A cristaleira alemã

Comovente a manifestação da chanceler federal alemã Angela Merkel sobre a participação de Mikhail Gorbachev e Lech Wałęsa na reunificação alemã em seu discurso na comemoração dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Olhando para os dois históricos líderes, ressaltou a coragem de mudar e de contestar que influenciaram os alemães do Leste na luta pela reunifcação.

Alguém pode dizer que o discurso de Merkel foi marcado pelos clássicos chavões envolvendo a liberdade e o significado da queda do muro para os alemães mais jovens, ”que crescem sem se importar se vem do Leste ou do Oeste”, embora o preconceito sofrido principalmente pelos do Leste, os “Ossi”, é algo forte na sociedade alemã.

Angela Merkel

Merkel: não abraço a causa, mas respeito o testemunho.

Ora, mas quem estava falando ali era uma mulher que nasceu em Hamburgo, mas cresceu como “Ossi”, na Alemanha do Leste. Uma testemunha do regime da DDR. Com bastante emoção e alguma euforia, nas últimas semanas, a chanceler lembrou insistentemente da morte ou da prisão daqueles que lutaram pela reunificação. Sublinhou enfrentamentos, reuniões na igreja de São Nicolau, em Leipzig, para manifestações pacíficas no final da década de 80. Foram declarações com um tom especial porque era Merkel, era uma testemunha.

As minorias conservadoras da Alemanha

Hoje Merkel fala como uma “Ossi” no poder. A primeira mulher chanceler da Alemanha compõe o governo com um ministro do exterior homossexual (Guido Westerwelle), um ministro da saúde filho de vietnamitas (Philip Rössler) e um jovem yuppie como ministro da defesa (Karl-Theodor zu Gutenberg). Um grupo de minorias em um governo conservador. É ou não é de vanguarda o quadro que temos aqui? Vanguarda em um governo conservador… estou maluco?

Enquanto alguns jornais aproveitavam a data para pedir uma verdadeira unificação econômica das duas regiões, que ainda têm traços bastante desiguais, Merkel estava empenhada em apresentar os planos da nova coalizão para o parlamento. Naturalmente, foi curioso ver o ex-ministro do exterior, Frank-Walter Steinmeier, assumir a voz forte da oposição no Bundestag e liderar a crítica.

beijo do muro

Clássico pintado no muro: o ex-presidente da URSS Leonid Brezhnev se inclina para beijar o líder alemão Erich Honecker

Curioso nesta manifestação também foi Merkel falar em “Medidas de Aceleração do Crescimento”. Seria o PAC alemão? Não. Aqui não se fala em investimento na infra-estrutura, mas em redução de impostos e reforma no sistema de saúde. Porém, para um brasileiro desavisado, soa bastante redundante Merkel usar a retórica da “aceleração do crescimento” aqui e o presidente dos EUA, Barack Obama, usar a filosofia de universalização da saúde. Será uma espécie de SUS? Não. Nem uma coisa nem outra.

Atmosfera de comoção

Também comovente é a repercussão da morte do goleiro reserva da seleção alemã, Robert Enke, de 32 anos. Na noite de terça-feira (11.11.09), ele teria parado o carro na estrada, afastado-se 100 m do veículo, ultrapassado uma cancela de segurança e chegado aos trilhos do trem para se matar. O jogador do Hannover 96 estaria em tratamento contra depressão. A imprensa passou toda a quarta-feira destacando a trajetória do goleiro e procurando razões para a sua atitude.

A matéria do Jornal da Noite da RTL destaca a morte de Enke falando da reação imediata dos fans, da chance que ele teria de ser goleiro na próxima copa, da morte de sua filhinha que poderia ter motivado a depressão.

Para finalizar, comentava com um ar um tanto positivo os 20 anos da queda do muro com um amigo alemão, referindo-me que até mesmo crianças brasileiras estavam lembrando com alegria o marco da reunificação. Sem alteração, ele virou para mim e disse: “na verdade esta data é bastante pesada porque é a mesma data da “Noite dos Cristais”, ocorrida em 1938, quando Sinagogas e estabelecimentos identificados como pertencentes a judeus foram atacados por nazistas”.

Com a mesma tranquilidade, respondi: “por respeito à euforia de alguns alemães com a queda do muro e à tristeza da “Noite dos Cristais”, faço uma média do peso destes acontecimentos e prefiro ficar em um silêncio não-neutro. É tudo muito forte e me perco nesta confusão de sentimentos distintos que nutre este país, um lugar único e re-unificado”, ele sorriu. Eu fiquei mais aliviado.

Abaixo matéria da TV alemã no dia 10 de Novembro de 1989.

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