Vamos protestar! Que caia o presidente!

O golpe militar no Mali é um episódio que deixa clara a dimensão e a fragilidade da democracia no continente africano. Insatisfeitos com os meios disponíveis para o trabalho e com a gestão do conflito com a guerrilha separatista da etnia tuaregue, o exército do Mali não somente protestou, mas derrubou o presidente Amadou Toumani Toure.

Em uma primeira análise, o grupo comandado pelo capitão Amadou Sanogo exagerou. De fato, gritou alto demais diante de sua própria impotência, uma força armada que acumula derrotas para os rebeldes no norte do país. Sanogo observa de perto os tuaregues ganharem o reforço dos ex-combatentes da mesma etnia que lutaram junto às tropas leais a Muammar Kadafi na Líbia.

Após o assassinato do ditador líbio, reforço de material bélico e humano faz com que a guerrilha avance. O movimento quer aplicar a lei islâmica através da luta armada e já reivindicou o controle das localidades de Aguelhok, Tessalit e Tinezawaten, no Nordeste. A queda da segunda cidade mais importante do país, Kidar, é questão de tempo. Por isso Sanogo não esperou as eleições marcadas para o dia 29 de abril. Derrubou Toure e quis começar a negociar o conflito pessoalmente.

Senil?

Para diminuir a pressão internacional, a elite contrária a Toure e militares mais esclarecidos oferecem garantias de que novas eleições serão realizadas, embora ainda não definam data. Como um paliativo raquítico, dizem que nenhum militar será candidato, oferecem uma ata legal para substituir a constituição e libertam alguns líderes políticos. Em outras palavras, o movimento militar dá sinais de pouca inteligência e o grito da caserna parece perder força.

Mas os últimos dias foram marcados por gritarias diversas na África Ocidental. A agitação pré-eleitoral no Senegal e pós-eleitoral na Guiné-Bissau foi provocada por atores políticos confusos. No Senegal, trata-se de um caso de senilidade plena de uma das figuras mais importantes da democratização africana, Abdoulaye Wade, de 85 anos.

Durante as primeiras semanas do ano, um dos principais personagens da resistência ao sistema de partido único no Senegal quase mancha a sua imagem brilhante no cenário político regional. Wade fez o que é de praxe em algumas regiões africanas, interpretando a legislação do seu jeito, lançando a sua candidatura para um terceiro mandato quando a constituição prevê apenas dois.

Democracia esfacelada

O líder alegava que foi eleito pela primeira vez em 2000, antes de a constituição entrar em vigor. A oposição foi às ruas, conflitos com a polícia e mortes foram registrados e um exemplo de democracia relativamente estável na África quase degringola. Horas após fecharem as urnas do segundo turno das presidenciais senegalesas, no domingo (25/03), o reconhecimento da derrota por parte do presidente cessante provocou alívio geral. Ou seja, Wade caiu em si.

Tudo indica que ele não calculou bem o prejuízo de sua candidatura para a democracia na região e o quanto esta derrota vai acabar, casualmente, beneficiando a sua memória na história do Senegal no futuro. Macky Sall, que já esteve no time de Wade, será o novo presidente. Mais do mesmo? Talvez. Ele está com o apoio de setores importantes da sociedade civil, tem a maioria da população, mas não é o preferido dos setores da elite religiosa do país, fundamental para a estabilidade do Senegal. Carrega muita esperança, isto é temerário porque seu poder pode ser limitado, dando chance à frustração.

O ciclo eleitoral da Guiné-Bissau

Mais uma vez os passos peculiares de uma eleição na Guiné-Bissau se repetiram. Após o primeiro turno realizado no dia 18 de março, o que se espera agora é caos e PAIGC no governo. A lógica se repete desde a independência (reconhecida em 1974). Há um ciclo definido: tudo ocorre muito bem até o fechamento das urnas. Depois, pipocam alegações de fraude sem fundamento e emerge tensão nas forças de segurança. Logo após, um assassinato surge como a “cereja” no bolo eleitoral.

Dessa vez, mais uma queima de arquivo. E que arquivo! O chefe de informações militares, Samba Djaló, foi assassinado no meio do pingue-pongue mafioso da “política armada” do país. Para terminar, Kumba-Yalá, o eterno candidato, não quer participar do Segundo Turno alegando fraude. Ele tem este direito, é claro, mas seria bastante produtivo concorrer e gritar depois. A maior contribuição de Kumba-Yalá seria não brindar o seu povo com um processo eleitoral sem conclusão. É mais um capítulo da democracia na África Ocidental que costuma ficar assim, pela metade, com presidentes quase eleitos cumprindo mandatos.

Abaixo vídeo da PressTVGlobalNews sobre o golpe no Mali, um dos países que ostetavam alguma estabilidade democrática na África Ocidental. No trecho do discurso do capitão Sanogo, na ocasião do golpe, ele afirma o interesse de “restaurar a democracia e o Estado”.

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