Desejo a todos um bom Globo Repórter nesta sexta-feira!

Porque o da semana passada, meus amigos, foi uma fraude. Uma trucagem de TV bem feita. Cinematográfico. Venderam Moçambique para turistas brasileiros em condições de pagar boa hospedagem e passagem e desprezaram a “notícia”, o jornalismo.

Parabéns! Mais uma vez, fizera-me vir ao meu blog para ser crítico da crítica, um papel que eu odeio. Embora eu ainda não acredite que exista conteúdo crítico nessa matéria. Fizeram-me vir para o meu blog usar pontos de exclamação, coisa que eu não faço!

Aos colegas jornalistas, principalmente aos editores do Globo Repórter, uma perguntinha simples: como uma equipe de reportagem consegue ir para o meio da matéria e não enxergá-la? Como ir para o olho do furacão e não sentir o vento? Seria insensibilidade, falta de talento, carência de aptidão, censura ou desinteresse de mostrar ao brasileiro a realidade do Brasil em Moçambique?

Como um time de jornalistas brasileiros muito bem custeados e preparados consegue ter o privilégio de ir para um país que vive seus dias mais críticos de relacionamento com o “Brasil” e sequer toca neste assunto?

A “Marca Brasil”

É claro que me refiro aos intelectuais moçambicanos e à sociedade civil do país quando falo em “momento de relacionamento crítico”. O Brasil sempre esteve associado à alegria para os africanos. Eu fui para Botsuana e vi “bushmen” (aqueles de “Os Deuses devem estar loucos”) com camisetas da seleção brasileira. No meio da savana, eles conheciam o Brasil e estavam felizes por verem um brasileiro – e eu, honrado.

Na África, até poucos anos, você falar que era brasileiro era motivo para se desfrutar de uma boa conversa sobre cultura, futebol, partilhar boa comida e música. Estive na África do Sul, no Zimbábue, na Namíbia, em Moçambique, na Zâmbia, na Guiné-Bissau e no Marrocos. Nestes lugares, dizer-se brasileiro abre portas e corações.

Mas estes dias parecem estar acabando. A coisa mudou um pouquinho nos últimos tempos. Ganhamos em dinheiro e perdemos em simpatia. Aliás, quem ganhou em dinheiro mesmo?

Justamente em Moçambique, para onde os jornalistas globais foram, ativistas e intelectuais, que antes concentravam suas críticas na política externa e nos mega-empreendimentos ocidentais, agora incluem nos seus discursos o Brasil num tom de surpresa e decepção. Vi isso no Zimbábue quando apelavam para que os negócios com diamantes beneficiassem o povo e mostravam medo dos interesses chineses e brasileiros no país.

Cidadãos moçambicanos bem informados, acadêmicos, técnicos de organizações não-governamentais estão se ocupando dia e noite em discutir o que o governo brasileiro e as empresas brasileiras estão fazendo no seu país em parceria com o “seu” governo. E digo, o que eles têm a dizer deveria ser ouvido por todo o brasileiro. O Globo Repórter poderia ter feito este serviço.

Globo Turismo

Mas o Globo Repórter se travestiu de “Globo Turismo”. A edição do dia 3 de Agosto foi um filme lindo, mas surreal. Levou ao brasileiro imagens do arquipélago de Bazaruto, muito bem recomendado para “casais em lua de mel”, da cidade de Maputo, de Chimoio, da cultura e da gente bonita do país. Explorou o esplendoroso Parque da Gorongosa com sua fauna rica, elefantes, antílopes, leões… Conseguiu chegar a um mirante na Gorongosa, que foi destruído na guerra civil e aí perdeu a notícia.

Aquela mesma guerra civil está em pleno período de Déjà vu ignorado pelo “Globo Turismo”. Talvez por sorte, ou azar, a reportagem não se encontrou com combatentes da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), que, neste momento, estão concentrados justamente na região da Gorongosa, e têm, nos últimos meses, cometido atentados para intimidar o governo.

Civis inocentes têm morrido neste Déjà vu. Embora, sem confirmação, a RENAMO está entre os suspeitos destas mortes.

A RENAMO é originariamente um grupo armado que virou partido e, agora, ameaça voltar às armas para colocar em cheque o eterno governo central Moçambicano da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Tem invadido arsenais e postos de polícia para se armar contra um grupo político que está há décadas no poder e se apropriou do país, dividindo lucros e riquezas com multinacionais.

O Globo Repórter em “parceria com a afiliada paranaense da Rede Globo” se negou a ir a fundo no que vincula o Brasil com Moçambique nos últimos anos: esta imensa riqueza natural que é inacessível à população e é explorada pelo governo moçambicano e gigantes corporações estrangeiras, muitas delas brasileiras.

Cooperação capenga

Como uma equipe de reportagem brasileira, com público-alvo brasileiro, vai para um território cheio de matérias de interesse dos brasileiros e simplesmente ignora a notícia, ignora a história?

Pelo jeito, a maior empresa de comunicação da América do Sul não quer mostrar, mas você pode ver. Vá para o Youtube, busque no Google… Você quer ficar bem informado sobre o Moçambique que interessa para um brasileiro com voto na mão? Procure saber sobre os “investimentos brasileiros” no país e suas várias questões em aberto.

Tente se informar como o governo brasileiro facilita tudo isto. Como o Governo Lula vendeu as empresas brasileiras para a África, usando “os nossos laços étnicos e culturais” como discurso. Aliando-se a corporações gigantes do Brasil e a elites corruptas e cruéis africanas.

Descubra Moçambique da Rede Record, que azucrina a vida dos africanos com a violência policial paulista. A Record que vende a enganação religiosa para um país com 50% de analfabetos. Veja um país que admira a cultura brasileira, mas está prestes a se decepcionar com esta marca alegre e viva, que era a “Marca Brasil”. Uma população africana, com suas próprias mazelas, sendo obrigada a engolir pelos canais abertos o pior do “irmão latino-americano”.

Política externa arrogante

Lance os olhos em um projeto da Vale na região de Moatize, onde está em ampla ascensão a segunda maior mina de carvão mineral do mundo. Um projeto que ainda leva dor a uma comunidade que foi enganada por esta multinacional brasileira.

Gente que tem como tradição enterrar o cordão umbilical dos bebês como símbolo da ligação com a terra e caiu no canto da sereia, abandonando suas casas para “liberar” a área para a empresa. Agora, querem, pelo menos, ter o mínimo do que a gigante brasileira lhes prometeu. E a luta é dura! Nenhum jornalista moçambicano consegue ouvir a Vale. Ela só fala para veículos brasileiros. Nem este privilégio o “Globo Turismo” aproveitou.

Queira saber um pouco mais sobre o Prosavana e suas dúvidas. Um programa de cooperação nebuloso que não se comunica com o seu público-alvo, enchendo 4 milhões de pessoas de dúvidas quanto ao seu futuro. Um programa de cooperação que é mal discutido em Moçambique e de pouquíssimas matérias (todas elas pouco críticas) na imprensa brasileira.

Diante de tudo isto, como jornalista, considero um escândalo o momento que o “Globo Turismo” começa a abordar o programa de cooperação brasileiro na fronteira com o Zimbábue e sequer fala dos outros programas. Moçambique é talvez o principal alvo da política de cooperação brasileira na África. Uma política que tem muitos pontos frágeis e mil questões em aberto.

Dá pra fazer muita matéria interessante sobre Moçambique para o brasileiro com voto na mão. Mas o “Globo Turismo” fez turismo e um programete para consumidores. Então, à uma das emissoras de TV mais poderosas do mundo, uma sugestão: faça uma segunda matéria. Quem sabe faça algo mais jornalístico? Ou, por favor, substituam o nome deste programa de sexta-feira à noite. O que eu vi pelo youtube, nesta semana, não é legítimo para ser chamado de “Repórter”.

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5 Respostas para “Desejo a todos um bom Globo Repórter nesta sexta-feira!

  1. Há tempos não assisto este programa, ou melhor, este arremedo de programa que insiste em chamar-se deste modo. Sei das questões gerais sobre a África graças a este teu blog. E sei que ainda continua a exploração e a usurpação dos recursos do continente. Alguém deveria lembrar aos nossos conterrâneos que daqui a pouco poderemos, sem aviso prévio, tornarmo-nos alvos de grupos terroristas (ou de oportunistas-belicistas, como queiram que sejam chamados!)

  2. O programa já devia ter mudado de nome há muito tempo. Se bobear, o próprio jornalismo também já poderia ter adotado outra alcunha. Grande texto, Marcio. A indignação costuma ser ótima inspiradora. =)

  3. Bom, tive uma interpretação um pouco diferente da sua. Ao mesmo tempo que o Globo Repórter esconde a cruel e delicada realidade moçambicana, ao mesmo tempo ele vai na contramão de tudo que existe sobre a África. Sou professor de História, pesquisador sobre Angola, e canso, e canso muito mesmo, de dizer que a África é bonita, que é legal, que tem estradas, que tem lugares turísticos e coisas extraordinárias. Se para nós, interessados no continente africano, o programa foi muito deficiente, ele foi para a imensa maioria dos Brasileiros algo novo e bonito. Tive muito orgulho de assistir o programa com a minha mãe, que ficou me perguntando? “Nossa Bruno, você esteve em Moçambique? Que bonito! Quero ir também”… Isto que uma semana atrás ela estava me chamando de louco por querer ir em lugar só de pobre e com guerra. Ponderamos a análise.

  4. Concordo com Bruno Pastre. Produzir uma visão menos pessimista sobre o continente africano, na rede globo, é algo no mínimo inovador. Obviamente não dá para esperar que a rede globo aprofunde as questões de Moçambique, historiando a guerra de desestabilização nem apresentando Afonso Dhaklama ao público brasileiro. Mais ainda assim, foi abordado a problemática das minas ( e da guerra) a inovação dos ratos que ajudam na desminagem, a importância das plantas tradicionais, falou-se no papel das mulheres na sociedade, na machamba, nos mercados. E sim, também falou-se de Bazaruto, mas este não foi o único assunto, e nem os elefantes de Gorongosa. Sinceramente foi melhor do que eu esperava, em termos do plim plim, claro.
    Mais uma coisa, sobre os jornalistas moçambicanos não conseguirem falar com a Vale seria bom rever esse dado. A entrevista de Arsenio Fernandes com Ricardo Saad no programa ” a grande entrevista” da STV mostra o contrário.
    As imagens que surpreenderam positivamente a mãe de Bruno, também surpreenderam minha família quando, estando aqui em Moçambique, indiquei para que eles assistissem o programa.

  5. Seja bem-vinda, Fernanda.
    Se a Vale se sentiu à vontade para falar para a Soico sobre os deslocados de Moatize, é um bom sinal. Eu gostaria de ter visto esta entrevista. Colegas moçambicanos, dentro e fora do país, por algum motivo, não têm a mesma sorte. Conheço jornalistas que há um ano tentam falar com a Vale, mas não há resposta aos pedidos de entrevista. Deve haver algum motivo para o silêncio seletivo. A última vez que tentamos foi há duas semanas. Eles atenderam o telefone (algo bastante raro). Disseram que era para a reportagem retornar a ligação no dia seguinte. E te digo, ficamos felizes com a possibilidade de um contraponto. Infelizmente, no dia seguinte, eles não atenderam o telefone. Se um dia conseguirmos falar com a Vale sobre este tema, publicarei aqui para você saber a resposta.
    Muito obrigado pelo seu comentário.
    Marcio Pessoa

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