O novo Afeganistão?

Querendo ou não o foco da segurança internacional está nos possíveis fiascos nos Jogos Olímpicos de Londres, na bagunça de Hillary Clinton e Bashar Al Assad e no Sahel, a faixa de transição climática que liga a África Ocidental ao Chifre da África. A fragmentação do Mali poderia ser um pouco mais comentada no noticiário internacional pela importância global que a região ganhou em função da presença consolidada da Al Qaeda.

Desde janeiro, a rede extremista exerce autoridade no norte do Mali, controlando a região sem qualquer ameaça. Ou seja, aquele temor do “Estado terrorista” na África Ocidental, assim como no Chifre da África, nunca foi tão acentuado. É claro que atribuir o conceito de “Estado” para o raquítico território proclamado independente pelos tuaregues é uma demasia.

Qualquer esforço para resolver a crise no Mali deve se concentrar no restabelecimento da autoridade central do país. A estratégia lógica foi publicada pelo grupo de analistas internacionais que lida com a crise no Mali em relatório divulgado nesta quarta-feira (19.07). Os especialistas de Bruxelas enfatizam a idéia de que a reconstituição das instituições do Estado deve ocorrer antes mesmo da retomada das regiões desérticas do norte.

Intervenção militar

O relatório alerta que as potências ocidentais devem resistir à pressão por uma operação militar no norte do país e, em um primeiro movimento, negociar com os extremistas – o que certamente não vai dar certo porque são grupos islâmicos “linha dura”, pouco afáveis ao Ocidente.

Apresentamos na DW, nesta quarta-feira, o depoimento do porta-voz do Ansar Dine, Oumar Ould Hamaha. O grupo controla parte do território do norte do país e impôs a Sharia (leis baseadas em preceitos islâmicos) à população. Ele salientou que o grupo não quer implementar a lei islâmica somente naquele território. “Deve valer para todo o país, toda África. Do nascer do sol ao pôr do sol. Todos deveriam viver e conviver como bons muçulmanos e morrer como mártires”, diz Hamaha, acrescentando que o grupo pretende “instruir” às pessoas sobre o modo de viver.

Não faço juízo de valor quanto a Sharia. Não compactuo com o medo ocidental sobre a questão. Olhos um pouco mais atentos percebem que um dos grandes debates da chamada “Primavera Árabe” é justamente como conciliar valores que o Ocidente consolidou como democráticos com  tais preceitos islâmicos. O que sair dessa discussão decerto será novo e quebrará paradigmas.

Cães de guerra

Outra questão pendente aqui é como controlar os “cães de guerra”. A situação no norte do Mali, assim como no Afeganistão, envolve não somente grupos considerados terroristas pelo Ocidente, mas também divergências étnicas e diversidade tribal. Somente esta característica já faz da região um barril de pólvora. Além disso, a França, um dos atores internacionais mais interessados na região, muito mais por sua sanha colonialista do que por “valores democráticos”, já disse que uma intervenção militar no Mali é “provável”.

O vizinho Níger tem liderado apelos no âmbito do continente africano para uma ação rápida a fim de prevenir que grupos extremistas consolidem suas posições na faixa do Sahel, assim como o Taliban fez no Afeganistão. A Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (CEDEAO) já mobilizou um contingente militar de 3 mil soldados para eventual intervenção.

O relatório do Think Tank baseado em Bruxelas toca em uma questão que se faz crucial. O texto lembra que o Estado já era bastante frágil no norte do Mali, enfronhado em uma rede de apadrinhamento político no estilo apontado no relatório como “mafioso”, baseado muito mais na pura lealdade com elites regionais do que em “valores democráticos”.

Diante deste belo exemplo dado pela “democracia de fachada” do Mali, o que se pode esperar? De que lado a população vai ficar? O que é mais doloroso para uma comunidade muçulmana, viver sob as regras da Sharia ou na crueldade cínica de uma democracia fajuta?

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