Se eu fosse para a Tailândia, estaria tranquilo

Dificilmente o ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, está errado. Até porque as informações são de que a Força Aérea Brasileira está fazendo um esforçado e bom trabalho. Não se trata de provar para alguém se as equipes brasileiras de resgate são capazes de fazer o que têm que fazer – encontrar os corpos e os destroços. Mas, sim, é urgente esclarecer por que vivemos em um momento em que voar no Brasil é tão arriscado?

O espaço aéreo e a infraestrutura da aviação comercial brasileira hoje representam pavor e angústia para qualquer usuário. Seja ele de voos domésticos de grandes empresas ou de aviões de pequeno porte, fretados. O que acontece neste setor no Brasil hoje é uma incompetência disfarçada de “azar” que já dura tempo demais. Oh, “urucubaca” mais sem vergonha!

Eu não me lembro de um período de quatro anos com tantos desastres aéreos graves no país. São dados tão contundentes que entraram para a história. Em 31 de outubro de 1996, 99 pessoas morriam em acidente com o Fokker 100 da TAM, em São Paulo. O avião caiu em residências próximas ao aeroporto de Congonhas logo após decolar.

Avião teria caído depois do arquipélago de Fernando de Noronha

Avião teria caído depois do arquipélago de Fernando de Noronha

Uma década trágica

Aí, houve um vazio de ocorrências, onde os brasileiros apenas assistiram tragédias envolvendo aviões fora de seu espaço aéreo. Veio a segunda metade desta década e estamos no auge de um período negro sem precedentes na história da aviação comercial brasileira.

Em setembro de 2006, o Boeing da Gol caiu entre Manaus e o Rio de Janeiro ao se chocar com um aeronave menor. Foram 154 mortos. No ano seguinte, um avião da TAM deslizou pela pista de pouso de Congonhas e colidiu com um hangar. Foram 199 mortos. Em dois anos, o saldo de mortes em voos comerciais era quase quatro vezes maior do que nos 10 anos anteriores – excluo aqui casos de voos fretados.

Em 2008, a aviação comercial brasileira teria vivido momentos de calmaria se não fossem as turbulências nos aeroportos provocadas por atrasos, reverberações do chamado “caos aéreo”, a ausência completa da histórica Varig em voos para fora da América do Sul e queda de faturamento de empresas que passaram a figurar com importância no cenário brasileiro, como a Gol (prejuízo de R$ 216,76 milhões em agosto de 2008). Fatos simbólicos para o setor.

Veio 2009, o quadro negativo se manteve, mas com novos tons macabros. Foram quase 230 mortos próximo a Fernando de Noronha.


Repercussão na imprensa internacional em clipping feito pela France 24

Prato cheio para especulações

Claro que não há elementos para relacionar este acidente da Air France à sequência de acidentes ano a ano no Brasil. Entretanto, eu me treinei no jornalismo a esgotar todas as possibilidades antes de valorizar a hipótese de “pura coincidência”. Afinal, é muita gente morrendo num estralar de dedos, de forma muito semelhante, na mesma área do planeta.

Mesmo considerando como coincidência mais este desastre de grandes proporções, o que parecia mera impressão fica cada vez mais concreto – o Brasil é uma das regiões mais perigosas para vôos do planeta e ninguém parece conseguir frear isso.

Seja por zona de forte turbulência, fatalidade, falha de sistema ou humana, o fato é que é fundamental que surjam explicações para este acidente da Air France o mais rápido possível. Do contrário, é natural que venham as especulações em cima da frágil estrutura de controle e segurança da aviação comercial no Brasil, escancarada nos últimos três anos.

Cinco perguntas que precisam de respostas

1) O que está acontecendo de tão diferente na aviação comercial brasileira atualmente em relação a década de 90?
2) Será que as aeronaves antigas eram mais preparadas?
3) A infraestrutura de controle e segurança da aviação comercial no Brasil piorou?
4) A demanda por voos ficou tão grande que é impossível oferecer qualidade 100% para o usuário?
5) Será que não é possível cancelar um voo por instabilidade no meio do oceano?

Este blog não poderia ficar sem prestar condolências às famílias dos que se foram neste episódio trágico. Poderia ter ocorrido com qualquer um de nós. Assusta-me porque estou atravessando o Atlântico pelo menos duas vez por ano e é impossível ficar tranquilo em um avião que entra, sai e atravessa o Brasil hoje em dia. Se estivesse indo para a Tailândia, talvez estivesse mais tranquilo.

Procedimentos de segurança de voos da Air France

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