O trauma ocidental e o balaio de gatos somali

Há quem lembre do filme “Falcão Negro em Perigo” (“Black Hawk down” de Ridley Scott, 2001). A película é baseada em fatos reais e narra o desespero de soldados norte-americanos diante de uma desastrada missão para salvar companheiros que estavam em um helicóptero Black Hawk, abatido por rebeldes comandados pelo general Mohamed Farrah Aidid em Mogadíscio.

O episódio aconteceu durante a guerra civil somali, que colocou em choque os rebeldes de Aidid e as forças leais ao ditador Muhammad Siad Barre, há mais de 30 anos no poder na época. Aidid expulsou as tropas de paz da ONU e os pelotões norte-americanos, depôs Barre e, em meio às desavenças provocadas por líderes tribais e pelo radicalismo de grupos islâmicos, acabou assumindo, por tempo curto, a presidência de um país fatiado pelos senhores da guerra.

A tarefa das tropas da ONU e dos Estados Unidos era garantir ajuda humanitária à população massacrada. Ninguém tinha a pretensão de levar estabilidade para o país pela complexidade das disputas internas. Nesta ocasião, o trauma da comunidade internacional na Somália foi tão grande que a região está há 20 anos entregue à própria sorte, com auxílios modestos.

O Ocidente apóia os governos de transição, mas sempre de forma tímida. A prova é que a “transição” parece eterna e Mogadíscio segue sendo uma capital sitiada. Apenas a região próxima à sede administrativa é controlada por forças da União Africana, financiadas pela ONU. A segurança do resto da capital é influenciada pelo humor das milícias radicais islâmicas Al Shabaab (“os rapazes” ou “a juventude”, em português), integrante da rede Al-Qaeda.

A quem interessa a instabilidade

A Somália é um país de base econômica primária. A situação de instabilidade política ainda é agravada pela fome, que arrasa o Chifre da África, causando centenas de milhares de refugiados. Quem sempre se preocupou em resolver a questão foi o Quênia, por ser o principal destino desta população de fugitivos da miséria econômica e da instabilidade política.

Etiópia e Eritréia também se apresentam como partes interessadas na questão devido a sua rivalidade. Os países vizinhos, em disputas territoriais eternas, exercem influência militar na Somália, apoiando rebeldes e governo, instigando o conflito. Os dois Estados inimigos temem que a Somália penda para um dos lados. Não se fala em soberania somali na região.

Há três anos, o país foi alvo de invasões de tropas etíopes para caçar rebeldes armados pela Eritréia e, nos últimos meses, teve seqüência de invasões de tropas quenianas que buscavam guerrilheiros Al Shabaab, acusados de cometer ataques e seqüestros no Quênia. Em uma das investidas, em dezembro, a força aérea queniana aniquilou uma aldeia civil, convencida de que estava atacando radicais islâmicos.

A Cruz Vermelha gritou tão alto que deixou o Quênia de saia justa diante da comunidade internacional. A incompetência militar levou a debates fortes na região e no seio da potências ocidentais porque, aparentemente, o Quênia teria legitimidade ao responder os ataques do Al Shabaab. O problema acaba sendo a desqualificação técnica militar das intervenções quenianas.

Agora vale a pena

Diferentemente de outros tantos países africanos, a Somália é pobre em recursos naturais. Isto sempre provocou um certo desleixo internacional sobre as questões do país. Porém, depois de 20 anos, a comunidade internacional resolveu intervir novamente neste balaio de gatos. Por quê?

Dois fenômenos, que não têm relação entre si, mas são contundentes o bastante para golpear em cheio a economia e a segurança do Ocidente, provocam esta mudança de postura das potências mundiais: a pirataria na costa da Somália e a expansão da Al-Qaeda na região.

Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), os piratas não têm relação ideológica com as milícias islâmicas. O interesse do grupo é econômico, faturaram, somente no ano passado, 170 milhões de dólares em resgates de navios que seqüestraram no Golfo de Áden, no Mar Vermelho e na Costa da Somália.

Conforme relatório da fundação One Earth Future (OEF), os prejuízos da pirataria somali na economia mundial chegam a 7 bilhões de dólares. Segundo o texto, 80% das perdas são relativas a ataques contra barcos industriais e 20% se referem a operações governamentais de prevenção e combate à ação dos piratas.

Estado terrorista?

Aí está, portanto, o motivo da conferência da comunidade internacional sobre a Somália realizada em Londres na quinta-feira (23.02). O Ocidente se deu conta de que a Somália, apesar de não ter riquezas atraentes, pode dar um prejuízo e tanto, servindo ainda de berço para a Al-Qaeda na região.

Segundo Stewart Patrick em “Weak Links – Estados frágeis, ameaças globais e segurança internacional”, apesar de setores da população apoiarem as suas regras e ordens, “disputas internas e fragmentação despertam dúvidas quanto a capacidade da Al Shabaab governar”.

Este fator, aliado a discordâncias na relação com a própria Al-Qaeda e à preferência por focar mais alvos somalis do que ocidentais, afastam a possibilidade da emergência de um “Estado Terrorista” nos moldes do Afeganistão sob o controle do Talibã. O que seria mais provável é a manutenção do território Terrorista.

Quênia controlado

O primeiro-ministro britânico, James Cameron, prometeu auxílio de 80,2 milhões de dólares à Somália. A ONU deverá reabrir um escritório da AMISOM, a missão da organização para a Somália, na capital Mogadíscio, após 17 anos de ausência. As Nações Unidas vão ampliar o efetivo da AMISOM , atualmente de 12 mil soldados e policiais, para mais de 17,7 mil, conforme a resolução aprovada por unanimidade pelo Conselho de Segurança na véspera da conferência internacional.

A Comunidade Internacional, portanto, realiza uma nova investida. Nem tanto para ajudar a estabilizar o “Estado Falido”, ainda que os recursos também sejam destinados a isto, mas para garantir que os piratas somalis sejam realmente combatidos e que a Al-Qaeda perca força na região

Para quem gosta de anedotas bélicas, a ausência de soldados ocidentais na AMISOM pode parecer bastante curiosa. A missão, que contava até o momento com soldados de Uganda e Burundi, terá o reforço de efetivos do Djibuti e do Quênia, que ficarão no comando. Assim, as invasões quenianas ao território da Somália esfacelada, mas teoricamente soberana, podem ser legitimadas e, principalmente, controladas.

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