O buraco é mais embaixo

Conversei na tarde desta segunda-feira (5.9) com o secretário-geral do partido oposicionista angolano Bloco Democrático sobre a manifestação contra o eterno governo de José Eduardo dos Santos, que terminou em pancadaria na tarde de sábado em Luanda.

Filomeno Vieira Lopes disse que cerca de 50 pessoas foram presas ao longo do final de semana devido ao envolvimento com o protesto. E o pior, além de não terem garantido o direito constitucional de realizar a manifetação pacífica, na prisão estariam sendo submetidas à tortura sem poder ver advogados.

Algumas famílias sequer sabem onde seus filhos estão presos. Dos Santos distribuiu cacetadas para todos os lados no sábado, inclusive em jornalistas estrangeiros. O colega António Cascais, que foi para Luanda como jornalista independente, virou notícia em sites locais porque fora perseguido até o seu hotel, espancado e teve equipamento apreendido.

Explicando a repressão

Lopes me disse que o Bloco Democrático tenta prestar auxílio jurídico e abrir canais de negociação com a justiça angolana, mas autoridades do judiciário já lavaram as mãos e a polícia estaria trocando os presos de esquadras (unidades policiais) para confundir o atendimento jurídico.

Advogados suspeitam que a polícia estaria preparando interrogatórios “auto-incriminatórios” que possam sustentar a acusação contra os manifestantes. O protesto de sábado, organizado por estudantes universitários e jovens cidadãos, reivindicou melhores condições sociais para a população e boa governança em Angola.

Os jovens alegam que, antes da manifestação, agentes do governo teriam oferecido 270 mil dólares e oito veículos para os organizadores para que o ato fosse suspenso. Horas antes da manifestação, Pandira Neru, um dos líderes do grupo, teria sido, conforme Lopes, “sequestrado por agentes de segurança fortemente armados”. Até a noite de segunda-feira (5.9) Neru não fora localizado.

Suborno?

Permito-me discordar de quem pensa que José Eduardo dos Santos balança com esta contestação, comparando o que aconteceu com movimentos que ocorreram no mundo árabe. Não. Ele não balança, mas também não se fortalece. Assim como muitas ditaduras árabes, Angola tem sim expressiva produção de petróleo (a maior da África) e estreitas relações econômicas com o Ocidente, mas, ao contrário destes países, não tem uma sociedade civil com corpo para fazer frente à repressão com atos pacíficos.

Dos Santos é um neopatrimonialista, com negócios pessoais indiretos com grandes corporações globais, muitas das quais brasileiras. Trava a justiça social interna, mas não obstrue transações econômicas globais envolvendo o seu país. É um dos queridos do capital estrangeiro na África.

Está inserido na lógica neoliberal e não teme qualquer pressão estrangeira por democracia porque todos os países chancelam suas reeleições duvidosas. Pode ser pessimismo, mas, aos meus olhos, sem redescobrir a sua sociedade civil, Angola está condenada a aguentar o despotismo de dos Santos o tempo que ele, “Duda dos Santos”, quiser.

Abaixo vídeo que dá uma idéia do movimento que se instalou em Angola contra o governo do eterno “Duda dos Santos”.

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2 Respostas para “O buraco é mais embaixo

  1. Fique à vontade para contribuir, Bettina. Com certeza tu deves ter impressões interessantes para acrescentar a estes artigos. Saudações.

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