O baiano e a “dinastia democrática” togolesa

Em 1850, um mulato brasileiro livre, de 17 anos, resolveu migrar para a terra de seus avós maternos para fugir da opressão. Francisco Olympio Silva chegou à África Ocidental em busca de uma oportunidade de trabalho junto à comunidade afro-brasileira instalada na região desde meados do século dezoito.

Deixou Salvador no refluxo da fracassada revolta dos escravos muçulmanos (ou Revolta dos Malês), que também resultou em perseguições do Estado aos não-brancos livres. Esta camada mestiça da população teve oportunidades econômicas bastante restritas durante os anos que sucederam à revolta.

Francisco se tornou empregado de traficantes de escravos (os Cerqueira Lima), que atuavam onde hoje é Gana, Togo e Benin e abasteciam o Brasil. Aproveitando-se das guerras étnicas na África, o negócio indigesto lhe rendeu notoriedade e fortaleceu seus laços com a elite baiana e togolesa da época. Ganhou confiança, fixou-se no Togo e criou o seu próprio negócio no tráfico.

Primeiro presidente

Com a pressão britânica que acabou com o comércio de escravos no Atlântico, Francisco mudou de ramo. Aproveitou seu prestígio e se tornou agricultor e comerciante na região de Togo e Benin. Ganhou terras de seus amigos e, pela influência da comunidade afro-brasileira na área, inseriu-se facilmente na sociedade local. Teve oito esposas e 21 filhos – vários com nomes portugueses.

A geração seguinte fez da família Olympio uma das mais influentes do Togo no século 20, com destaque para o empresário Octaviano – um dos homens mais ricos do país. Sua fortuna cresceu através de negócios com agências de comércio europeias. Sylvanos Olyimpio, neto de Francisco e sobrinho de Octaviano, tornou-se o primeiro presidente eleito democraticamente do Togo após o domínio colonial da França.

Sylvanos estudou na London School of Economics e, antes de ser presidente, foi diretor de operações da Unilever África e primeiro-ministro do país. A sua linha política era nacionalista e tinha franco apoio da população. Foi assassinado em 1963, durante um golpe de Estado que, segundo analistas togoleses, teve participação direta de soldados franceses.

Democracia e independência de fachada

Após quatro anos, um segundo golpe de Estado colocou outra família na posição de grupo mais influente do Togo independente: os Gnassingbé. O General Gnassingbé Yadema governou o Togo de 1967 até a sua morte em 2005 – sempre bastante amigo do Ocidente.

Seu filho, Faure Gnassingbé foi eleito em 2005 e reeleito em 2010 em dois pleitos bastante contestados pela oposição, mas engolido com alguma tranquilidade pelos observadores internacionais.

Neste ano, a “dinastia” completa 46 anos sem margem para dúvidas quanto a sua continuidade. Uma comissão eleitoral controlada pelo partido do governo – União para a República (UNIR, na sigla em francês), corrupção generalizada, setores da oposição cooptados, desorganização dos grupos resistentes e presença dos Gnassingbé em posições de destaque em todo o país acabam com a esperança de mudanças nas parlamentares desta quinta-feira (25/7).

Além da máquina do Estado mobilizada para a UNIR, a ameaça a blogueiros, a violenta repressão e uma situação social dramática sufocam levantes populares mais contundentes. De acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento, um em cada três jovens está desempregado no Togo. O país está entre os mais pobres do mundo – dois terços da população é analfabeta.

Apoio à repressão

Apesar da pouca esperança de mudança, existe um clima oposicionista no ar. O que falta é organização nos setores políticos para traduzir esta vontade em votos. As próprias eleições parlamentares foram atrasadas quase 10 meses em função da oposição da sociedade civil, basicamente de organizações estudantis.

Os togoleses foram às ruas em abril deste ano por alguns dias devido à greve dos professores. O governo fechou os estabelecimentos de ensino fazendo estudantes reagirem e engrossarem as marchas dos docentes.

Na ocasião, a repressão policial resultou na morte de um menino de 12 anos, o que aumentou a revolta. O clima pró-oposição é sedimentado não somente pelos protestos, mas também por algumas campanhas criativas isoladas.

Candidatos ao parlamento passaram semanas batendo nas portas das casas nos bairros da capital Lomé, cidade litorânea, com mais de 835 mil habitantes, para apresentar suas propostas. “Para nós não se trata somente de mobilizar, mas também permanecer vigilante para impedir que qualquer erro ou fraude aconteça nesta quinta-feira”, disse a DW, Jean Pierre Fabre, membro da corrente política “Salvemos o Togo”.

Um Olympio cooptado?

Com uma nova vitória iminente da UNIR, a tendência é que novos levantes aconteçam, a exemplo das manifestações pós-eleitorais de 2010, quando a oposição alegou manipulação em favor do presidente Faure Gnassingbé.

Tais protestos pediram a impugnação dos resultados, mas a polícia sufocou as manifestações com extrema violência. “O apoio que a França deu para as eleições no Togo foi equipar as forças de segurança para reagir aos protestos pós-eleitorais “, lembrava um jovem estudante togolês em uma conversa informal comigo, há alguns meses.

E onde está a família Olympio nesta hora? O filho de Sylvanos, Gilchrist Olympio, em 2010, negociou um acordo e se uniu à estrutura do Estado para, segundo ele, “checar as ações do Governo”. Gilchrist não se candidatou a nada agora. Em outras palavras, o seu partido, a União de Forças para a Mudança (UFC), que era a principal sigla da oposição, parece contrariar o próprio nome e não querer mudar mais nada.

Anúncios

Deixe seu comentário no blog para que outros leitores conheçam a sua opinião.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s