Talvez um cartelzinho amigo, um protecionismozinho… Afinal, eu te dou a vida!

Eu não tenho dúvidas de que o futebol brasileiro é um dos exemplos de má gestão que, ao longo dos anos, têm sido apresentados pelo nosso país ao mundo em setores que ironicamente o Brasil tem potencial de liderança. Qualquer brasileiro que conseguiu completar o ensino médio sabe que nos negamos a dar as cartas e sermos protagonistas em vários momentos de nossa história.

Temos os melhores jogadores, talvez o campeonato mais disputado do planeta, diversidades continentais valiosíssimas que influenciam na cultura das equipes, torcedores apaixonados e participativos e cidades que respiram futebol. Em resumo, somos os maiores nesta indústria milionária em quase todos os quesitos, porém falhamos ao gerenciá-la.

Ai! Cuidado, cuidado com o empresário

Ai! Cuidado, cuidado com o empresário

Quem conseguir, responda a seguinte pergunta: como um jogador é comprado por 3 milhões de euros de um clube brasileiro e revendido na Europa por atravessadores, 6 meses depois, por 20 milhões? Não vou afirmar que existe um “esquemão” que favoreça setores indiferentes à torcidas e aos clubes no Brasil, mas que esta lógica é um bocado estranha… Ah, isso é inegável.

MC´s do espetáculo

Uma das grandes falhas que o consumidor do futebol brasileiro comete é não se perguntar por que o país que mais forma talentos no planeta tem clubes tão ricos em tradição e frágeis financeiramente. É uma realidade tão difícil de engolir que é impossível não desconfiar daquela falha moral que é de praxe no Brasil e que, como o futebol, dá-nos fama internacional. Veja, não estou acusando ninguém de corrupção.

Para provar que existe corrupção na estrutura do futebol brasileiro, seria necessária uma cultura de investigação no chamado “jornalismo esportivo”, uma vez que muitas autoridades são conselheiras de clubes. O profissional de comunicação social que trabalha com esporte no Brasil, em geral, nega-se a investigar pelo medo de se indispor com dirigentes dos clubes e da empresa que trabalha.

Clubes brasileiros são jogados para escanteio na Europa

Clubes brasileiros são jogados para escanteio na Europa

Por isso, para mim, jornalismo esportivo tem um conceito próprio que se distancia um pouco da essência do jornalismo. É um “quase lá” que precisa de um pouco mais de coragem para abandonar o “doutorismo” e encarar empresários e dirigentes de frente. O jornalista esportivo é um profissional de comunicação social que poderia colaborar mais para a sua comunidade em detrimento daquele furinho esperto dado por aquela fonte de conduta duvidosa e alguns milhares de dólares no bolso.

Eu te dou a vida

Falta dinheiro para os clubes, mas há dinheiro em excesso perdido em várias mãos que movem este setor. E o torcedor nas arquibancadas repete: “eu te dou a vida, tu é a alegria do meu coração” em um mantra torpe, quase estúpido, do sujeito alheio aos bastidores da sua paixão. É o marido ou a esposa que faz vista grossa ao perfume e a maquiagem alheia perdida na blusa do seu grande amor.

Qualquer país da Europa Ocidental que tivesse o potencial brasileiro para este esporte já teria se protegido e vendido melhor o seu peixe. Aliás, eles já fazem isso com o pouco que têm. Não consigo admitir que além de sermos privados de ver os nossos craques no país por mais de uma temporada (quando chega a isso) ainda os vendemos mal.

Um chinês há pouco tempo me disse com todas as letras onde este rapaz se formou

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Muito se fala que os times preparam jogadores durante anos em suas categorias de base e os vendem por 2 milhões de euros para atravessadores descompromissados que os revendem por muito mais. Multas rescisórias têm garantido que alguns clubes consigam repor craques e ter bons resultados em certames, mas é preciso ter habilidade e projeto de gerência para tanto, coisa rara.

Em defesa do cartel

Não condeno quem defende uma reestruturação na marra, quase inspirada na lógica do cartel neste setor. Se os clubes brasileiros se organizassem, não conseguiriam evitar a evasão dos nossos talentos, mas poderiam chegar a cifras que o Porto, por exemplo, chega ao vender jogadores brasileiros para Manchester e outas equipes da Europa. Benfica e Porto hoje estão no rol dos clubes que rotulo como “atravessadores” nas vendas do Brasil para a Europa.

Estes clubes portugueses têm servido como uma espécie de incubadora para que empresários façam os jogadores brasileiros ganharem preço no mercado europeu. Neste esquema, o jogador realiza o seu sonho de atuar na Europa – onde a lógica de marketing, de capital e protecionismo faz com que campeonatos muitas vezes desinteressantes, sem emoção e sal, superem a audiência de certames tão ou mais tradicionais.

Um dos exemplos recentes da lógica moderna dos “clubes atravessadores” foi a transação envolvendo Ânderson, ex-jogador do Grêmio e agora no Manchester United. Ele foi vendido pelo clube gaúcho por 5 milhões de euros para o grupo português Gestifute, que adquiriu 70% do seu passe e o colocou no Porto. Foi vendido para o clube inglês por 25 milhões de euros em 2007.

Distorção

Ânderson valorizou 5 vezes mais por atuar em um país cujo campeonato é disputado por duas únicas equipes e o resto é coadjuvante. O ex-jogador gremista ingressou na lógica do mercado protecionista europeu. Protecionista, sim. Nenhum canal aberto europeu compra os direitos de campeonatos de outros continentes. Os europeus valorizam e investem no marketing do seu futebol, dos seus clubes, apesar de contarem com estrelas de fora da Europa.

Na ocasião da transação com o Manchester, o Porto fez questão de responder às acusações da imprensa inglesa de que não houve intermediários na negociação. Difícil acreditar, uma vez que muita gente colocou dinheiro no negócio desde o início da transação com o Grêmio. Vale lembrar que o presidente do Porto, Pinto da Costa, é bastante conhecido por acusações pesadas de corrupção no futebol. Por outro lado, também é sui generis na habilidade de se defender.

Maracanã: o templo do futebol mundial não impressionaria... claro que não.

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Grupos de investidores, empresários de outros setores em Portugal, nomeadamente construção civil, descobriram o “excelente negócio” de atravessar transações futebolísticas. Pega-se a matéria-prima brasileira, dá-se um banho de marketing em território lusitano e se ganha o triplo da quantia investida com os compradores da Inglaterra, Espanha e Itália.

Todo mundo acaba feliz

Brasileiros de infância humilde chegam como salvadores em clubes europeus. São super-heróis e cidadãos públicos privilegiados. Pessoas, cujos familiares integraram a massa dos “brasileiros esquecidos”, adquirem prestígio, dinheiro e influência no planeta. Por vezes, são os donos da bola em seus times. Ficam embasbacados com os ares do chamado Primeiro Mundo, a fama na Europa, as festas e o trabalho até os 30.

Em cada elo dessa corrente, ganha-se. E muito. Só os clubes brasileiros e suas torcidas perdem. Eu não quero fechar mais o foco nas estruturas diretivas dos clubes porque aí poderíamos ver muita gente com a mãozinha molhada e seria necessária boa investigação (item básico do jornalismo que, como disse, ainda espero da chamada “crônica esportiva”).

E os empresários ou representantes? Ah, esses aí ficam alucinados. Uma coisa é você ganhar uma comissãozinha em uma transação de 100 mil reais, como qualquer corretor de imóveis. A outra é uma participação em um negócio de 3 milhões de dólares, com vários nós e possibilidades de lucros futuros.

Mano a mano

O peso da grife das equipes européias torna às vezes o preço do jogador até 10 vezes maior. A questão é saber como equipes européias tão tradicionais ou menos que as brasileiras e argentinas conseguem ter mais peso neste jogo de cena do futebol. Alguém desconfia da importância de um Grêmio, de um Santos, de um Flamengo, de um São Paulo no futebol internacional? Sim, somente seus rivais.

Espanha: lá todo mundo sabe que pode dar um ou pode dar o outro

Espanha: lá todo mundo sabe que pode dar um ou pode dar o outro

Nos confrontos diretos entre Europa e América do Sul no Mundial Interclubes, única forma de colocar as equipes mundiais frente à frente para medir forças, há 25 vitórias para a América do Sul e 23 para a Europa. Isso diz muita coisa. São os confrontos entre os melhores clubes da Europa contra os melhores da América. Os europeus costumam dizer que não dão valor à competição.

A choradeira dos jogadores do Barça, fregueses do futebol brasileiro; dos jogadores do Liverpool, do Milan, a cada mundial perdido para clubes brasileiros, mostra que isso é uma conversa fiada. E torna óbvio que, pelo menos, a postura dos jogadores é diferente da idéia defendida pelos clubes europeus. Mas eles estão no “direito de exercer o seu protecionismo”. Não querem desvalorizar o seu futebol por isso desvalorizam o confronto direto.

Cinco estrelas de lata à incompetência

Alguém acredita que se os jogadores brasileiros realmente fossem vendidos na realidade de preços das transações européias os clubes da Europa virariam as costas para o mercado brasileiro? Alguém acredita que eles realmente deixariam de se interessar pela melhor escola do futebol do mundo, pelos maiores formadores de talentos do planeta, caso os preços fossem justos?

Não, isso aí não é gol de primeiro mundo

Então, qual é o medo do futebol brasileiro? O que o trava? Por que não fazer a reforma interna que todos desejam? Tornar os campeonatos brasileiros acima de qualquer suspeita, oferecendo-lhes o mesmo valor da seleção – respeitada em todo o mundo; acabar com a influência bizarra de empresários e cartolas incrustados nos corações dos clubes e das federações; criar calendários decentes; renovação de gestores nas federações e confederações; fortalecer clubes em seus diversos níveis; estabelecer quotas democráticas de imagem e televisionamento; descentralizar a mídia esportiva para acabar com favorecimento mercadológico de Rio e São Paulo, são alguma das medidas urgentes.

Não se pode evitar que os jogadores sigam sua vida na Europa com a liberdade que merecem. Mas a lógica do comércio no setor tem que mudar. Talvez resolvendo problemas morais nas estruturas dos clubes poderemos vender o nosso campeonato, difundir a modalidade – que faz parte da nossa cultura – e dar ao futebol brasileiro o status e a credibilidade que merece. Ou isso não é possível?

Na minha opinião uma das maiores afirmações dos clubes brasileiros sobre os europeus

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