Ele diz que a vida segue e eu digo, segue o desconforto.

É difícil ouvir um Grenal pela Internet, a milhares de quilômetros do estádio, e se concentrar para escrever qualquer texto decente. Neste momento, 25 minutos do segundo tempo, está tudo empatado. A decisão da primeira fase do Gauchão 2009 deve ser nos pênaltis.

Mas não pense que me importo muuuuuuuito com o título simbólico. É que não dá para ignorar a corneta após cada Grenal perdido. Fazer o quê? A gente cresce neste clima de rivalidade futebolística maluca no Rio Grande do Sul e acaba levando isso para o resto da vida, onde quer que esteja.

O resultado de um Grenal reverbera em todos os continentes, chegando naturalmente aqui no apartamento que vivo em Kessenich, Bonn. Propaga-se como meu grito de gol, que há pouco se uniu à minoria apaixonada no Beira-Rio.

Sim, senhoras e senhores, o meu grito reverberou pelo Ocidente. Talvez tenha chegado com algum delay por lá porque a narração chega bastante atrasada aqui também. Mas chegou! Espero que não tenha sido ouvido tão tarde ao ponto de engrossar o segundo grito de gol dos torcedores do adversário.

Jovens alemãs aproveitam o carnaval em Bonn

Jovens alemãs aproveitam o carnaval em Bonn

Segue o jogo e lembro do carnaval

O Brasil é a terra do samba, mas será mesmo a terra do carnaval? Não quero comprar briga com foliões patriotas, até porque não sou especialista no evento anual, porém, eu, um brasileiro, junto espanto e admirção quando vivo o carnaval alemão.

Não há como ficar indiferente diante dos desfiles comunitários, das fantasias engraçadas, dos doces jogados pelos carros alegóricos, do elevadíssimo teor alcóolico e da música altíssima em seus mais variados gêneros, inclusive nos estilos típicos. Nesta época, das regiões católicas alemãs pulsa uma euforia rara, que parece ser contida durante todo o ano. É quando uma gente com fama de ser um pouco mais séria em relação ao típico brasileiro sai do comportamento cotidiano, quebra o gelo do inverno e, no bom “brasileiro”, atola o pé na jaca, chuta o balde mesmo.

Talvez por ter nascido em uma região também carnavalesca, mas não tão empolgada, digo, com todas as letras, que nada me impressiona mais do que as fantasias indiferentes ao frio das menininhas, os adultos disputando doces aos cotovelos com crianças às vezes na primeira infância e a embriaguês das ruas daqui. Sim, as ruas ficam bêbadas na Renânia.

Quem não tem fantasia se sente estranho

Bares recebem público pouco comum

Café verde

É tanta cerveja esparramada nas calçadas que elas também perdem o controle, não conseguem segurar os foliões. A pista deslizante produz alguns tombos sem muita gravidade – pelo menos que eu tenha visto. Tem gente que escorrega, cai no chão, quica, levanta e segue borracho.

Por falar em Brasil e Alemanha, antes do carnaval, estive na Biofach – maior feira do mercado de alimentos orgânicos do Mundo em Nurembergue. Eu diria que é comovente o esforço brasileiro em tentar romper uma lógica comercial secular, aproveitando a “Onda Bio”.

Dessa vez, nossos produtores, muitos representantes de cooperativas, comunidades de agricultores familiares, vieram para a Alemanha não somente para oferecer matéria-prima, mas para encontrar parceiros a fim de que o produto já industrializado (marcas pequenas) vendam na União Européia.

O mineiro João Pereira quer vender café tostado para a Europa

O mineiro João Pereira quer vender café tostado para a Europa

Parece maluco, mas o café brasileiro vem verde para ser torrado, processado e rotulado na Europa. Só entra na União Européia se for assim. Já processadinho, empacotadinho do Brasil, não entra. Uma barreira sedimentada por protecionismo e tradição que os bravos tupiniquins querem romper.

O diretor do projeto Organics Brasil, Ming Chao Liu, disse que existe um grande protecionismo e legislações específicas para diferentes alimentos e isso dificulta tudo.

O movimento relacionado ao produto orgânico brasileiro teve comportamento animador nos últimos anos. Em 2006, foram exportados 6 milhões de dólares por 12 empresas brasileiras. No ano passado, o faturamento pulou para 58 milhões de dólares, com o número de exportadores subindo para 70.

Teodora Hinojosa Machacado em seu estande pequeno na Biofach

Teodora Hinojosa Machacado em seu estande pequeno na Biofach

Desconforto

Para Liu, a grande dificuldade do produtor brasileiro é conseguir a certificação. Dependendo do selo, o produto adquire credibilidade no mercado internacional, mas isso também não garante a sua comercialização. “As empresas brasileiras têm sido incentivadas a buscar certificados em seus mercados-alvo”, disse.

Eu ia terminar este texto comentando a história da boliviana Teodora Hinojosa Machacado, de 32 anos, que foi para a Biofach tentar vender o seu café orgânico industrializado. Simples, humilde, lidera o grupo de mulheres agricultoras da região de La Paz e Santa Cruz e veio a Alemanha para mostrar a cara no jogo do Mercado Bio internacional.

Tento seguir falando da aguerrida mulher boliviana, mas prefiro disponibilizar o link da matéria que fiz para a redação espanhola da Deutsche Welle após começar a ouvir a entrevista coletiva do técnico Celso Roth. (http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4048696,00.html)

Sim, tá faltando cor!

Sim, tá faltando cor!

Mesmo pela Internet, a palestra de Roth me arrepia. Não pela sapiência. Comentando mais um Grenal perdido, ele diz “o Tite que aproveite este momento porque as coisas mudam, né?”. Amigos, essa amargura não é tricolor. Não gosto de pegar frases isoladas para comentar, mas que espécie de “momento” é esse que não termina nunca?

Outra pérola, “parece que dá um branco em jogo contra o Internacional”, resignação que definitivamente não é gremista também. Aliás, o melhor da psicologia esportiva, pregar o derrotismo em cima do principal adversário na metade da competição. Tudo bem que o Internacional foi sim favorecido pela tabela, pelo Grenal em Erechim (deveria ter sido no Olímpico com somente 3 mil colorados), pelo calendário de jogos do Grêmio, mas não é necessário facilitar as coisas para o adversário. Ou querem presentear o co-irmão pelo centenário e não falaram nada?

Eu me lembro que o lateral-direito Luís Carlos Winck tinha alguns “brancos” frente ao nosso limitado Jorge Veras também. Era invariavelmente humilhado e, dizem, que o jogador colorado, antes de cada Grenal, era inclusive acometido por diarréias fortíssimas. O fato e o boato entraram para o folclore do Grenal porque Winck era um bom jogador e Veras, um homem de sorte. O que nós temos agora na dupla Grenal? Um bom técnico e um homem rico, talvez?

Valdo, Lima e Jorge Veras

Não sou de pedir queda de treinador, mas eu tenho certeza de que alguém que está na posição de técnico do Grêmio tem potencial para mostrar mais grandeza. Tanto técnica, quanto humana. Creio que Celso Roth merece ser comandante do Grêmio porque é trabalhador e reiteradamente é escolhido para o cargo. Porém, acredito que pode fazer mais. Roth gosta de dizer após cada resultado inesperado, “…e segue a vida”. Eu digo, Roth, com todo o respeito, segue o desconforto também.

Abaixo, vídeo da final do Gauchão de 1987. Estavam em campo Jorge Veras e Luís Carlos Winck. Foram três gols do Grêmio antes dos 20 minutos. O triste neste jogo foi que o zagueiro Pinga do Inter quebrou a perna no lance do primeiro gol (é possível vê-lo no chão nos primeiros frames, à direita do quadro, mas é muito rápido). Taffarel estava no gol colorado, outra vítima do Veras.

O ponteiro-esquerdo gremista compunha o ataque com Valdo (há pouco tempo, técnico do Rondonópolis, meu time do coração nesta semana) e Lima. O azar colorado nesta época entrou para a história do clássico centenário, assim como a voz do legendário Celestino Valenzuela. “Queeee laance!” e “Coooool” (Gooool), eram dois dos bordões do narrador.

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3 Respostas para “Ele diz que a vida segue e eu digo, segue o desconforto.

  1. O fato é, meu caro amigo: temos e somos uma equipe melhor que a sua!!!!! E que a partir de 2006 temos um verdadeiro campeão do mundo no RS e não de um simples torneio intercontinental (aliás, tu tens o Betamax dessa famigerada contenda?????) E ponto final, meu nêgo!!!!!!

    Nada mais há a ser discutido! E às favas todas as explicações mal-argumentadas de que há complô pró-centenário rubro!
    Ou vais querer me dizer que em teu centenário a segundona (de novo!!!) foi injusta????? Ou as leis de causa e efeito quando aplicadas ao futebol só surtem o efeito desejado quando aplicadas cretina e marotamente ao favor próprio??????

    Às favas, meu caro, às favas essa lacrimejante e constrangedora opinião!!!

    Em tempo: que joguinho ridículo esse de ontem, hein? Pareciam dois times varzeanos em campo! Tive o (des) prazer de assistir a verdadeira pataquada protagonizada pelos dois times (dá pra levar a sério um time como o nome de Boyacá Chicó ??????? Por acaso Ariano Suassuna recebeu direitos autorais pelo uso do nome do desajeitado personagem do Auto da Compadecida????). Tudo mudou, meu caro! Aceite a verdade e os fatos, tu que és defensor da análise equilibrada dos fatos. Ou vais me dizer também que isso só vale quando é para justificar positiva e marotamente a tua carcomida opinião de tricolor sofredor?????

    Durma-se com um Roth desses, por favor!!!!!!!

  2. Caro Renato

    Impressiona-me deveras o teor da amargura colorada após ter subido um nível importante no futebol mundial. Será que nem mesmo a tão agustiada, chorada, atrasada, sofrida, gabiruzada vitória contra o desfalcado Barcelona iluminou o coração co-irmão? A amargura é premente mesmo quando o clube do Guaíba vive o melhor momento de sua história. Uma amargura que vai do mais simples torcedor até o presidente.
    Sim, digo melhor momento do clube porque realmente e finalmente o interzito tocou nos grandes do futebol internacional. Clubes de renome, que sempre invejou e agora aprende a admirar mais ainda porque sabe que é difícil chegar lá. Sim, Renato, os tempos são outros. São tempos de Once Caldas, Fluminense, Estudiantes com estádio bonito e Nacional de Montevideo constrangido, sendo facilmente roubado no Beira-Rio. São tempos de gols decisivos de heróis instatâneos, esquecidos sem constrangimento. Por falar em heróis, Renato é um nome sagrado no Olímpico. Eternizado porque orgulha. Cante um pouco, colega!

    Lembra, quem não canta é amargo. Nunca vai ser campeão!
    abraço

  3. adrianaparanhod

    Pessoa ! Pois não é que depois do carnaval na avenida, estréia em POA, já com título de campeã, me vou ao Beira-Rio pra ver outro carnaval? Olha, sei que é difícil ver o Intersito chegar onde chegou e parece de onde não querer sair. Acompanho estasiada os foguetes gremistas a comemorar UM gol contra o tal Goyacá xicó…Quem diria, que as emoções seriam assim tão sofridas. Sabe como comparo esta reação dos tricolores a fase colorada? A mesma da elite brasileira ao ver o Lula no Palácio do Planalto. E esta comparação, voce sabe disso, deve tambem servir, mais tarde, para o consolo dos bravos gremistas, que conseguem ter como herói uma figura como o Renato. Só não chora muito por enquanto, logo a gangorra muda. Até lá, conforme-se, o Intersito é melhor e cresceu para se colocar entre os grandes, onde nunca esteve um tal de Hamburgo, sem reservas, sem anti-doping, sem federação…muito menos quem o venceu! Adoro ler vc.

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