Armados e desarmados contra Kabila

O governo da República Democrática do Congo (RDC) parece enfrentar agora um levante desarmado em Goma. Na quinta-feira (18/07), centenas de pessoas protestaram na capital da província do Kivu do Norte contra o presidente Joseph Kabila. Bloquearam os acessos ao aeroporto e ao porto, pedindo a sua renúncia.

“Toda a vez que o exército avança para acabar com os rebeldes, Kabila decide interromper a ofensiva de alguma forma. Ele justificou o arrefecimento das operações nos últimos meses apelando por negociações. A população quer que os dois generais (da ONU e do Exército da RDC) fiquem em Goma para continuar a ofensiva”, disse Henri Bura Ladyi, diretor do Centro de Resolução de Conflitos (CRC).

O General brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz chefia a missão de estabilização da ONU na região (MONUSCO). Eu conversei com Santos Cruz na quarta-feira, e ele estava se deslocando para Kinshasa – exatamente o que a população temia.

Mais ainda, soldados congoleses têm divulgado na Internet imagens onde desrespeitam cadáveres de rebeldes durante a sangrenta ofensiva dos últimos dias. A brincadeira macabra resultou no repúdio do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e na prisão de um oficial que comandava a operação.

Algumas agências de notícias informaram que a prisão foi o estopim para as manifestações. Segundo Ladyi, o governo da província do Kivu Norte passou a sexta-feira usando veículos de comunicação da região para dizer que o comando das Forças Armadas vai permanecer em Goma, em uma manobra para acalmar a população.

Prioridades

As Forças Armadas da RDC iniciaram no domingo passado um ofensiva contra os rebeldes do M23. São os combates mais intensos travados na região desde novembro do ano passado. Na época, os rebeldes tomaram Goma diante dos olhares impotentes das tropas de paz da ONU. Até hoje ativistas reclamam que os ‘capacetes azuis’ não fizeram nada para evitar que o M23 ocupasse a cidade matando e abusando de civis.

Em entrevista à DW, na quarta-feira à noite, Santos Cruz falou que a prioridade da Brigada de Intervenção – uma novidade na nova etapa da missão – é defender a cidade de Goma e os acampamentos de refugiados no país. Apesar de a brigada ainda não estar com o efetivo completo, já está em atividade e tem autorização para avançar contra o M23, caso seja necessário.

O M23 tem invadido os campos de refugiados e recrutado jovens para suas fileiras. Daí a preocupação da ONU em guarnecer os acampamentos. Por outro lado, a população angustiada quer ver a brigada junto ao exército, combatendo os rebeldes diretamente. Santos Cruz não deu sinais de que a brigada vai se juntar ao exército nesta ofensiva. O General ressaltou que a solução do conflito não passa pelas forças da  ONU, mas pelo diálogo político entre os atores regionais.

Impasse

A questão é que desde dezembro passado há esforços para um diálogo político na região dos Grandes Lagos, mas não há avanços. O M23 negociava o retorno do seu efetivo ao exército congolês e anistia, mas suspendeu as conversações quando a ONU aprovou o emprego da Brigada de Intervenção.

Por isso, o M23 volta às armas com o apoio de guerreiros ruandeses e colaboradores na cidade de Goma. A brigada está se confirmando como um ingrediente que torna o conflito ainda mais sangrento.

Para piorar a situação os guerrilheiros ugandeses das Forças de Defesa Aliadas (ADF) e do Exército Nacional para a Liberação do Uganda (NALU) estariam contando com milicianos Al-Shabab, naturais da Somália, para as ações na RDC.

Os próximos dias

Conforme Henri Bura Ladyi, estes grupos armados estariam em coalizão com os congoleses Mai-Mai, conhecidos por aterrorizar as zonar rurais do Kivu do Norte. A aliança rebelde estaria se aproximando neste momento de cidades de médio porte, provocando a fuga de civis.

“Não pensamos que as coisas melhoraram (com a Brigada de Intervenção). Rebeldes com o reforço da Al-Shabab estão a 15 km de Beni, onde eu estou. Eles tem o objetivo de tomar Mutembo e Beni (duas cidades imporantes do Kivu do Norte)”, informou o diretor do CRC.  

O M23 é formado basicamente por soldados da etnia tutsi que desertaram do exérctio congolês em abril de 2012, forçando 800 mil pessoas a deixarem as suas casas. A RDC é considerada instável desde a sua independência, em 1960, entretanto, a partir de 1994, após o genocídio na vizinha Ruanda, o cenário de conflito se tornou mais complexo.

Milhares de pessoas do grupo étnico hutu, envolvidos no massacre da etnia tutsi, cruzaram a fronteira e se aliaram às forças do governo congolês. A movimentação gerou uma coalizão de forças rebeldes que destituiu o presidente Mobuto Sese Seko, colocando Laurent Desiré Kabila no poder. Outros países também se envolveram na disputa de poder congolesa, o que gerou um conflito de interesses diversos e proporções regionais.

 

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