Nenterlix

A minha avó paterna foi a melhor pessoa que conheci na minha vida. Faleceu em Aracaju, na última quarta-feira (13.06), aos 98 anos, quase atingindo o recorde de longevidade de seu pai, Gervásio, outro sujeito bastante diferente, que merece longas linhas para ser comentado.

O fato é que, como toda a perda de um ente amado, a morte da vó Nely causou comoção extraordinária na família Pessoa e entre nossos amigos. Alguém pode perguntar o por quê de tamanha comoção, uma vez que se tratava de uma senhora com quase 100 anos. Para os que não a conheceram, fica difícil compreender o que esta mulher foi em vida. Não somente o maior exemplo de bondade, mas de inteligência e humildade que tenho é minha avó.

Uma pessoa que cativava os jovens não somente pela sua eterna juventude, mas pelas suas performances musicais e histórias hilárias. Até mesmo pessoas não tão próximas, mas que sabiam da boa fama de Nely, aproveitavam uma visitinha à casa das minhas tias para saber mais sobre as histórias fascinantes que a região sergipana de Estância pode brindar.

Estância, que teria insiprado Jorge Amado em algumas de suas mais conhecidas produções, foi cenário de vida de Dona Nely – que, se não escreveu, propagou muitos ‘causos’ oralmente. De forma rara, da sua forma.

A cada história ou manifestação musical, uma nova performance única da minha vó estaria por vir. O texto redundante não interessava. O riso final era viciante e apaixonante. O genuíno da ironia marcava a sua visão única de um mundo, por vezes, bastante cru, perverso e sério. Ela era capaz de perceber o cômico no bizarro.

Era uma criança, Dona Nely. Era o amor em pessoa. Um presente para os Pessoa e suas gerações futuras. Um rastro de alegria, humor, juventude e sagacidade que jamais vai se apagar. Será levado pelos próximos homens e mulheres que terão o seu nome. Ela é um orgulho, uma irmã de tantos – graças a Gervásio, a mãe de alguns privilegiados. Uma avó, uma “bisa”, um anjo que voltou para o céu.

Para meus irmãos, meus primos, esta senhora maravilhosa, já com idade avançada, ensinou um idioma especial. Algo que, de forma semelhante, para minha surpresa, há pouco tempo, chegou à imprensa.

Não sabia que outras pessoas dominavam a “língua”. Até gostaria de  saber se a fonte era a mesma. No primeiro momento que vi o “derivado” na mídia, não liguei tanta importância. Afinal, já conhecia o tal “idioma secreto” de sua “fonte mais inspirada”.

O macete da língua dos Pessoa é algo como mexer com as vogais e tentar se divertir. O “A” tem som de “ÃES”, o “E” é “ENTER”, o “I” é “IX”, o “O” é “OMBER” e o “U” é “UFUX”. Bricávamos a tarde toda falando frases no “idioma da vovó Nely”.  Eis, portanto, o último parágrafo deste texto, na tal língua. Perdõem eventuais “sotaques” causados pela mancha da distância e do tempo….

“Vombervober qufuxenterrixdães, jaesmãesixs tenter entersqufuxentercenterrentermombers. Ufuxm benterixjomber cãesrixnhombersomber. Énters enter sentermprenter senterrãess ufuxm enterxentermplomber mãesrãesvixlhombersomber pãesraes tomberdombers qufuxenter tenter combernhentercenterrãesm enter pãesrães ombers qufuxenter vixrãesomber pãesrães combernhentercenterr ãess tufuxãess hixstomberixãess.”

Domber tenterufux nentertomber.

Mãesrcixomber.

Ok, a tradução para os “não-Pessoa”

Vovó querida, jamais te esqueceremos. Um beijo carinhoso. És e sempre serás um exemplo maravilhoso para todos aqueles que te conheceram e para os que virão para conhecer as tuas histórias.

Do teu neto.

Marcio

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8 Respostas para “Nenterlix

  1. fernando horta

    meu caro, meu pêsames … tudo o que podemos fazer é agradecer às pessoas que estiveram conosco no nosso tempo. Um grande abraço, CB

  2. Muito obrigado, amigo. Forte abraço

  3. Oi, querido. Foi demais suas palavras, seu amor, seu carinho pela nossa querida Nely. Adorei a postagem sobre a linguagem dela. Cê é demais. Beijo grande.

  4. Sim. Eu nunca tinha visto nada escrito, apenas escutado ela usar a “língua”. Alguma hora a gente teria que registrar de alguma forma. Vi uma reportagem, não recordo se era de um veículo de comunicação nordestino, sobre um homem que fazia uma brincadeira semelhante. Mas, com certeza não era a mesma cosia. É uma das tantas lembranças boas que temos de nossa vó. Grande beijo.

  5. Sávio Pessôa

    Ler o texto dá uma saudade… Um sentimento dúbio que faz a gente ficar triste por não ter mais como vê-la, mas também um certo contentamento por poder tê-la conhecido e participado de momentos semelhantes, rido com ela, ter podido admirá-la por tudo que ela tinha de bom… Era uma pessoa especial.
    Valeu, Márcio!

  6. que bonito!!!! Beijo grande

  7. Querido, primo.
    Com certeza esta dubiedade é compartilhada por todos. Cabe a nós fazermos estas coisas boas que vivemos terem mais sentido ainda, mantendo vivo este sentimento bom que ela nos deixou. Não nos damos conta, mas, de certa forma, ela nos ajudou a permanecermos unidos. Quando eu tiver meus netos, certamente vou querer ser um pouco Nely. É o que penso.
    Um abraço fraterno.

  8. Obrigado, Debbie.

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