Bellevue e o homem cansado

Uma semana de dois socos no estômago das lideranças da CDU, o conservador partido democrata-cristão que domina a cena política alemã na atualidade. O mais recente golpe foi dado nesta segunda-feira (31.05.2010), quando a Alemanha acordou com a renúncia do presidente Horst Köhler (CDU).

A já apelidada de “chanceler das crises”, Angela Merkel (CDU), que iria usar o dia para motivar a desfalcada seleção alemã que embarca à África do Sul, teve que cancelar a agenda para iniciar a reposição de mais esta lacuna deixada pela renúncia de seu chefe. Merkel, na semana passada, lamentara a renúncia do polêmico governador do Estado de Hessen, Roland Koch (CDU).

O motivo da renúncia de Horst Köhler seria uma entrevista que concedeu para a Deutschlandfunk (Rádio Alemanha) sobre a campanha militar no Afeganistão. Suas declarações repercutiram como se o presidente tivesse dado a entender que o emprego do exército se justificava, uma vez que servia para satisfazer os interesses econômicos do país.

Quem deixa o Palácio Bellevue?

A constituição prevê 30 dias para que se eleja um sucessor para o presidente. A renúncia é inédita na história da Alemanha e pegou a todos de surpresa. Köhler é um dos políticos mais respeitados do país. Fora reeleito no ano passado. A imprensa alemã levanta que sua decisão ameaça ainda mais a coalizão de liberais e conservadores no governo.

No currículo de Köhler está a presidência do FMI e um trabalho reconhecido de fortalecimento do diálogo entre Europa e África. Talvez o lado de extrema consciência social global e sua irrefutável veia moral sejam os fatores que tanto orgulhem os alemães. Não é exagero dizer que quem desistiu da presidência neste dia 31 de maio de 2010 é um dos pilares éticos da política do país na atualidade.

O próprio Köhler tem consciência do que representa e, diante de interpretações tão fortes de sua entrevista, preferiu não discutir. “Pediu o chapéu” na elegância, mas também deixou claro que houve um mal entendido. “As críticas imputadas a mim foram longe de mais. Careceram de propósito. Elas deixaram de lado o necessário respeito ao meu cargo”, disse.

Um homem cansado

O prefeito de Bremen, presidente interino, Jens Böhrnsen, lamentou a renúncia de Köhler, salientando o respeito que ele tem na Alemanha e no exterior. Angela Merkel disse que Köhler vinha sendo um importante conselheiro durante a crise econômica e financeira. “Acho que as pessoas na Alemanha devem estar bem tristes por esta renúncia”, considerou Merkel.

O Suddeutsche Zeitung, na sua edição online, estampa o título “A fuga do Horst vontade-nula”. Na opinião do analista do jornal, Kurt Kister, o presidente jogou fora o cargo de presidente porque está injuriado. “Ninguém causou tanto dano ao cargo de presidente como Köhler nesta segunda-feira“, completa o setorista de um dos mais importantes jornais progressistas da Alemanha.

É difícil imaginar o que passou pela cabeça do presidente para se negar a enfrentar a crise que iria mantê-lo algum tempo em posição incômoda, mas que poderia ser encarada como outras tantas. Eu disse crise já querendo usar outra palavra porque questiono se tudo isso era realmente tão forte para significar uma crise e justificar uma renúncia. Pode ser que Köhler tenha simplesmente cansado. Porém, além de simplificar a sua atitude, quem lida com crítica (digo ativistas, políticos, jornalistas) pode hoje dormir também meditando um pouco sobre mais este exemplo do quão devastadora uma declaração pode ser.

O áudio da entrevista concedida à Deutschlandfunk. Pena não ter encontrado um arquivo com imagens menos panfletárias no youtube .

Abaixo a tradução da entrevista do presidente à Deutschlandfunk a partir do minuto 2’35 (fonte: Serviço Brasileiro da Deutsche Welle)

“A meu ver é de fato assim: nós lutamos lá [no Afeganistão] também pela nossa segurança na Alemanha, lutamos lá ao lado de aliados, com base num mandato das Nações Unidas. Tudo isso significa que temos responsabilidade. Acho correto que na Alemanha se discuta isso reiteradamente, também com ceticismo, com pontos de interrogação. Mas minha avaliação é que, de um modo geral, estamos no caminho de entender, também numa base ampla da sociedade, que um país da nossa dimensão, com orientação para o comércio exterior e assim sendo dependente deste comércio exterior, também precisa saber que, na dúvida, em caso de necessidade, também uma missão militar é necessária para defender nossos interesses, por exemplo para garantir vias comerciais livres, por exemplo para impedir instabilidades de regiões inteiras, as quais certamente também incidiriam negativamente nas nossas chances de comércio, empregos e renda. Tudo isso deve ser discutido e creio que estamos num caminho não de todo ruim.”

Neste vídeo da ZDF o discurso em alemão da renuncia do presidente. Ele deixa claro que as críticas foram desrespeitosas a sua função, agradece a seus eleitores, revela a quem havia comunicado a sua decisão e salienta que espera a compreensão de todos. Finalizou dizendo que foi, sim, para ele, uma honra servir a Alemanha como presidente.

Anúncios

2 Respostas para “Bellevue e o homem cansado

  1. Mário Ansaly Correia

    São coisas da politíca. Com essa crise global, tudo é possível.

  2. Marcelo Pessôa

    Cansado e sincero!
    Sim, sincero!
    Só falou a verdade. Intervenção Militar pra satisfazer os interesses econômicos de seu país.
    Isso é tão normal hoje em dia ora-bolas… acho que de tão normal virou banal.
    Ta, podemos dizer também que é um homem ético e humano!
    Pesou na consciência…ou não?

Deixe seu comentário no blog para que outros leitores conheçam a sua opinião.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s