Antiga guerrilha anula acordo de paz em Moçambique

Marcio Pessôa, de Maputo

O clima é de bastante tensão em Moçambique após a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) anular o acordo de paz de Santo Egídio, que encerrou a sangrenta guerra civil no país. Trata-se da pior crise política desde o cessar-fogo, em 1992.

O anúncio da decisão foi feito pelo porta-voz da RENAMO, Fernando Mazanga, nesta segunda-feira (21/10), horas depois de o Exército de Moçambique tomar a base rebelde de Sathundjira, na província de Sofala, no Centro do país.

Mazanga disse que não houve baixas da RENAMO e acusou o partido no governo, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), e o presidente, Armando Guebuza, de quererem “assassinar (o líder da oposição) Afonso Dhlakama para subjugar os moçambicanos ao regime de partido único.”

Vale lembrar que Moçambique conta com alguns partidos de oposição, inclusive uma força emergente: o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), do líder Daviz Simango.

Negócios x Dhlakama

O líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, instalou-se, há mais de um ano, na área que era o antigo bastião da guerrilha durante o período de guerra civil.

Já na sexta-feira, quando almoçava na Baixa, em Maputo, observava a população que transitava pelas calçadas, parando em frente aos televisores para saber mais sobre a crise. Dhlakama enfatizava que não queria guerra porque, conforme suas palavras, “quem vai sofrer é o povo.”

No final de semana, no entanto, a imprensa registrava centenas de famílias deixando a região enquanto o Exército cercava a base militar rebelde. Refugiados levavam o pouco que tinham para se esconder no mato.

Com o início do cerco à Sathundjira, os moçambicanos pareciam pressentir que o cenário estava prestes a piorar. Nesta segunda-feira, cedinho, já estvam em frente aos jornaleiros para saber as manchetes dos periódicos, que relatavam a ação militar do governo.

Há algumas semanas, o porta-voz do presidente Armando Guebuza e o líder Afonso Dhlakama trocam acusações sobre as responsabilidades dos novos confrontos. Guebuza sabe que quanto mais tempo Dhlakama ameaçar a paz, pior será para os negócios do governo. Afinal, o capital estrangeiro não gosta de instabilidade e é necessário acabar com este foco nocivo ao business.

Movimento calculado

Presume-se, portanto, que o governo tomou a decisão de atacar porque acredita que pode aniquilar a resistência rapidamente. No entanto, com o rompimento do acordo de paz, a RENAMO diz que está disposta a tudo e assim fica difícil fazer um prognóstico sobre o que vai acontecer nos próximos dias.

Não se sabe ao certo o poder de fogo da RENAMO e o seu potencial de aglutinação. Desde o início do ano, várias unidades policiais foram invadidas por grupos não-identificados. Munição e armamento têm sido roubados.

Sem contar com efetivo e força bélica para enfrentar de igual para igual as forças do governo, há quem diga que é possível o retorno das sabotagens da pouca infra-estrutura existente no país. Nos últimos meses, pontes foram danificadas, a principal via de ligação entre o Norte e o Sul ameaçada, civis foram mortos e patrulhas militares foram atacadas.

Tais ações podem se tornar mais constantes.

A posição do moçambicano

Apesar de, pelo menos em Maputo, a população relutar em se dizer da oposição por medo de algum tipo de represália, nas “paragens dos chapas”, nas conversas de esquina, em frente aos mercados, o moçambicano confessa que Dhlakama tem razão. Todas as pessoas com quem tenho conversado nas ruas dizem que o acordo de paz deveria ter sido cumprido e que a FRELIMO lida muito mal com a questão há anos.

Durante vários meses, o governo da FRELIMO e a RENAMO não foram capazes de chegar a um acordo sobre as eleições, que devem acontecer em novembro. A RENAMO alega que a Lei Eleitoral favorece a FRELIMO e que a Comissão Nacional de Eleições (CNE) é ilegal por ainda não contar com representantes de todos os partidos.

A RENAMO não indicou seus representantes na CNE e não vai participar do pleito, abrindo caminho não somente à FRELIMO, mas também ao MDM (uma força de oposição que pode ocupar este vácuo deixado pela principal adversária da FRELIMO).

Entretanto, a discórdia entre as partes não se resume ás eleições. Pontos do acordo de paz de 1992 ainda não foram cumpridos pela FRELIMO e isto revolta setores mais belicistas da RENAMO. Um dos pontos fundamentais é o fato de militares identificados com a RENAMO não fazerem parte das Forças Armadas de Moçambique (FADM).

O não cumprimento desta parte do acordo fez com que os ex-combatentes da RENAMO convocassem Dhlakama para sair de sua confortável residência nas proximidades da Costa do Sol, em Maputo, e voltar para a Gorongosa, a fim de pressionar o governo a cumprir o acordo de paz.

A semana começa quente em Moçambique e agora parecem pairar incertezas quanto ao bom andamento das eleições autárquicas de novembro. Parece que a RENAMO enfraquece o seu status de partido político e retorna à velha roupagem de grupo armado. Seria isto mesmo um retrocesso?

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Uma resposta para “Antiga guerrilha anula acordo de paz em Moçambique

  1. sempre por dentro. parabéns

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