferior. A chamada “globalização da CPLP” é fria.

Sob o ponto de vista das relações internacionais, o que se espera é o cumprimento eficaz dos projetos de ampliação de plataformas empresariais e de cooperação econômica e tecnológica em setores estratégicos como energia e agricultura. Pilares plenamente justificáveis, uma vez que há um imenso potencial nestes setores no bloco.

O ingresso dos observadores Japão e Turquia – uma economia emergente que aspira à União Europeia há anos – também pode ser visto como importante componente para o novo bloco econômico.

Outro fato bastante caricato que marcou a quarta-feira de Dili, além da adesão em si, está o anúncio oficial do Governo da Guiné Equatorial sobre a sua inserção na CPLP no seu site oficial na Internet – com versões em espanhol, inglês e francês, mas não em língua portuguesa.

“Por consenso dos Estados-membros da CPLP, aprovou outorgar à República da Guiné Equatorial o estatuto de país membro de pleno direito no seio da comunidade, integrada até a data por um total de oito nações, cinco delas no continente africano. O nosso país passará a ser o sexto da África e o nono em ordem cronológica de adesão a esta comunidade, criada no ano de 1996”, diz o texto

Então, me diga: que cérebro tem este animal?

E o Brasil segue em Guerra Fria

Desfruto de um Tempranillo de Navarra guardado há dois anos para tentar engolir os pesados 50 de pura discórdia instaurados no meu país. A confusão de argumentos é tanta que é difícil trazer as pessoas a um nível emocional que facilite uma discussão política racional.

O que mais me incomoda é que quem capitaneou esta bagunça hoje não está mais entre nós para se explicar. Apenas seus “pau mandados” que não conseguem se entregar ao óbvio. Aliás, “pau mandados” de vida livre garantida pela Lei da Anistia e pesadas doses de antidepressivos.

Vou portanto desenhar:

Foi um período macabro, errado e feio? Foi. Foi um período de crimes covardes, de silêncio e tortura de um povo refém? Foi. Foi um período no qual aqueles que deveriam ser os mais patriotas se entregaram à lógica imperialista norte-americana em detrimento da lógica imperialista soviética? Foi.

Guerra Fria inacabada

Era um contexto diferente. Quem estava no Hemisfério Sul respirava uma guerra alheia e era pressionado a se decidir. A elite civil e militar brasileira optou pelo estilo norte-americano que apoiou regimes assassinos contando com forças de segurança subservientes na América Latina.

O mais interessante é que norte-americanos e soviéticos tiveram pouquíssimas baixas. Quem morreu e fez da Guerra Fria uma manobra duradoura e quente como o fogo do inferno foram as populações dos “países do Sul”, mergulhadas em guerras de libertação e ditaduras miseráveis.

Eu não consigo reconhecer isto tudo como uma política genuinamente brasileira. Não houve escolha democrática dos governantes. Houve uma influência externa invasiva e violenta que resultou em uma ditadura brutal.

Logo, a discussão racional e a superação deste período ainda são necessárias.

Que os arquivos sejam abertos, que o resgate da história seja feito e que, finalmente, o “processo de cura” na sociedade brasileira seja levado a cabo. Tal processo deveria ter começado com a Lei da Anistia nos anos 1970.

Estamos atrasados. Ainda ouvimos parlamentares mofados e cancrados com a mesma ladainha dos 1980 – tanto de um lado como do outro.

Que se pare de colocar a sujeira para baixo do tapete e se mostre tudo o que aconteceu. E, finalmente, entenda-se este período como um conjunto de erros políticos assassinos que não devem mais ser repetidos.

Corra, Dilma, corra

No entanto, hoje são vividos no Brasil cacoetes de ditadura das personalidades mais inesperadas.

Eu, pessoalmente, tenho alguma pressa de que seja reconhecido oficialmente no Brasil, de uma vez por todas, que patrulhar movimentos sociais e a sociedade civil é um ato da mais sofisticada ditadura e um crime contra os direitos humanos.

Logo, que o Estado brasileiro monitore as quadrilhas de criminosos, mas não se atreva a grampear lideranças de movimentos sociais. Que não se atreva a monitorar cidadãos inocentes. O Estado precisa ter limites.

No governo Dilma, principalmente depois das manifestações de 2013, isto está acontecendo e deve ser visto como uma contradição do Estado democrático de direito.

Se o governo petista teve a virtude de fomentar a chamada “Comissão da Verdade”, por exemplo, que não anule a sua contribuição positiva, reproduzindo um regime de perseguição ideológica aos seus cidadãos.

Sabe-se que o Estado é uma máquina facínora por natureza. Ele procura o ator que o ameaça e não mede esforços para o extirpar. A onda de manifestações fez com que a faceta autoritária de vários governos aflorasse mundo afora.

Controle da internet, monitoramento de grupos sociais descontentes e até mesmo prisões arbitrárias estão no escopo da moderna alegada defesa do Estado. Isto é autoritarismo puro, a um passo do perfil ditatorial clássico.

No final desta história, acabamos concluindo que a onda de contestações – que afinal deveria provocar uma onda de democratização ou afirmação da democracia pelo mundo – acabou por estimular o autoritarismo nestes Estados confusos, nestas pseudo-democracias (ou autoritarismos competitivos – como Egito, Venezuela, Angola, etc) ou democracias vulneráveis (Brasil, Espanha, México, etc).

A cura atrasada

Outros países fizeram o seu “processo de cura” com mobilização social extraordinária e contaram com as novas gerações de suas forças de segurança como aliadas importantíssimas.

Vejamos o exemplo do exército alemão, que consegue hoje se descolar do nazismo sem perder a marcialidade. Fazem um trabalho invejável junto à mídia e são bem compreendidos pela sociedade como um instrumento de um Estado em que o cidadão alemão pode até reclamar, mas confia.

O alemão comum acha que o exército é necessário, apesar do nazismo. Ou seja, há um “processo de cura” social que o brasileiro ainda não fez sobre as suas ditaduras.

Daí não consigo compreender porque as novas gerações de militares brasileiros ainda tentam justificar ações descabidas e covardes de quem cumpria cegamente ordens contra compatriotas.

Eu não sei quais camisas eram vestidas dos dois lados. Um vestia a camiseta norte-americana e o outro, a soviética ou chinesa. Ninguém vestia a camiseta brasileira.

Alguns militares brasileiros ainda estão, nos dias de hoje, pesados, carregando um fardo desnecessário. São jovens que compraram uma luta que não é deles. As instituições evoluem. E as forças de segurança devem evoluir também.

Por favor, não obstruam a ordem natural das coisas e larguem o discurso reacionário. Vocês não precisam disso.

Os militares são servidores do Estado. As forças de segurança são instrumentos do Estado. Não são o Estado nem pertencem a um partido político azul ou verde. São apenas forças de segurança pagas pelo contribuinte.

Deixar-se convencer que Castelo Branco ou Figueiredo foram presidentes legítimos é, no mínimo, temerário. Os generais, mesmo que esperneassem, hesitassem ou até mesmo desafiassem, acabavam servindo aos presidentes norte-americanos da época, que tratavam suas áreas de influência como apêndices dos Estados Unidos.

O discurso do jegue

É preciso mudar o discurso. É hora das lideranças brasileiras, como a própria presidenta Dilma, investirem em um discurso conciliador. A abordagem pode ser mais histórica do que política porque o contexto é outro. O muro caiu.

Nem mesmo o partidão existe mais.

Eu ouvi neste verão brasileiro a frase “você é vermelho”. Senhoras e senhores, os tempos são outros. O Brasil é outro. Não há mais espaço para este tipo de frase deslocada de contexto. A Guerra Fria acabou, apesar de suas viúvas.

Não se pode mais aceitar as novas gerações da esquerda resgatarem o bizarro com discursos inflamados, promovendo a caça às bruxas fora de contexto. Do mesmo modo, é difícil engolir as novas gerações de militares criarem oposição a tais ativistas. Não é lógico. É deslocado do tempo.

Ambos resgatam, de forma ridícula, os efeitos da Guerra Fria no Brasil, já bastante superados pelos próprios países protagonistas da tal guerra.

Aí começamos a entender porque algumas pessoas neste país contribuem bisonhamente para que o jumento empaque e a democracia não avance. São mentalidades retrógradas voltadas a um passado que obviamente não pode ser esquecido, mas superado.

Decidam-se pela democracia

Tudo isto deveria ser simplificado. Eu, pessoalmente, concordo que tudo deve ser aberto e revelado. Arquivos devem ser expostos e memoriais devem ser construídos.

Que os fantasmas dos antigos generais sumam da Academia Militar das Agulhas Negras e que museus de reconciliação da sociedade com as suas forças de segurança sejam erguidos. É necessário que erros sejam assumidos para que nada disso se repita no Brasil.

No entanto, se ainda existirem descontentes, pelo bem comum, eu sou a favor da escolha popular entre duas alternativas para que finalmente se avance na questão: ou se respeita a Lei da Anistia ou se julga, de uma vez por todas, quem matou e quem torturou em ambos os lados.

Nós vivemos um tempo de carências absurdas em praticamente tudo. Estar-se farto da classe média mesquinha, esquerdista ou direitosa, continuar com a ladainha antiga pregando a divisão idiota da sociedade graças à Guerra Fria é, portanto, natural.

Se o lema dos culpados pelas atrocidades era “morrer pelo Brasil”, que, portanto, se engula a Anistia e seja feita a justiça e a vontade destes assassinos. Os velhos delegados, majores, capitães, tenentes e sargentos da época devem “morrer pelo Brasil” em uma jaula, conforme a sua vontade – pelo Brasil.

Os guerrilheiros que assassinaram cidadãos inocentes, também. Sejam julgados e morram em uma jaula pelo Brasil conforme a sua vontade.

Enfim, sacrifiquem-se pela justiça no Brasil. E, por favor, deixem a população brasileira construir uma democracia que a represente com justiça social e ter o direito de escolher seus governantes. Lava-se a roupa suja e seca-se o que restar.

Seja feito o “processo de cura” necessário, urgente e deslocado da Guerra Fria.

Assim, pune-se os culpados. Faz-se justiça à memória e às família dos civis assassinados e se segue tentando implantar a democracia neste país, uma tarefa já bastante complicada para as novas gerações.

Um tigre banguela conta a sua história

A grande procura do público por Banguela surpreende a mim e à Editora Kiron. Mais exemplares estão sendo impressos somente para atender a demanda inicial.

É claro que isto muito me honra. A notícia aumenta a minha expectativa de que o trabalho realmente atinja o seu objetivo: fomentar a discussão sobre as políticas de segurança pública no Brasil. Um setor sensível, que lida com a vida das pessoas, mas, muitas vezes, está à mercê de autoridades inaptas, ranço político-partidário, disputas de poder pessoal, vaidades e que carece de planejamento básico.

As políticas públicas de segurança devem ser concebidas e implementadas. Hoje, são preteridas por uma espécie de “feudalismo” incrustado na cultura da polícia brasileira – principalmente investigativa. O delegado é o rei e tem os seus homens de confiança. Quem não joga no seu time está fora.

Se o Brasil pretende desmilitarizar a Polícia deve resolver os problemas do braço estritamente civil da segurança pública. E a tarefa é bastante árdua, como a leitura atenta de Banguela pode demonstrar.

Trabalho solo

É claro que o tempo de produção de Banguela desafiou a minha paciência. Contei com momentos raros, quando vim para o Brasil, para fazer as checagens finais das informações a fim de que o livro tivesse a consistência jornalística que considero importante.

Muitos colegas da imprensa têm valorizado o fato de o livro ter recursos literários para contar a história, como pseudônimos e objetos inanimados “narradores”. Isto foi usado por pura necessidade. Foi a forma que encontrei de proteger as minhas fontes. Adotei o mesmo critério para todos os personagens do livro – autoridades, agentes e suspeitos – porque muitos me pediram completo anonimato.

A elaboração de Banguela foi um imenso prazer porque fazer reportagem livre é um imenso prazer para qualquer jornalista. Impressiona-me a recorrente resposta positiva das pessoas que tiveram acesso ao trabalho, mas não me surpreende.

Afinal, a oportunidade de fazer jornalismo na sua essência é um privilégio para os repórteres e para os leitores, que podem, assim, ter acesso a um texto menos viciado.

Não contei com qualquer apoio externo para a produção. A responsabilidade é minha. Todos os custos, todo o esforço foi meu. Trata-se de um trabalho solo.

O que eu espero

O lançamento de Banguela na Palavraria, em Porto Alegre, nesta terça-feira (14.01) é um momento realmente muito especial. É o fim de mais um ciclo na minha carreira, quando eu consigo finalmente dar retorno aqueles que me confidenciaram histórias na esperança de que mazelas sejam resolvidas.

Eu acompanhei de perto as investidas de setores da segurança pública contra a quadrilha de 2001 a 2005, quando trabalhei na crônica como repórter de rádio. Em 2006 comecei as apurações do livro. A bem da verdade, lá se vão 13 anos em cima desta questão, oscilando entre momentos de mais ou menos intensidade.

Espero muito que as novas gerações de policiais, jornalistas e gestores públicos tenham acesso a este texto e que ele sirva para fomentar um debate qualificado sobre as suas atividades. Se isto acontecer, terei certeza de que estes 13 anos de trabalho não foram em vão.

Uma boa leitura a todos.
Mais informações sobre o livro pelo http://www.banguela.net.

Atenas forçada e digital

Os parlamentares brasileiros foram obrigados a mostrar serviço, dando sinais evidentes de que ouviram o recado das ruas – haja vista a votação da PEC 37. Que mudança de opinião!

Portaram-se como muitos libertários sonham, como “secretários da vontade do povo”.

Assim, a semana se faz histórica não somente pelos protestos no Brasil, mas pela reação imediata da elite política, que deu ares de Democracia Direta à capenga Democracia Representativa brasileira.

Os deputados agiram como facilitadores da vontade do povo talvez pela primeira vez na história do país. Eles tiveram de ficar no mesmo nível da população, assim como a presidente, que, atônita, horizontalizou o governo.

Dilma se deixou governar pelo povo, passiva e espertamente.

O que aconteceu na terça e quarta-feira no parlamento brasileiro mostra que é possível reduzir os salários dos parlamentares e transformá-los em meros facilitadores da vontade popular.

Novos secretários

Eles podem, sim, assumir a função de servidores eleitos, secretariando o cumprimento da vontade do povo. Teriam poderes reduzidos e a atribuição pura e simples de colher e viabilizar os desejos da sociedade através de canais apropriados.

O problema é a qualidade destes canais pelos quais a sociedade deve manifestar a sua vontade. Eles simplesmente não existem no Brasil. A prova disso é que o povo teve de ir para a rua em massa para finalmente influenciar a política do país de fato.

Foram necessárias manifestações históricas para finalmente a sociedade ser ouvida.

Isto, porém, não é um problema do Brasil e separa todos os países da Democracia Direita e da horizontalização da governança.

Democracia Direta digital

Há tecnologia para que as grandes questões de um país sejam decididas pelo povo, mas será que o brasileiro tem consciência cidadã suficiente para uma Democracia Direta digital sem elitizar demais as decisões políticas?

Será que há “fôlego cidadão” para acompanhar e decidir em conjunto os principais pontos da agenda política de um país?

Postergando esta discussão, prefiro apenas celebrar mais esta vitória dos “indignados brasileiros”. Eu vi algo que pensei que nunca iria ver em minha vida. Uma semana de “quase auto-gestão” no meu país. Uma semana de Democracia Direta, mesmo que forçada.

Claro, apesar das arruaças, da violência, eu confesso que gostaria que este sonho durasse um pouquinho mais.

A exaustão do acaso

O movimento não é disperso. Existe um fio condutor neste guarda-chuva de reivindicações nas cidades brasileiras: as pessoas protestam de forma pacífica por uma Democracia Representativa de qualidade. É simples assim. A classe política, os partidos políticos, há décadas, perseguem seus próprios interesses e os de seus patrocinadores.

Assim, surge a corrupção covarde, a péssima governança clientelista e patrimonialista e a fúria latente. A revolta de anos que se acumulou e encontrou uma espécie de “estado de consciência” ideal para explodir em grupo.

O poder econômico pisa na cabeça das populações e os nossos parlamentares engraxam seus sapatos. Estava na hora, é inegável.

A chance da polícia

Para a estrutura da segurança pública brasileira, trata-se da prova mais dura de sua história. A polícia está sendo obrigada a se reinventar. Sabendo que a repressão brutal a manifestações pacíficas pode elevar o número de adesões aos protestos, finalmente as forças de segurança têm que aprender a graduar a sua violência, tudo isto do dia para a noite.

Isto pode ser mais uma vitória do movimento pacífico que cobre o Brasil de uma discussão necessária, mas aparentemente chegando a seu limite uma semana depois de começar. Os movimentos parecem perder a legitmidade com a depedração gratuíta – violência gratuita.

O paradoxo da não-violência começou a se tornar visível com cenas de depedração e assaltos durante as manifestações. Todos aproveitam a “chance única” do seu jeito. Com efetivo policial concentrado em conter milhares de pessoas em frente a prédios públicos, surge também  a oportunidade do ladrão. Assaltos são naturais em um país tão desigual. Acaba-se pagando para protestar.

Com tanta gente na rua desafiando às instituições políticas, surge a oportunidade para grupos políticos avessos às instituições do Estado atuarem. Sem bandeiras de partidos políticos, mas profundamente ideologizados, eles se infiltram nas manifestações. São grupos que não compactuam necessariamente com a mudança pacífica do sistema.

Cadê o samba? Cadê o jogo bonito?

Com os holofotes do mundo voltados para o Brasil, o movimento aproveita esta oportunidade política de forma genial! O Brasil usa da sua legitimidade como “país do futebol” e cobra deste agente estrangeiro chamado FIFA. Não poderia ser em outro país. A “autoridade das cinco estrelas” legitima o brasileiro a pelo menos tentar colocar a FIFA e seu business no seu devido lugar.

Blatter foi vaiado pelo Mundo na abertura da Copa das Confederações. Não importa que a FIFA julgue o Brasil instável demais para receber a Copa do Mundo. Não importa que a FIFA transfira o Mundial para Espanha, Grã-Bretanha ou Alemanha. O que importa é que parece que recuperamos a nossa dignidade como nação.

O recado já foi dado: o Brasil não é  somente país do futebol, do samba, da mulata bonita e do Rio de Janeiro. Finalmente, os holofotes do Mundo estão em cima dos brasileiros de todos os cantos e está claro que se trata de um país de cidadãos. De gente que tem noção de onde vive e do que deseja. E sabe que o Estado pode oferecer muito mais do que oferece.

E o futuro?

É uma nova era para o país. Não há dúvidas. Mas é difícil fazer qualquer prognóstico de até quando isto vai durar e onde isto tudo vai dar.

Na melhor das hipóteses, podemos dizer que temos um ano até a Copa do Mundo e se a classe política não se mexer de forma satisfatória, as coisas vão ser ainda mais complicadas durante o Mundial. Isto vai fazer mal para o business, vai ocasionar perdas aos patrocinadores das campanhas dos parlamentares.

Ou seja, não há alternativas para a elite política.  Tem que ocorrer mudanças profundas na Democracia Representativa.

Na pior das hipóteses, por ser um “agitador” nato, estarei proibido de voltar ao meu país porque seres acoturnados me impedirão de entrar. Terei que lutar no exterior pela Democracia no Brasil como fizera uma geração de honrados jornalistas e ativistas brasileiros.

Pensando bem, isso não seria nenhuma novidade. Acho que desde que nasci luto pela Democracia. E até hoje acho que não a vivi na sua plenitude.

Ouvindo o clamor das ruas, o Blog do Pessôa volta á ativa. Todos decidimos despertar!