O desserviço das milícias pessoais guineenses

Neste domingo busquei informações sobre a Guiné-Bissau em função da intervenção militar de primeiro de abril, que resultou na prisão do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Zamora Induta, e na detenção provisória do primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior (Cadogo).

Acessei uma fonte sempre disposta a avaliar a situação do país junto à mídia, porém, desta vez, ela se negou a gravar entrevista. A pessoa estava com medo e revelou que vários ativistas e jornalistas têm sido ameaçados, evitando publicar opinião.

Ou seja, como se não bastasse truculência e arbitrariedade militar, ameaças e medo generalizados dão um toque de quase ditadura a este broto de democracia guineense, que não consegue germinar devido ao eterno peso dos coturnos nas cabeças dos atores políticos do país.

Bandos

Zamora Induta está detido há quase dois meses por ordens do seu antigo número dois, o major-general António Indjai. As acusações são bastante pesadas, remetem inclusive ao desvio de dinheiro e de drogas apreendidas. O caso está com a Procuradoria Geral.

Fala-se em reforma das precárias Forças Armadas, com militares desde a década de 1960 na ativa finalmente indo para a reserva. Mas não adianta uma reforma sem formação adequada para que o militar perceba sua função em uma democracia.

Setores militares guineenses mostram ano a ano insubordinação aos seus superiores paisanos e fardados. Trata-se de uma corporação fragmentada, que acaba agindo como pequenos “bandos” comandados por oficiais descontentes (Ver artigo “Encomenda estilo Corleone”).

Ditadura esfacelada

Os militares guineenses viciaram em golpes de estado, porém não têm forças para sustentar uma ditadura nem centralização para ocupar espaço na estrutura política do país. Vivem em um limbo, desconsiderando autoridades e se aliando ao crime, perdendo portanto a legitimidade, assumindo a característica das chamadas “milícias pessoais”.

Nem mesmo aquele nacionalismo exacerbado – característico de qualquer instituição militar – é verificado nos fardados que ousam sujar suas mãos nas drogas. Hoje, prestam inclusive um desserviço ao país. São o motivo da suspensão de investimentos de mais de 4 milhões de euros da União Européia (UE) em diversos setores, inclusive segurança e defesa.

A UE condiciona o apoio à libertação de Zamora Induta, à nomeação de novas chefias militares e à apresentação à justiça dos responsáveis pela última intervenção militar. A expectativa é de que o presidente Malam Bacai Sanhá promulgue nesta semana a lei que determina reformas profundas nas Forças Armadas.

Abaixo nota coberta da Telesurtv sobre as detenções em abril.

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3 Respostas para “O desserviço das milícias pessoais guineenses

  1. Pingback: Global Voices in English » Guinea-Bissau: Political Situation still Unstable

  2. Mário Ansaly Correia

    É o que temos no País.

  3. Marcelo Pessôa

    Pra conhecimento de todos existem Cadetes Guineenses fazendo o curso de 4 anos na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).
    Com certeza esses retormarão ao seu país como Oficiais do Exército, levando um pouco de nossa cultura, honestidade e probidade, cultuados na AMAN , e exemplo da democracia brasileira!
    Serão apenas um grão de arroz no meio do carreteiro???
    Esperamos que não… Esperamos, sim, que moralizem suas Forças Armadas e contribuam para o desenvolvimento do país.

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