Novelinha de mau gosto

Estava na redação brasileira da DW, neste final de semana, com a competente colega Francis França, acompanhando o resultado da reunião do chamado Grupo de Ação sobre o conflito na Síria, formado pelos países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e alguns países árabes. O encontro foi em Genebra no sábado (30.06). Depois da reunião, Francis chamava a atenção para a aparente falta de vontade dos atores internacionais para resolverem o problema.

As agências reproduziam a declaração de Kofi Annan e os esclarecimentos de sua equipe, mantendo tons positivos no final de um encontro de resultado oco. Após o apelo de Annan, no estilo de um pai que entoa lição de moral a um grupo de meninos birrentos, Rússia, Estados Unidos e Reino Unido concordaram com a formação de um governo de transição na Síria, que contaria tanto com oposicionistas e integrantes do atual regime.

Continua, no entanto, a discordância sobre a presença de Bashar Al-Assad em um eventual governo partilhado. Em outras palavras, tudo está como na semana passada. O avanço foi mínimo. Só não foi nulo porque, afinal de contas, diplomatas russos foram ao encontro depois de ameaçarem boicotá-lo, causando frisson na equipe de Annan.

Pedra cantada

No domingo, a decepção era evidente, tanto pelo lado do regime quanto da oposição. Todos esperavam a saída da inércia porque, afinal de contas, trata-se do “Grupo de Ação”. O jornal governista Al-Baath estampava na primeira página da edição de domingo o título “Fracasso”.

A manchete revela mais do que frustração, mas também o potencial para que a partilha de poder realmente aconteça, bastando apenas elaborar um processo claro e racional para isto, coisa que os atores e mediadores internacionais ainda não conseguiram.

O Ocidente tem influência zero no governo sírio. A partilha, mesmo com a permanência de Assad no corpo do governo, abriria um canal pró-Ocidente. A trajetória da técnica da “partilha de poder” para resolução de conflito mostra que o incubente teme o isolamento externo completo. Enquanto tiver apoio externo incondicional, vai haver resisitência à partilha de poder. Logo, o Irã é peça-chave para Assad cerder. Se os aiatolás apoiarem a partilha, ela acontecerá. O problema é que o Ocidente não aceita a participação do Irã na discussão e isso embarga qualquer avanço no processo.

O Ocidente teima na ausência de Bashar Al-Assad em um eventual governo partilhado e do Irã em qualquer negociação em âmbito internacional envolvendo o conflito sírio. Levando-se em consideração que Assad é o presidente e que o Irã é seu principal aliado incondicional em âmbito internacional, que espécie de partilha eles querem discutir, restringindo atores diretamente interessados?

Uma anedota triste

A oposição síria se deu conta, neste final de semana, por exemplo, que o cessar-fogo não funcionou pela falta de cronograma claro para a sua execução. A hipótese de tal ausência havia sido levantada no artigo “Vão mostrar os dentes” deste blog, onde eu não queria crer que esta havia sido a suposta falha do “Plano de Seis Pontos”.

Diante do vexame deste fim de semana, os oposicionistas têm todo o direito de duvidar de qualquer novo plano apresentado por Annan. Afinal, nada parece sério e a birra dos terceiros robustos colabora para o ceticismo.

Querem partilhar deixando somente a oposição no poder, excluindo atores não-alinhados às potencias ocidentais? Quem seria tão inocente em pensar que um plano destes pode dar certo? Nem mesmo Kofi Annan, que encabeçou um plano de cessar-fogo sem cronograma definido, poderia abraçar esta causa sem sentido.

Digo isto com todo o respeito que Annan, este extraordinário diplomata de riquíssimo legado, merece. Um homem que está arriscando sua reputação neste episódio com a gigantesca generosidade de quem nem pensa nisto.

O que assusta é que estes homens comandam a política internacional. Estes homens, que parecem protagonistas de novelas como Carrossel, Chispita e outras pérolas do gênero, são responsáveis por negociar o fim de um conflito que parece cada vez mais sem solução.  São estes episódios que fazem com que a política internacional pareça, por vezes, nada além de uma piada pronta e triste.

Abaixo, imagens de Homs no dia 1 de julho.

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