A musa da corrupção na África

Os jornalistas brasileiros costumam apontar musas para tudo. Tem a musa dos campeonatos de futebol, das novelas, das piscinas dos clubes, dos BBBs e dos terríveis programas dos fins de semana da TV aberta. São geralmente mulheres que se aproximam mais daquilo que a sociedade machista elegeu como “ideal de beleza”.

Eu vou exagerar um pouquinho neste “direito midiático” e propor mais um título neste rol: “a musa da corrupção na África”. Eis algo que estava caindo de maduro… ou madura, uma vez que a musa em causa tem lá seus 40 anos.

Isabel dos Santos – a filha mais velha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, é bonita e bem tratada. A revista Jeune Afrique, que traz na sua última edição as pessoas mais ricas da África, dedica a página central à angolana.

Isabel é descrita como uma mulher que corria dos holofotes da mídia até o final de março deste ano. Resolveu, entretanto, colocar o pescoço para fora da toca e conceder uma entrevista ao Financial Times. Aí, acabou sendo apanhada para não sair mais de jornais e revistas – ficando marcada internacionalmente de uma forma que, talvez, não esperasse. Bastante desconfortável para quem luta com unhas e dentes pelo rótulo de empresária

Ovos de ouro

Para o jornal londrino, ela negou que era favorecida, mesmo que licitamente, pela influência de seu pai. Declarou que sempre teve tino de negócios e que iniciou aos 6 anos de idade, vendendo ovos. Em Angola, ficou conhecida como “a menina dos ovos”.

Hoje, a “musa dos ovos de ouro”, segundo colegas jornalistas que prefiro não identificar, evita qualquer contato com a população, usando escolta de seguranças e limusine blindada.

Conforme a Jeune Afrique, Isabel ostenta um iate de 400 mil dólares em Marbella, na Espanha, usado apenas uma vez para comemorar o seu aniversário de 38 anos. A manutenção da embarcação custa 40 mil euros.

Neste ano, a revista Forbes apontou Isabel dos Santos como a primeira mulher bilionária do continente. A mesma Forbes, meses depois de tê-la colocado no pedestal dos ricos, mostrou-lhe a humilhação pela pura corrupção.

A “filha do papá” foi alvo de uma matéria difícil de se fazer no “Estado-patrulha” angolano, onde a imprensa livre é um sonho. O texto, assinado por Rafael Marques e Kelly Dolan, acusa a empresária de enriquecimento ilícito e favorecimento por nepotismo.

A revista publica que “todos os grandes investimentos angolanos detidos por Isabel vêm de uma empresa que quer fazer negócios no país ou de uma assinatura presidencial que a inclui na ação”.

Conversei com Rafael Marques que diz ter encontrado provas do favorecimento econômico à filha do presidente através da simples pesquisa no Diário Oficial de Angola. “É um caso claro de nepotismo e corrupção, quando o presidente usa o seu poder de Estado para facilitar o enriquecimento da filha”, ressaltou o jornalista que classifica o regime como uma “cleptocracia”.

Rica por decreto

O caso da empresa Nova Cimangola, também publicado pela Forbes, é bastante contundente. O governo angolano, segundo Marques, teria abocanhando 49% da empresa de cimentos por 74 milhões de dólares públicos. O negócio foi fechado pelo ministro das Obras Públicas, Higino Carneiro, e pelo ministro das Finanças José Pedro de Moraes.

Após alguns dias, a compra feita pelo Estado teria passado, conforme Marques, para a titularidade da Ciminvest “que é uma empresa que Isabel dos Santos admite ser sua. A Ciminvest foi criada alguns dias antes desta transação.”

Jornais portugueses e angolanos divulgaram que a transação fora feita com financiamento do Banco BIC Português, do qual Isabel é acionista. “Ela não poderia conceder empréstimo a si própria. Foi uma justificativa de fachada. Não existe registro desta transação no diário da república. Quando se compra bens do Estado, deve haver um concurso público”, questiona Marques.

A Forbes divulga que Isabel dos Santos teria 24,5% da Endiama, a empresa concessionária da exploração mineira no Norte do país, criada por decreto presidencial. A revista cita que Isabel também assumira por “decreto” o controle de 25% da Unitel, a primeira operadora de telecomunicações privada do país.

A grande família

O texto dos jornalistas apresenta a versão da porta-voz de Isabel dos Santos, afirmando que a empresária “pagou pela sua parte da Unitel, mas não especificou a quantia. Um ano depois, a Portugal Telecom pagou 12,6 milhões de dólares por outra fatia de 25%”.

Mesmo com a assessoria de imprensa da empresária divulgando nota e trabalhando duro para encontrar argumentos a fim de negar as acusações, o histórico da família dos Santos pesa contra Isabel. Marques lembrou, em matéria publicada na DW África, que outros familiares são favorecidos.

José Filomeno dos Santos “Zenu”, filho do presidente angolano, é o vice-presidente da Administração do Fundo Soberano de Angola (FSA), uma instituição pública que seria dedicada a financiar projetos de desenvolvimento. E não para por aí: “Tchizé” dos Santos, outra filha do presidente, está à frente da gestão de um dos canais da Televisão Pública Angolana (TPA 2). Nenhum dos dois contariam com a simpatia da irmã mais velha.

Prejuízo incalculável

Nem mesmo o somatório da fortuna da família do presidente pode oferecer alguma noção do quanto Angola é prejudicada pela péssima gestão pública.

A esclarecedora matéria de Guilherme Correa da Silva para a DW África lembra que, em 2012, Angola voltou a ter nota ruim na lista da organização Transparência Internacional sobre percepção da corrupção. Ficou no lugar 157 num conjunto de 176 países.

O colega ouviu o consultor alemão Markus Weimer, da Control Risks, que comentou a dificuldade que um investidor externo enfrenta para fazer negócios em Angola. “Quando se faz uma parceria com uma empresa angolana, não é muito fácil encontrar os documentos no ramo público para fazer o ‘due dilligence’, como se deve fazer”, explica o analista.

Weimer disse a Guilherme que acaba sendo um desafio investir no país. “Mas acho que, com o investimento de tempo e recursos e também com bom aconselhamento, pode-se fazer negócios em Angola sem correr o risco de corrupção”, acrescenta.

Apenas para lembrar: conforme o RMG, Angola é o segundo produtor de petróleo da África, faturando 70 bilhões de dólares anualmente, e é responsável por 7% da exportação de diamantes no continente. O país é considerado potência econômica emergente na região, com crescimento econômico em franca ascensão: 1,6% em 2010, 7,8% em 2011 e 10,5% em 2012.

Por outro lado, a população, vitimada por anos de guerra civil, acumula índices perversos. Conforme o PNUD, é o sétimo país com índice mais baixo de desenvolvimento humano pela segunda vez consecutiva em 2013. Segundo a Human Rights Watch, 3% da população têm acesso à Internet. A UNESCO aponta que 75% dos angolanos vivem com menos de 1,5 dólar por dia e mais da metade da população adulta é analfabeta.

Em outras palavras, a musa deste texto está afundada na lama de um dos regimes mais cínicos e cruéis do planeta.

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