Dunga, convoca o Amorim

Estava fazendo a minha corridinha que pretende ser diária quando ouvi o especialista alemão em Oriente Médio, Michael Lueder, ser entrevistado pela Deutschland Funk na manhã alemã desta segunda-feira (17.05) e classificar o acordo mediado por Brasil e Turquia como uma “surpreendente ruptura na tendência dos acontecimentos, que ninguém poderia realmente calcular”.

Para Lueder, o acordo pode ser considerado “um sucesso para a diplomacia iraniana e uma enorme valorização para Brasil e Turquia” na cena global. Ele diz que Brasil e Turquia “fortaleceram de forma clara o seu status interno e sua influência na política internacional”.

O acordo determina que o Irã envie 1.200 quilos de seu urânio enriquecido a 3,5% em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% –suficiente para a produção de isótopos médicos em seus reatores e muito abaixo dos 90% necessários para uma bomba. A troca aconteceria na Turquia e seria supervisionada pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e vigilância iraniana e turca. Mesmo sem uma linha sobre uma nova disposição de colaboração do Irã com a AIEA, valorizo o acordo nuclear mediado por Turquia e Brasil principalmente por três aspectos.

Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, driblou o ocidente ao aceitar acordo

Lula Foundation

O primeiro é o fato de líderes da república islâmica mais poderosa do planeta terem sentado à mesa de negociações com líderes do maior país católico do planeta e, incrivelmente, chegado a uma decisão construtiva. Se isso for valorizado, a manobra do governo brasileiro pode reverberar em outras tantas discussões pendentes entre ocidente e governos islâmicos.

Segundo, houve uma quebra de paradigma. Não houve o dedo dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e Alemanha neste acordo. Aliás, todos colocavam o projeto diplomático de Brasil e Turquia no descrédito, até mesmo o premiê turco Tayyp Erdogan, que surgiu ás pressas mais tarde para participar das fotos. A diplomacia brasileira não levou nada além do princípio da soberania e da multilateralidade para a negociação. Ofereceu mais um voto de confiança a um país chamado de “bandido” pela mídia ocidental pela sua completa e justificada falta de credibilidade. Por sua vez, fortalecendo o diálogo, o Irã favorece atores menos desgastados nas discussões sobre segurança internacional.

O terceiro fator é o reforço da minha tese para alguns anos. O Brasil alcançou um respeito tão expressivo na ordem mundial nos últimos oito anos que não é ruim pensar que Lula não abandonará este cenário mesmo depois de deixar a presidência. Como o ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, Lula certamente capitalizará esta “protagonização” do Brasil nas questões globais. O prestígio internacional e as habilidades políticas de Lula lhe dão a prerrogativa de continuar exercendo influência na governança global. Resta saber qual função ele vai escolher. Talvez, criar uma fundação como o próprio Carter ou Kofi Annan.

Era Lula: um dos bons momentos da diplomacia brasileira

Amorim é craque

Mesmo que o Irã invente de não cumprir o acordo – o que é bem possível uma vez que o Irã já criou conflito anteriormente com os inspetores da AIEA – parece-me que esta manobra emblemática termina um dos ciclos mais brilhantes da política externa brasileira desde Zé Maria da Silva Paranhos Júnior – o Barão do Rio Branco. Não vou entrar na análise da herança de Rio Branco, do estilo brasileiro de diplomacia, dos méritos de Osvaldo Aranha, escola francesa, etc. O importante aqui é ver que o espaço foi dado para o Brasil ter voz global e, pelo menos no governo Lula, o país se esforçou para ocupar este espaço, independente de o irmão norte-americano ajudar ou não.

Claro que fica sempre uma dúvida com relação à América Latina, cujo portunhol parece não ser suficiente para facilitar um diálogo claro, maduro e franco. Venezuela, Chile e Argentina revezaram ao longo desta década na disputa com o Brasil por alguma coisa que me esforço muito para identificar, mas até agora não consegui. Assim continuamos desunidos por nada, inclusive tendo prejuízo, haja vista o Plano Colômbia, uma manobra norte-americana que poderia ter sido evitada, uma vez que todos os sul-americanos sofrem com o narcotráfico.

Para mim, esta é a lacuna que a equipe de Celso Amorim não consegue resolver e não há mais tempo para virar o jogo. Ele ganha a Copa do Mundo, mas não ganha a Copa América. Após o acordo com Ahmadinejad, os EUA afirmam duvidar que o Irã cumpra o documento. Mais um ponto para o time de Amorim, uma vez que joga com as regras sem virar a mesa na mão grande, sem o estilo amargo da diplomacia que fracassa peremptoriamente quando o assunto é diálogo com o mundo islâmico.

Protestos contra a visita de Ahmadinejad ao Brasil

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Uma resposta para “Dunga, convoca o Amorim

  1. Marcelo Pessôa

    É! Realmente é o cara!
    Tu está notando que a Pol Ext do Brasil deixou de ser negociada? Passou a ser impositiva sem pressão! Tá baseada mais na influência. A dúvida é se essa influência cola.
    A tônica do diálogo são as reservas em dólar que temos. Isso abre portas. Outra coisa interessante de ver é a postura da China. Ela e os EUA não vão bater de frente. Tu não vai ver isso nos próximos 50 anos. pq? Pq um é dono do outro…

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