Encomenda estilo Corleone

Eu sou muito comedido quando falo em “respeito à autoridade”. Até porque muitas autoridades não se dão ao respeito. Acho que autoridades eleitas devem ser respeitadas se respeitam os eleitores – e não somente os seus.

Despotismo em qualquer instância do serviço público não merece meu apreço. É a minha opinião.

Agora, o assassinato do presidente João Bernardo Nino Vieira na madrugada dessa segunda-feira (02.03.2009) na Guiné-Bissau parece acerto de contas de gangsters. Talvez o que me leve a comparação é todo o contexto mafioso internacional que envolve esse país africano, lusófono, de pouco mais de 1,5 milhão de habitantes.

Guiné-Bissau: estaria incluída na rota do narcotráfico internacional

Guiné-Bissau estaria incluída na rota do narcotráfico internacional

Pode soar sarcástico ou de um vil humor negro o que vou escrever, mas todo o atentado a presidente que se preze tem um palácio, um ato público, uma tocaia como pano de fundo. Nino Vieira foi deliberadamente atacado em sua residência. Militares invadiram a casa do presidente e o mataram no estilo dos capangas de Dom Corleone.

A imprensa mundial está falando em vingança. O presidente teria sido assassinado horas depois da explosão que matou o comandante do Estado Maior das Forças Armadas guineense, Tagmé Na Waié. (confira foto das ruínas do quartel (http://jn.sapo.pt/paginainicial/mundo/default.aspx). Investidas contra a residência do presidente na intenção de matá-lo vinham se repetindo há mais de seis meses. Era claro que, em algum momento, alguém conseguiria atingir o objetivo.

Logo após o atentado ao presidente guineense, aqui na Alemanha, fui acordado pela ligação do correspondente da DW em Bissau. Braima Darame me informou que a tranqüilidade da capital guineense foi rompida por intenso tiroteio e explosões na madrugada. “Estou em casa com a minha família, assim como toda a gente”, dizia o guineense, suspeitando de mais um golpe de Estado.

Narcoestado

Quando estive em Bissau, em Novembro, vários colegas me explicaram o papel do país no tráfico de drogas internacional. Os EUA apontam a Guiné-Bissau como porta de entrada da cocaína que chega à Europa. Jornalistas guineenses falaram do flagrante envolvimento de militares no negócio, alguns inclusive respondem processos por isso.

Como a vigilância do território é precária, traficantes aproveitam localidades de população bastante carente ou áreas desertas como parada no transporte da droga para o mercado europeu. O líder da etnia Balanta e do PRS, Kumba Yala, chegou a acusar o presidente de envolvimento com o narcotráfico em entrevista dada a mim e a outros colegas.

Kumba responde processo pelas suas declarações – que devem ter o desconto tendo em vista o “calor eleitoral”, porém não podem ser ignoradas.

Kumba Yala: líder Balanta, etnia que domina o exército guineense

Kumba Yala: líder Balanta, etnia que domina o exército guineense

Passou em branco

Hoje, os jornalistas em Bissau ouviram o vice-chefe de Estado-Maior da Armada da Guiné-Bissau, Zamora Induta. Ele disse que “não houve golpe de Estado”, sublinhando que o ataque contra o general Tagmé Na Waié se “alastrou” ao presidente guineense.

Segundo Zamora, “simplesmente aconteceu este atentado relativamente ao chefe de Estado-Maior e infelizmente este acidente alastrou ao caso do Presidente da República”.

Descontando o fato de Induta ter falado em “acidente”, o que definitivamente não combina com este caso, a explicação é bastante reveladora. Se não houve golpe de Estado, que diabos houve então? Quem ganhou com a morte de Nino Vieira? O que o presidente obstruía? O que boicotava ou não dividia?

A entrevista que falta

Para mim, como jornalista, a entrevista mais aguardada é a do ex-comandante da Marinha guineense, José Américo Bubo Na Tchuto, que ficou sob prisão domiciliar e conseguiu fugir para a Gâmbia após tentativa de golpe de Estado em 8 de Agosto do ano passado.

Esse sim, eu gostaria de ouvir. Ele retornou “coincidentemente” há menos de três semanas à Bissau e é um personagem importante na trajetória do governo Nino Vieira. Principalmente na tentativa de interrompê-lo.

Desde a manobra radical de Na Tchuto, a cada dois meses acontecia na Guiné algum atentado grave a figura institucional do presidente. A morte de Nino tinha grande chance de ser realmente efetivada. Em Novembro após as eleições legislativas, agentes da segurança nacional descobriram que haveria uma tentativa de “golpe de Estado por soldados rebeldes”, com certeza, a mando de alguém.

Carlos Gomes Jr

Carlos Gomes Jr

Um militar foi morto e outro ficou ferido também em ataque à casa do presidente. Na ocasião, eu deixava a capital guineense de certa forma impressionado com a tranqüilidade do pleito que testemunhara e chegava à Lisboa sendo surpreendido pela notícia do ataque. Fui acometido por um sentimento ruim de que alguma história séria passara aos meus olhos e não conseguira enxergar.

No início de Janeiro deste ano, nova investida contra a residência de Nino Vieira. Os atiradores estariam revoltados porque o comandante do Estado Maior, morto ontem, teria sido alvo de tiros supostamente disparados por paramilitares fiéis ao presidente, conhecidos como Anguentas. Em revide, soldados de Tagmé Na Waié investiram contra a residência do presidente. Um soldado rebelde morreu e cinco ficaram feridos.

Nesta ocasião, os militares apresentaram o descontentamento por alegado “desprestígio”. Eles lançaram comunicado à imprensa afirmando que não toleravam que os chamados Anguentas, cerca de 400 homens ligados ao Batalhão da Presidência da República, continuassem armados ilegalmente. Esses paramilitares eram historicamente fiéis ao presidente e acabaram, após este episódio, neutralizados.

A hora de Cadogo

No jogo do poder de um dito Narcoestado, onde as instituições são manchadas por declarações bizarras que as envolvem com o crime organizado internacional e militares são apontados como traficantes, há margem para muitas especulações após este atentado, mas prefiro deixar a imaginação do leitor fluir e as investigações vingarem, se é que vão realmente.

Acho que é o momento de o primeiro-ministro guineense, Carlos Gomes Júnior, o Cadogo, usar a sua liderança para acalmar os ânimos. Cadogo era ultimamente rival político do presidente Nino Viera, mas, depois da quase aclamação popular nas legislativas de Novembro, poderia dar uma boa contribuição para a tranqüilidade e para uma reflexão profunda sobre o que aconteceu.

As autoridades guineenses devem esta explicação para a população. A verdade também evitaria qualquer tipo de especulação mais vexatória às instituições já bastante abaladas do país. Mas se ela, a verdade, insistir em não vir à tona, o que devemos pensar?

Imagens de Nino Vieira votando nas eleições de Novembro são reproduzidas na televisão francesa após o anúncio do atentado. Confira no vídeo abaixo.

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