Personenschaden

Certa vez, voltava da cidade de Heidelberg para Bonn. Era inverno e tive que trocar de trem em Mannheim. As palavras do maquinista: “nós pedimos sua compreensão, mas vamos atrasar a viagem devido a um dano pessoal (Personenschaden)”. Muitas pessoas reclamavam por causa do frio, do atraso, do desconforto geral. Eu confesso que não consegui. Personenschaden é uma expressão considerada por muitos branda, utilizada também quando alguém se joga nos trilhos do trem para se matar.

São mais de 41 mil quilômetros de trilhos de trem na Alemanha. Em comparação com o Brasil, um país 25 vezes maior territorialmente – que engatinha ao tentar voltar ao projeto de investir neste modal -, a Alemanha tem o dobro da estrutura ferroviária. Um serviço que pode ser considerado por um usuário sul-americano como de alta qualidade, mas bastante questionado pelos usuários alemães devido aos atrasos.

Sendo sarcástico e de um humor negro altamente repreensível, eu sei, para um suicida, os trens alemães podem significar um prato cheio. Acho que o sujeito que quer se matar no Brasil deve dar preferência às armas de fogo. Suponho. É difícil afirmar com certeza porque não há facilmente informaçõe disponíveis sobre este tema no Brasil. Por convenção, a imprensa brasileira não noticia suicídio. O leitor, por favor, não interprete a comparação como uma apologia ou como estúpida frieza. Acho o suicídio um ato trágico e terrível. Não há como avaliar a atitude de um suicida e suas motivações. Não me atrevo a julgar como “um ato covarde”, como ouço a maioria das vezes. Aliás, não me atrevo a julgar.

Esperando no trilho

Esperando no trilho

Apenas para não fugir da comparação já iniciada, o Brasil tem uma malha ferroviária de 29 mil quilômetros, conforme o Denit (Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transporte), e dedica o modal basicamente ao transporte de cargas, que absorve 20% da demanda brasileira. Em 2006, a estatal Deutsche Bahn (DB) e cerca de 150 companhias ferroviárias privadas transportaram 2,24 bilhões de passageiros e 346 milhões de toneladas de carga, o que faz desta modalidade de transporte a terceira mais importante da Alemanha.

Atraso desconfortável

A revista mensal Chrismon, uma publicação evangélica encartada em um dos principais periódicos alemães, o Sueddeutsche Zeitung, trouxe alguns depoimentos de maquinistas, paramédicos, bombeiros e funcionários de estações de trem que presenciaram situações de suicídio em trilhos. A revista peca por não trazer dados atuais sobre estas ocorrências na Alemanha nem ouvir especialistas sobre motivações, efeitos e reações. Porém, traz depoimentos contundentes.

Fiz uma pesquisa aleatória sobre o número de casos de suicídios desta natureza aqui na Alemanha. Consegui um dado nada atual, de 2005, que se repete em diversas publicações. Na primeira metade da década, o número de suicídios na malha ferroviária alemã teria variado anualmente entre 1000 e 1200, segundo informações da DB.

Conforme ainda a estatal, isso significaria 4 mil horas de atraso e algumas pessoas irritadas apesar do fato trágico. É cruel, mas alguns marcam compromissos e contam com o trem para chegar em casa, ao trabalho. Outros, procuram o trem para abreviar a vida.

Pessoa embarca em um ICE na Estação Zoo de Berlim

Pessoa embarca em um ICE na Estação Zoo de Berlim

O trauma

A cada ano, conforme a DB, 5% dos maquinistas alemães se deparam com pessoas que se jogam na frente do trem para se matar. Alguns pulam de encontro a um ICE (InterCity Express), o trem-bala alemão. Outros ficam à frente de trens menos velozes. O maquinista Carlo Kuster trabalha com um S-Bahn, um trem menos veloz, e disse para a Chrismon que conduzia a 120 Km/h e sequer percebera que passara por cima de alguém.

“Naquele dia, não havia só acontecido isso. Pela manhã, um homem se jogou do seu apartamento em frente ao edifício que moro. No final da tarde, quando conduzia o trem, notei policiais em um determinado local. Pensei que procuravam um suspeito, isso sempre acontece. Percebi um barulho estranho no S-Bahn, uma espécie de bum-bum. Pensei que fosse a retranca de ajuste de trilhos. Logo recebi o telefonema do diretor me informando que se tratava de um suicídio e que eu precisava parar. Na estação seguinte, vi restos de roupa presos ao trem”, lembra o maquinista de 44 anos, afirmando que muitos colegas deixam de trabalhar depois de passar por esse tipo de situação.

doll_suicide_lonely_752_l

Recolher o que sobrou, limpar a área

“Cada um reage de forma diferente. Eu freqüentei um psicólogo e ajudou.”, diz Kuster. Jochen Heinze, um bombeiro voluntário, 33, da localidade de Limburg, disse para a reportagem da Chrismon que o seu grande medo é conhecer a pessoa que irá encontrar nos trilhos. “Certa vez demoramos para encontrar o cadáver. Já estava escuro. O que eu vi ao iluminar o mato com a minha lanterna ainda está diante dos meus olhos. Eram membros que precisavam ser procurados e reunidos. Uma pessoa que dificilmente seria reconhecida”.

O assistente da Cruz Vermelha, Peter Meyer, 57, contou para a revista que se deparou com uma tentativa de suicídio. “O jovem estava deitado na nossa ambulância. Os colegas já haviam prestado os primeiros-socorros. O trem passou por cima do rapaz. Ele queria morrer, mas acabou sobrevivendo. Teve as duas pernas amputadas”.

Ele conta que o jovem era irmão de um bombeiro que trabalha na frente da unidade da Cruz Vermelha. Meyer diz que chegou a estar feliz ao ver, semanas depois, os dois irmãos juntos pelas ruas. O bombeiro ajudava o “paciente” a caminhar com próteses. “Uma ano e meio depois, encontramos o rapaz novamente nos trilhos. Dessa vez, era tarde para socorrê-lo. Nem sempre se pode entender a vida”, diz o assistente da Cruz Vermelha.

Abaixo um vídeo anônimo que critica o reajuste de 3,9% do preço da passagem de segunda classe com base na baixa qualidade da prestação do serviço. Achei o protesto underground por isso publico

Anúncios

3 Respostas para “Personenschaden

  1. nossa senhora. Seu texto é excelente . O fato que é trágico. Presenciei a cena duas vezes. Estava num RB que atrasava por que mais à frente havia um acontecido um suicídio (à frente de um outro trem) 😦 Triste ! Deus dá, Deus Tira

  2. Fala Márcio! O Blog tá uma obra, e o último post é um assunto que a muito me intriga aqui na Suíça. Logo que cheguei aqui pela primeira vez fui morar na casa de uma família, a qual o pai era maquinista da SBB (Schweizer Bundes Bahn). E uma vez perguntei a ele sobre o assunto. Ele me contou que a SBB tem um serviço de atendimento psicológico para maquinistas que sofrem com o trauma causado por suicidas que se jogam em seu caminho. Me parece óbvio, mas mesmo assim me espantou a instrução dada pela SBB a seus maquinistas, no caso que percebam que um suicida irá se jogar na linha de seus trens. “Vire as costas e não olhe”. Eles ainda acrescentam que tentar parar um trem numa situação dessas é inútil. Ele contou que uma vez um amigo maquinista viu um suicida na linha de seu trem, o maquinista desesperado sentou a mão na buzina do trem até que o cara saiu da linha. Aliviado, o maquinista sentou-se. Poucos metros antes do trem passar, o suicida voltou para o meio dos trilhos. Embora não seja divulgado em jornais aqui na Suíça, esse mesmo senhor me relatou que, durante o inverno suiço, chega a ter 1 caso por semana.
    Ahh e só pra completar, a desculpa nos autofalantes dos trens daqui é o “Technischestörung” (problemas técnicos). Chega a dar calafrios.

  3. fernando horta

    Posso falar com um pouco de domínio sobre o tema …

    a questão é que no Brasil pararia totalmente a parca malha ferroviária se todos os que tivessem motivos resolvessem com o suicídio. As balas não atrapalham os outros … os “valentes” que vivem … e continuam, apenas continuam …

Deixe seu comentário no blog para que outros leitores conheçam a sua opinião.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s