Cínico e maneiro

Um dia depois da eleição da presidente Dilma Rousseff, apresentei um trabalho em um encontro com o tema “Globalização das Elites” na Universidade de Osnabrueck e expus algumas idéias bastante céticas quanto à política externa do Governo Lula e a oportunidade que a presidente Dilma teria para reparar alguns erros.

Argumentava que Lula tivera méritos ao posicionar o Brasil de forma respeitável nas questões de âmbito global, mas falhara regionalmente e no relacionamento com a África.

Quase que em contraponto a minha opinião, colegas africanos levantaram-se a favor de Lula, argumentando que suas políticas sociais eram um exemplo para o continente e que finalmente ele instalara o diálogo com os países africanos. Concordo.

Lula ampliou a presença diplomática brasileira na região, atualmente o país tem embaixadas em 34 nações africanas.

A manobra estratégica permitiu ao Brasil aumentar o comércio com a África, a influência na região e facilitar a entrada de empresas brasileiras no continente, entre elas a Petrobras, a Vale e a Odebrecht.

O comércio entre Brasil e os países africanos pulou de cerca de US$ 5 bilhões em 2003, quando Lula assumiu o governo, para mais de US$ 29 bilhões em 2010. A África é a quarta maior parceira comercial do Brasil.

Visando ao entendimento da minha argumentação disse para alguns dos colegas africanos pró-Lula o seguinte: a emergência brasileira na África não está sendo compatível com a urgência do povo africano.

Ou seja, a política externa da potência emergente Brasil para a África reproduz os erros das intervenções econômicas europeias e norte-americanas no continente. Mira-se a aliança com elites para tirar proveito puramente financeiro, quase que meramente exploratório, neocolonialista.

Vira-se as costas para o que estes governantes têm feito com seus povos e se tira do Brasil o direito de se opor às políticas equivocadas de outros países em relação à África. É lógico que o Brasil vai ser cobrado por isso no futuro.

Sangue africano nas veias ou na palma da mão?

Grupos de capital gigantesco, como Odebrecht e Vale, revoltam setores da sociedade civil angolana e moçambicana por estabelecerem parcerias com empresas locais de práticas polêmicas, muitas das quais vinculadas a famílias e asseclas de governantes.

Jornalistas e intelectuais angolanos, por exemplo, acusam o presidente José Eduardo dos Santos de participar dos lucros dos negócios da Odebrecht através de laranjas, citando o Projeto Muanga, destinado à exploração de diamantes no país.

Com o presidente como “acionista”, críticos dizem que o caminho estaria aberto para negócios expressivos da multinacional brasileira na região.

A Odebrecht opera por meio de joint ventures com a companhia de diamantes do governo, a Endiama. A estatal angolana é acusada de, juntamente com duas outras operadoras locais, torturar e assassinar garimpeiros na região das Lundas, nordeste de Angola.

A exploração de diamantes colocou o país na mira do Processo de Kimberley, aquele dos “Diamantes de Sangue”. As testemunhas sobre os casos de violações de direitos humanos começaram a ser ouvidas pela justiça angolana nesta semana, em Luanda.

A Odebrecht não é citada nas denúncias, que pesam principalmente sobre autoridades militares colocadas como cabeças de empresas estatais. Porém, diante do que está em torno da exploração de diamantes em Angola e das acusações de ter pessoas ligadas ao presidente como “acionistas”, a Odebrecht deveria se pronunciar. Uma nota na imprensa brasileira e angolana para esclarecer os fatos não seria nada mal.

Para se perceber a dimensão dos crimes que giram em torno deste setor em Angola, um dos principais ativistas dos direitos humanos do país, Rafael Marques, denuncia em seu livro “Diamantes de Sangue – corrupção e tortura em Angola” que no dia 5 de Dezembro de 2009, por exemplo, uma patrulha de soldados das Forças Armadas Angolanas (FAA) teria enterrado “45 garimpeiros vivos” após ameaçá-los caso não deixassem o garimpo.

Ele revela que os garimpeiros são obrigados a pagar para trabalhar. Levanta o caso de Kito Eduardo António, assassinado aos 33 anos de idade a golpes de facão por seguranças de uma mineradora. O homem se recusara a pagar a entrada para o trabalho no garimpo. “O Kito não tinha dinheiro. Pediu para lavar o cascalho e pagar depois. Por isso mataram o miúdo”, disse a mãe do garimpeiro ouvida por Marques.

O consórcio “torra-filme”

Em conversa com a jornalista moçambicana Nádia Issufo, analista de temas africanos no seu blog “Acalmar as Almas”, a colega da DW me alertou para o que acontece na província de Tete, região central de Moçambique, aonde dezenas de brasileiros migraram para colaborar com a exploração de uma das maiores jazidas de carvão do mundo.

Ela criticava o “Projeto Carvão Moatize”, da mineradora Vale em convênio com a Oderbrecht e a Camargo Correia. Trata-se de uma das meninas dos olhos do governo Armando Gebuza, que facilitou de todas as formas possíveis o mega-empreendimento brasileiro. Claro, porque o negócio iria desenvolver a região, suponho.

Quando estive em Tete, no final de 2010, constatei euforia porque a Vale havia prometido contrapartidas sociais e infraestrutura para a população deslocada em função do projeto, aproximadamente 750 famílias. Os planos eram lindos, dariam orgulho ao brasileiro Instituto Ethos, podendo ser indicado pela instituição a um Prêmio de Responsabilidade Social.

Passado um ano, o resultado é catastrófico.

Pouco da promessa foi cumprida. O que a Vale chegou a dar em contrapartida foi condenado pela população local, que reclama da falta de qualidade das residências, do fornecimento de luz e de água, além de outras mentiras da companhia. O descontentamento é tanto, que o tom das críticas carregam uma amargura quase xenófoba.

Como moçambicana, Nádia, que é minha colega, sabe onde eu trabalho, quase pulava no meu pescoço enquanto me contava a história. Eu era o brasileiro da vez e me esquivava. “Logo eu, que não tenho nada a ver com a Vale!”, reclamei. Imagina quem tem a ver com o consórcio “queima-filme”, como caminha tranquilamente pelas ruas de Tete?

Onde está o dedo do Lula?

Aí, algum leitor deste blog vai falar o seguinte: “ok, Pessôa. Tudo isso é muito feio. O que tu escreves procede, mas o que o governo brasileiro tem a ver com isto?” Eu respondo: o nosso antigo presidente me autoriza a cobrar do governo.

A administração Lula teve o mérito de abrir finalmente um canal importante com os países africanos, mas acumula o demérito de facilitar a entrada dessas e de outras empresas brasileiras no território africano fazendo vistas grossas a qualquer tipo de crime cometido por seus governos e ao risco dos negócios para a “Marca Brasil”.

Não se pode culpar Lula por agir como vários outros estadistas e autoridades do planeta, que vão para outros países usar o seu prestígio para vender empresas privadas. Porém, em se tratando de África, um continente rico, onde milhões vivem em exploração humana perversa, o mínimo de cuidado é necessário.

Parecendo mal assessorado, Lula participou de jantares patrocinados pela Odebrecht em Luanda, emprestou sua imagem em encontros entre empresários moçambicanos e brasileiros em Maputo e conseguiu a façanha de vender a tecnologia ferroviária brasileira para o Quênia como se o Brasil fosse de ponta no setor e tivesse uma malha ferroviária respeitável!

Lula fez o desserviço de vincular o Estado brasileiro não somente a estas empresas, mas a várias outras, vendendo-as como um executivo de luxo para governantes africanos patrimonialistas, clientelistas e “ávidos por oportunidades de negócios”.

Aqui não questiono nem a privatização da figura pública do presidente, o que já é bastante discutível, mas pergunto: quando é que o Estado brasileiro, como facilitador de negócios privados, vai cobrar destas empresas os prejuízos da “Marca Brasil”? Com a palavra, a presidente Dilma.

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7 Respostas para “Cínico e maneiro

  1. Excelente e certeira análise.

  2. Helena, a partir daí vem um grande debate. Não escrevi, mas creio que até mesmo o vitorioso movimento negro brasileiro deveria se envolver nesta discussão, ou ao menos fomentá-la. Afinal, as velhas alianças que moveram milhares de escravos para o Brasil há alguns séculos se reproduzem em uma nova versão, causando benefício para uma elite africana e brasileira, exploração e violação de direitos. O Brasil perde uma excelente oportunidade para iniciar um novo modelo de relacionamento. Porém, carece de experiência, conhecimento de causa, criatividade política e sobriedade no exercício da acumulação de capitais. Segue maus exemplos históricos e “se queima”, como dizemos no nosso país.

  3. Tenho várias interrogações sobre essa relação e sabes muito bem… e no final a minha questão sobre se o Brasil será o Portugal de há alguns séculos, está de alguma forma presente aqui… o que mais me preocupa é que muitos africanos olham para o Brasil como um “parente” mesmo, mas não percebo o mesmo do outro lado… A questão línguistica e cultural que supostamente seria o factor de aproximação, e levado muito a sério pelos africanos, é provavelmente o que mais os distancia(rá) Não é ridiculo?

  4. A aproximação entre os Estados brasileiro e lusófonos da SADC com o intuito de falar seriamente em desenvolvimento econômico e social é relativamente recente e meritória – uma quebra de paradigma. Isto tende a avançar porque as economias principalmente de Brasil e Angola crescem rápido e acima da média. Parece-me que ainda falta informação, pesquisa e debate dentro da sociedade brasileira sobre esta relação para que antigos erros não sejam cometidos. Se você observar a festa que a imprensa brasileira faz a cada negócio fechado pelas multinacionais do país em África, conseguirá entender como esta relação está sendo encarada de forma superfiicial pela opinião pública brasileira. Este “boom” econômico de ambos os lados está enchendo os olhos da elite brasileira, que carrega o capital político de estar assentada em um país de forte ascendência africana (a segunda maior população negra do mundo, perdendo apenas para a Nigéria). Porém, Nádia, não podemos esquecer que esta elite brasileira é branca. Esta elite não pensa nos antepassados africanos porque, além de querer puramente lucro, este passado não a pertence. Quem tem que se levantar contra eventuais abusos é o movimento negro inserido na sociedade civil brasileira e o cidadão que se identifica com a justiça social. Estes estão em silêncio e precisam urgentemente pressionar o Estado brasileiro por uma postura menos negligente. O Brasil ganhou expressão global e o movimento negro brasileiro é obrigado a se reconhecer como um ator importante de uma sociedade civil globalizada. Quanto a questão linguística, creio que ela não foi, não é e não será um problema. Os produtos da indústria cultural brasileira são bem aceitos no continente africano e isto é um sinal de que as mensagens chegam com sucesso. Com a globalização, acho que isto tende a acentuar alguma resistência de lado a lado, mas, ao mesmo tempo, pode facilitar o diálogo e o entendimento das diferenças.

  5. “Os produtos da indústria cultural brasileira são bem aceitos no continente africano e isto é um sinal de que as mensagens chegam com sucesso.” querias realmente escrever isto? E onde está a outra parte da estrada da tal cooperação?
    E sugiro-te a ver a questão linguística de outra forma, não te esqueças que os PALOPs não estão a ver com bons olhos “imposição” de Acordo Ortográfico, que supostamente favorece o Brasil. Barbáro é ver editoras brasileiras traduzirem livros escritos em Português de Portugal (que ainda é o padrão nos PALOPs) para o Português do Brasil e em simultaneo usarem as origens comuns para se aproximarem de África. É o início da resistência. Como te digo sempre: língua é poder. O Brasil é a potência na “lusofinia” e consequentemente corre o risco de ser rotulado em breve como neo-colonialista (com e sem motivos) e ponto final. E alguns indícios tu conheces muito bem…
    E coloco-te uma pergunta Márcio, porque atribuis a responsabilidade de pressionar o governo brasileiro só aos movimentos negros? A cultura dos brancos brasileiros de hoje não tem raiz fortemente africana? É só uma provocação. Entendo a relevância do movimento, acredita. Mas porque não pensar na pressão como um todo? O brasil é multicultaral, mas ainda é um só, não? Pelo menos apresenta-se assim para o exterior…
    Arrisco-me a dizer: África conhece o Brasil, mas não sei se o contrário acontece.
    Mas apaludo a aproximação e faço votos que ela seja frutuosa, em igual medida, para as duas partes. Também resta ver agora como os governantes africanos vão gerir a relação…

  6. Obrigado por me dar chance de falar sobre isso, Nádia. Esta discussão vale outro tópico no blog. Ao meu ver, as variações do português não são culpa desta geração de “lusófonos”. Eu coloco na conta das dezenas de anos de rivalidade entre Portugal e Brasil, que tiveram administrações fechadas, distantes e nacionalistas o suficiente para jamais chegarem a um acordo sobre isso antes, criando um monstrinho. Não sei se este fenômeno pode ser comparado com o que aconteceu entre EUA, Reino Unido e países africanos anglófonos. Gosto do jeito espanhol de lidar com as diferenças. Aparentemente, na maior parte da América e na Espanha, as diferenças não me parecem obstáculos tão complicados para a construção de vias de mão dupla para a produção cultural de parte a parte.

    Os PALOP, assim como o Brasil, usam o português, mas contribuem para esta diversidade com os seus temperos locais, o que acho bem interessante. Eu entendo o Acordo Ortográfico como um esforço de aproximação necessário no âmbito da indústria cultural dos países lusófonos porque, tu tens razão, o nosso caso é realmente sério, o fluxo é bem unilateral. Não sei se o acordo é mais brasileiro, africano ou português, isto tem de ser discutido de forma construtiva. Entretanto, sua contribuição para a aceitação da indústria cultural portuguesa e africana lusófona no Brasil é indiscutível e decisiva. Como disse, há de se lidar com isso de forma construtiva e pragmática. Embora, creio eu, algumas manifestações artísticas africanas contemporâneas, principalmente angolanas, têm um intercâmbio bastante intenso principalmente com o nordeste do Brasil, mas é uma impressão. Tenho pouco de concreto.

    Também acho que colocar o termo “resistência” não é o mais apropriado. Vejo esta dificuldade, que tu apontas muito bem, como culpa de metamorfoses idiomáticas locais que fugiram completamente do controle e, caso seja de interesse, devem ser enfrentadas para que entendamos pelo menos as nossas diferenças. Queiramos ou não, o mercado brasileiro é bastante atraente para qualquer indústria cultural do planeta e talvez isto esteja pesando bastante na alegada “tendência brasileira” do acordo. Não digo que seja justo, mas é a impressão que tenho.

    Quanto a tua segunda questão, creio, sim, que o Brasil é, na sua formação, um país de diversidade étnica rara (bem esmiuçada em “Casa Grande e Senzala” e “O Povo Brasileiro”). Entretanto os acessos do brasileiro ao que o Brasil tem de bom ainda não é multiétnico. O Brasil é dominado por uma elite intelectual e econômica de origem europeia, branca e preconceituosa. Claro que há enclaves negros e mestiços nestes segmentos, mas as classes sociais brasileiras ainda são pouco multiétnicas.

    Porém, isto tem melhorado e percebo isto na própria pele. O movimento negro brasileiro (que vou “siglar” como MNB) é um dos responsáveis por vitórias importantes nos últimos 20 anos. Ouso dizer que é responsável até mesmo pelo aumento da população negra no país porque, segundo censo do IBGE, o índice de pessoas que se declaram negras hoje é maior do que 50%, uma realidade bem diferente dos anos 90, por exemplo. Ou seja, o MNB foi forte para usar os canais que teve a fim de provocar inclusões de negros na mídia, nas universidades (questão altamente polêmica) e em outros setores, assim como para fazer alguns brasileiros não se auto-reprimirem e se assumirem como negros. Por quê? Porque é organizado e tem apelo na sociedade. Toca no coração de quem tem pele branca, mas ancestralidade negra. É o único segmento da sociedade civil brasileira que usa primordialmente o argumento da afrodescendência para as suas conquistas, expondo a exclusão social de séculos, enfrentada pelos migrantes forçados e seus descendentes no país.

    Daí a minha provocação. Se usam a afrodescendência como argumento, devem ser os primeiros a se levantar contra a participação oficial brasileira na continuação dos abusos à população africana ou de origem africana em qualquer parte do planeta, seja no Brasil ou na África. Pelo menos me parece lógico em tempos de sociedade civil global. Veja o caso das organizações alemãs que se manifestam contra a exportação da tecnologia nuclear do país. As últimas manifestações em território alemão foram contra o apoio da Alemanha às usinas nucleares brasileiras. No caso em discussão aqui, é claro que não é necessário que o MNB seja o único nesta empreitada. É claro que outros segmentos, desde organizações sindicais a associações de bairro, poderiam usar o mesmo argumento porque todo o “brasileiro tem sangue negro”. Entretando, ao meu ver, esta bandeira é obrigação do MNB, que, inclusive, tem força para gritar em âmbito global.

    Quanto ao Brasil conhecer a África, digo-te com tranquilidade. Não. O brasileiro em geral não sabe nada sobre a África. Daí talvez venham as “papagaiadas” destes primeiros anos de aproximação.

  7. Realmente o assunto tem pano para manga, podiamos discuti-lo até ao fim dos nossos dias…
    Mas quero deixar aqui uma passagem de um livro que estou a ler, é do escritor angolano José Eduardo Agualusa cujo titulo é: “As Mulheres do Meu Pai”, lançado em 2007:
    Um frio áspero e seco avança pelas ruas desertas e muito limpas. Neste ponto é suposto alguém dizer:
    -Não parece que estamos em África!
    Disse-o o presidente do Brasil, Lula da Silva, em visita à Namíbia, escandalizando muito boa gente (há quem diga que o que realmente pensou foi “Isto nem parece o Brasil”). Imagino que seja a parte mais repetida por todos os viajantes, em especial os que chegam do Norte, nos seus jipes.

    Abraco lusófono…

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