A cinco dias do caos

Integrantes da sociedade civil zimbabueana e políticos do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) discutem via Facebook o que farão após a vitória eleitoral do presidente Robert Mugabe, há 33 anos no poder.

A alegação de massivas fraudes é geral. O MDC denunciou que nomes de eleitores não constavam nas listas de votação, publicadas menos de 24 horas antes da eleição – o que teria inviabilizado a verificação independente.

A ONG Rede de Suporte para as Eleições (ZESN) enviou sete mil observadores para diversas partes do país e indicou que cerca de um milhão de nomes desapareceram das listas eleitorais. O número de eleitores cadastrados deveria ser de 6 milhões.

Via Facebook, conversei com alguns líderes da sociedade civil do país e com zimbabueanos radicados na Europa. Muitos pedem para se “esperar os resultados oficiais”. “Seria eu um dos poucos cidadãos que viveram em um mar de admiração e nostalgia pela ZANU-PF?”, provoca um dos líderes de uma importante ONG do país.

Alguns mostram impotência, certos de que houve fraude: “nós lidamos com a mais sofisticada ditadura”, diz um zimbabueano na diáspora também pelo Facebook. Há os que querem ir para as ruas protestar. “É meu futuro que está em jogo. Eu não vou mais permitir isto. Vamos para a “Freedom Square” contra esta fraude”, disse um amigo ativista, que também prefiro não identificar.

Eternizado no poder

Integrantes do partido União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (ZANU-PF), de Mugabe, têm declarado informalmente que venceram o pleito. “Nós ganhamos de forma bastante enfática”, disse um representante do partido para agências de notícias sob a condição de anonimato.

A armação parece ter ficado bem clara quando Mugabe não aceitou a presença de observadores e jornalistas ocidentais nas eleições de quarta-feira (31/07). A União Africana, entretanto, já disse que o pleito foi “pacífico, ordeiro, livre e justo.”

Morgan Tsvangirai, um antigo sindicalista que emergiu no final dos anos 1980, com longa trajetória de resistência e várias prisões “subversivas” no currículo, assiste, pela terceira vez como candidato, o mesmo filme. “As eleições foram uma farsa. Não vão refletir a vontade do povo”, disse nesta quinta-feira Tsvangirai, que há poucos dias exercia o cargo de primeiro-ministro na precária partilha de poder do país.

Rumo à violência

As palavras de Tsvangirai refletem na mídia social e tendem a inflamar a sua militância, acostumada a um ambiente de violência pós-eleitoral. Desde 2008, os esforços de partilha do poder têm o objetivo de levar as duas correntes políticas ao diálogo.

Em cinco dias, os resultados das eleições serão divulgados. Em caso de vitória de Mugabe, é possível haver manifestações de oposicionistas indignados pela fraude eleitoral. Em caso de derrota do líder zimbabueano temporão, dificilmente a cúpula da ZANU-PF vai aceitar os resultados, podendo repetir a onda de violência após a derrota no Primeiro Turno em 2008.

Ou seja, não há alternativa. Em cinco dias, a não ser que algo extraordinário aconteça, é muito grande a chance de nova onda de violência. Haverá conflito. Resta apenas saber em que escala.

O Zimbábue mostra que viveu eleições sem estar preparado. É o desfecho da partilha de poder apressada e mal negociada pelo MDC. A frágil democracia da África Austral acumula mais uma derrota. Até quando?

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