Barrigadas, barganhas, “bashires” e “bushes” em um dia difícil…

Esta quinta-feira foi enlouquecedora para qualquer pauteiro de temas internacionais. Ainda não ficou claro o que houve, mas amanhecemos com a informação de que a Corte Penal Internacional (ICC) havia expedido mandando de prisão do presidente do Sudão Omar al-Bashir.

A expectativa era de que isso acontecesse neste mês. Entretanto, o que parecia embargar uma decisão dos juízes era o fato de o governo sudanês ter ventilado “à boca pequena”, estrategicamente, que seu relacionamento poderia mudar com a missão da ONU no Darfur (UNAMID) caso o mandado fosse expedido.

Os integrantes da UNAMID já não têm uma vida muito fácil no Darfur. É difíicl imaginar o que significa arriscar a pele em um trabalho humanitário na RD Congo, Gaza e etc. Tão difícil quanto, ou ainda mais (arrisco dizer), é imaginar a dificuldade de oferecer o mínimo para quem é perseguido por uma onda genocida. Nisso incluo tanto os militares ligados à ONU no Darfur, quanto os agentes cuja função é fazer chegar medicamentos, cobertores e mantimentos para refugiados e comunidades que insistem em ficar no inferno.

Acampamento de refugiados do Darfur

Acampamento de refugiados do Darfur

O chefe dos promotores do ICC, o argentino Luis Moreno Ocampo, havia pedido a prisão de Bashir por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade no Darfur. Desde 2003, a ONU estima que o conflito étnico causou mais de 300 mil mortos e 2,2 milhões de refugiados. Os dados ainda são confusos, mas é difícil acreditar na versão de Bashir. Para ele, foram 10 mil mortos.

A questão é que neste momento ocorre uma negociação em Doha, no Catar, entre o governo sudanês e o movimento rebelde Justiça e Igualdade. Uma negociação obviamente bastante delicada. Tão complexa que precisa de uma multidão de mediadores. Integrantes da União Africana, da própria ONU, da China, da Rússa, da Liga dos Países Árabes e por aí vai. O encontro começou na segunda-feira e se tem pouquíssimas informações sobre o seu andamento. Talvez porque muitos correspondentes pensem que se trate de mais um bla, bla, bla. Eu discordo.

Caso alguma fonte oficial tenha realmente falado a verdade para o jornalista que liberou a informação, é impossível perdoar o ICC. Não dá para entender qualquer movimentação do tribunal neste momento. Quem esperou dias desde o pedido de Ocampo vai se manifestar logo agora? Justamente no momento em que as partes resolveram conversar após um ano e meio de pura violência! Não. Morreu gente demais nesta historia e não há margem para uma auto-afirmação, mesmo que seja recheada de boa vontade.

Bashir não é burro. Pode usar o contexto para barganhar com a justiça internacional. Pode ser que surja um dilema bastante duro para a comunidade internacional nos próximos meses – fazer justiça ou fomentar a paz. O que seria melhor neste momento? O mandado de prisão pode prejudicar as negociações. Não será novidade se Bashir condicionar uma eventual trégua a não expedição do mandado pelo ICC. O que vale mais? Levá-lo a julgamento ou a paz? (vote na enquete abaixo)

Melhor seria levá-lo a julgamento...

Melhor seria levá-lo a julgamento...

O fato é que o próprio tribunal desmentiu a informação de expedição do mandado e isso não deixa de ser positivo. Talvez tenha sido uma barrigada das agências internacionais, mas também pode ter sido um recuo estratégico da ONU e do ICC.

Mas eu tenho cá minhas dúvidas com relação a um “engano jornalístico” neste caso. Afinal, trata-se de uma matéria muito relevante para ter sido publicada sem qualquer fundamento. Seria um tiro no pé que marcaria muito negativamente uma carreira. Tem caroço nesse angu, é claro. Alguém deve ter confirmado isso para o jornalista antes da publicação. Não quero ser corporativo, mas é difícil acreditar em tamanha imprudência em um tema tão forte. Porém não ponho a mão no fogo… já vi muita coisa bizarra no jornalismo.

O certo é que em alguma redação deste planeta tem alguém realmente irritado com esta história. Sei que tive uma quinta-feira complicada na chefia da minha redação, mas esse sujeito teve um dia certamente mais difícil. Pior que explicar para o leitor é convencer o chefe.

...ou apostar na paz?

...ou apostar na paz?

————————————————————————————————-

Barrigada é uma gíria da imprensa (talvez apenas da imprensa gaúcha) que quer dizer veicular uma informação errada. É mais comum do que se pensa e, dependendo do objeto da notícia, torna-se embaraçoso e dramático.

Na segunda-feira, um canal sul-africano noticiou a morte de George Walker Bush. Talvez o editor estivesse ansioso. Foram apenas três segundos com a frase “Morre George Bush”. A barrigada virou notícia em todo o Mundo.

Vídeo produzido por estudantes de jornalismo da Emory University nos Estados Unidos.


Anúncios

Deixe seu comentário no blog para que outros leitores conheçam a sua opinião.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s