Zuma: o craque driblador

O resultado já era esperado. Agora, maio entra com a perspectiva de Jacob Zuma ser nomeado presidente da África do Sul, país que concentra os olhos do planeta pelo peso no contexto econômico, político e social da África subsaariana. A minha opinião sobre Zuma está clara neste blog desde a publicação do artigo “Passa a mão e pisca”.

O partido de Nelson Mandela tem irrefutável relevância histórica no país. Porém, não sei se Mandela, se estivesse no auge do seu vigor físico, político e intelectual, realmente continuaria no Congresso Nacional Africano (ANC) nos dias de hoje. Mesmo com o fato de, com 90 anos, aparecer em diversos momentos apoiando o ANC e, por consequência, Zuma. No ano passado, dissidentes criaram um novo partido e a expectativa é de que a estrutura política sul-africana ganhe nova forma nos próximos anos.

O Congresso do Povo (COPE), constituído maioritariamente por dissidentes do ANC, tem como líder Mosiuoa Lekota, homem que se demitiu do cargo de ministro da Defesa depois que Thabo Mbeki renunciou à presidência em setembro. Vale lembrar que Mbeki deixou o cargo quando um juiz anulou uma das acusações de corrupção contra Zuma. Ato repetido ao longo dos anos e visto novamente no início deste mês quando promotores retiraram novas acusações para que Zuma tivesse portas abertas à Presidência da República.

Joanesburgo: maior cidade da África do Sul com 5,3 milhões de habitantes.

Joanesburgo: maior cidade da África do Sul com 5,3 milhões de habitantes.

O surgimento do COPE significa que, pela primeira vez em 14 anos, o ANC tem sua unidade abalada. Além da discussão política mais aguçada nestas eleições, o ANC não teve dois terços dos assentos no parlamento. São 33 cadeiras a menos. Foram 65% dos votos. Isto é sintomático. A segunda força política do país, a Aliança Democrática (DA), de Helen Zille, teve cerca de 19% dos votos.

Antecipado como presidente.

Interessante foi o comportamento da maioria das agências de notícias neste sábado, quando do anúncio oficial dos resultados das eleições. Zuma foi anunciado por muitos órgãos de imprensa como o novo presidente. O leitor desavisado ou editor que se serve das agências para montar o seu jornal devem ter ido na euforia do próprio Zuma e dos “seus” no ANC e o anunciado como presidente, dias antes do novo parlamento se debruçar sobre o tema.

Sabemos que muitos jornalistas não costumam ter muito cuidado nestas horas, dando mais importância a antecipação dos fatos. Mas jornalismo é essencialmente descrever o que está acontecendo e, somente em espaços próprios, antever, comentar e apontar tendências. Sim, colegas, é praticamente certo que Zuma será o presidente. Mas, praticamente, não significa certo. Aos meus olhos, era prciso esperar o dia 6 de maio. Tudo pode acontecer em um país com um contexto tão próprio como a África do Sul. E mesmo se fosse o país mais estável do mundo, anunciar Zuma em manchete como novo presidente é um erro básico. Em espaços de análise politica, sim, concordo que seria algo normal.

Quem sabe “provável presidente” ou “deve ser o presidente”, condicionar um pouco a subida de Zuma ao poder não seria mais apropriado? As agências erraram e levaram centenas de periódicos ao redor do mundo a fazer o mesmo principalmente em suas páginas online. Você deve ter lido em algum lugar neste final de semana, “Zuma é o novo presidente da África do Sul”. Errado. Esta deve ser a manchete no dia 7 de maio. Mais uma vez, alguns órgãos de imprensa são driblados pela falta de informação qualificada e pela habilidade dos políticos em destaque. Quem leu a notícia exposta desta forma não foi informado sobre como funciona o sistema de escolha sul-africano. Isto é mau.

Ninguém espera zebras sul-africanas na decisão do parlamento no dia 06 de maio, apenas um pouco de cautela e paciência da imprensa.

Ninguém espera zebras sul-africanas na decisão do parlamento no dia 06 de maio, apenas um pouco de cautela e paciência da imprensa.

Oportunismo

Zuma aproveitou as câmeras para falar como presidente, sem esperar pela sua provável eleição no parlamento. Dele, já se podia esperar isso. Porém, o contexto político sul-africano atual é, como eu disse, o mais complexo dos últimos 15 anos. Não há como negar que os escândalos morais que envolvem Zuma e as dissidências no próprio ANC deverão lhe exigir um mandato de postura bastante cautelosa.

As eleições marcaram uma nova fase política na África do Sul. É claro que um partido tão massificado como o ANC não iria cair diante de uma outra sigla com cinco meses de existência e da tradicional DA. Sua vitória já era esperada. Porém, a oposição está mais forte, a discussão vai ser mais profunda e Zuma terá de mostrar mais qualidade. Do contrário, pode enfraquecer ainda mais o seu partido. Zuma deve chegar ao cargo de presidente inegavelmente mais frágil. Se o provável futuro presidente não tiver cuidado, nem a aura fantástica de Mandela continuará segurando o ANC.

Outros tempos: Mandela é o grande nome histórico do ANC. Zuma é o atual lider do partido.

Outros tempos: Mandela é o grande nome histórico do ANC. Zuma é o atual lider do partido.

Vale lembrar que o provável novo presidente da África do Sul, ao contrário do eterno líder do ANC, Nelson Mandela, ganhou o asco da Comunidade Internacional nos últimos anos. Depois de todas as suspeitas em casos de corrupção, foi acusado de estupro de uma adolescente. Tudo bem, pode ser que tenha caído em uma armadilha. Porém, a perplexidade mesmo vem de suas declarações na ocasião. Zuma defendeu, com a cara mais deslavada, que tomar uma ducha após a relação sexual sem camisinha reduziria o risco de contrair Aids.

Esse DEVE ser o novo presidente sul-africano, o novo líder da chamada África Austral. Região onde a Cruz Vermelha indica que 22,5 milhões de pessoas são portadoras do vírus da Aids. Uma em cada dez pessoas é soropositiva na África do Sul, Zimbábue, Lesoto, Malawi, Moçambique, Namíbia, Suazilândia e Zâmbia.

Vale a pena ter acesso a mais avaliações sobre o pleito. O comentário de Andrew Feinstein, um especialista em política sul-africana, deve ser ouvido. Ele participou deste debate que aconteceu na AlJazeera no dia 22 de abril, dia das eleições. Também dão opiniões, Paul Boughey representante da Aliança Democrática, segunda força do país, da candidata Helen Zille (uma mulher branca que baseou sua campanha também no fim do estigma da raça na política do país), e Jessie Duarte, do ANC.

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