Passa a mão e pisca

Era 1987 ou algo assim. Um amistoso entre Alemanha e Brasil. Eu e meus irmãos arrastamos a TV da sala para o nosso quarto. Não sei em qual cidade alemã era a partida. Estava zero a zero. O Brasil jogava com a amarelinha e os alemães com a verde, se não me engano.

Era uma das piores fases do futebol brasileiro. Uma entresafra que só iria acabar com a consagração de Romário em 1994. Um jejum de títulos mundiais que se arrastava há quase 20 anos. Contávamos com o bom Careca e o razoável Müller para compor o ataque.

Era a “pré-geração Dunga” ou já poderia ser o auge dela. O jogo não valia nada, mas, no ímpeto do guri que sonha em ser jogador de futebol, viciado pela gorduchinha, torcia como se fosse final de Copa do Mundo. Era um clássico internacional! Eu era o Careca, o Müller, todo mundo.

conseguiu isolar a bola e eu rachei minha cabeça

Bisonhos: conseguiu isolar a bola e eu rachei minha cabeça

Sentado na cama do quarto, com a quina do beliche a uns dois palmos sobre a minha cabeça, vibrava a cada lance por mais pobre que fosse. Chutava a bola invisível a cada rara chance de gol de um jogo medíocre.

Foi quando o tal Müller, agora “colega” de profissão, pegou a bola. Penetrou na área, cara a cara com o goleiro. Chutou. Pulei. A bola subiu, passou o travessão. Eu subi, não passei da quina do beliche. Veio sangue. Muito sangue…

Não foi gol. Terminou zero a zero. O primeiro empate da história que rendeu mais de um ponto. Foram oito… na minha cabeça.

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Causou-me estranheza o ar de felicidade da imprensa brasileira e de alguns blogueiros em relação ao relatório publicado pela International Budget Partnership (IBP) sobre a transparência dos países na gestão do orçamento público.

Na pesquisa, eles avaliam as iniciativas dos governos para disponibilizar informações à população sobre o destino do dinheiro público. A ONG criou um índice e um critério baseado no que chama de “documentos-chave”.

O mérito da pesquisa foi descobrir que existem países que produzem quatro dos oito documentos-chave solicitados pelo instituto, mas não divulga nenhum ao público. Todos os documentos orçamentários ficam para consumo interno do governo. Ou seja, basta um pouco de boa vontade e tais países, segundo o estudo, tornam-se mais transparentes.

Relatório bem intencionado, mas se perde.

Relatório bem intencionado, mas se perde.

O diretor da IBP, Warren Krafchik, diz que a pesquisa mostra que, em alguns casos, “com poucos recursos, o governo pode ser mais transparente, apenas divulgando para a população os documentos que mantém escondidos”.

A pesquisa aponta o Brasil como oitavo país mais transparente – entre 95 avaliados – na frente de Coréia do Sul e Alemanha. O relatório coloca como os cinco primeiros colocados, nesta ordem, Reino Unido, África do Sul, França, Nova Zelândia e EUA.

O estudo tem seus méritos. É uma iniciativa positiva. Divulgar gastos sempre ajuda, democratiza os cofres no bom sentido da palavra. Porém o trabalho do IBP peca um pouco quado começa a relacionar seus critérios de transparência com corrupção. “Restringir acesso às informações (…) é criar oportundades para que os governos escondam gastos impopulares, perdulários ou corruptos”, escrevem os autores do relatório.

Será que publicar uma bela prestação de contas evita que os governos escondam gastos corruptos? Será que belos relatórios orçamentários não podem ser maquiados servindo apenas para amortecer eventuais desconfianças?

rinoceronte sul-africano na estrada

Opa: rinoceronte sul-africano na estrada

Oitavo colocado – vamos refletir. África do Sul e Brasil. Pode dar um espasmo de orgulho, afinal dois dos chamados “emergentes” lado a lado com os denominados “países do primeiro mundo” dá um status interessante. Mas o sujeto não pode deixar de ter um “contra-espasmo”, por assim dizer, e se enfurecer.

Não vou nem falar do Brasil porque quem está lendo este texto sabe dos inúmeros casos de dinheiro público que a Polícia Federal está descobrindo como desviado através de suas investigações com denominações estranhas – Rodin, Sanguessuga e por aí vai.

Alias, estes também são gastos previstos em orçamento. Publicados! Vide Detran-RS. Dinheiro para campanha contra mortes no trânsito. Com origem e fim específicos. Transparente, mas…digamos, precisando dar uma limpadinha na vidraça, talvez?

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Pois vamos para a irmã África do Sul, segunda colocada no tal ranking. Nessa quarta-feira, saiu a data do novo julgamento do principal candidato à presidência sul-africana para as eleições deste ano. Seu suposto crime: corrupção pura.

Jacob Zuma, presidente do partido Congresso Nacional Africano, é acusado de desviar o equivalente a 300 mil libras (cerca de 1 milhão de reais). Isso quando era vice-presidente do país.

justica

O interssante é que ele teria comparecido mais de 30 vezes aos tribunais sul-africanos nos últimos 7 anos, mas nunca fora condenado.

Porém, seu então assessor financeiro, Schabir Shaik, em processo paralelo, no qual as provas do Ministério Público são praticamente as mesmas, foi condenado a 15 anos de prisão.

Os pesquisadores do IBP podem ter levantado os países com a corrupção mais descarada do planeta e não sabem. Não avaliaram a auditoria da produção das publicações de orçamentos, a qualidade dos documentos disponibilizados ao público.

Colocar o Brasil em oitavo lugar em transparência não quer dizer colocá-lo em oitavo lugar na lista dos sistemas menos permissivos à corrupção.

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Há corrupção em qualquer lugar, isso é fato. Nenhum país é mais corrupto ou menos corrupto. Na Alemanha, na Holanda, na Inglaterra, em Israel, toda hora pipocam escândalos de corrupção nos mais diversos setores. A diferença é a seguinte, em alguns países um Zuma vai pra cadeia. Em oturos, não.

Transparência de verdade não é você publicar meia-duzia de orçamentos maquiados para a população. Mas é você ter um sistema de controle público eficiente ao ponto de o cidadão olhar para os balancetes e ter a certeza de que não perde seu tempo nem seu dinheiro.

É você enxergar que o recurso público não é torrado “supreendentemente”, sem qualquer transparência, em diárias de gabinetes ou licitações duvidosas. Detalhe, tudo isso é descaradamente previsto em orçamento. É público para quem quiser ver e chorar.

Bate nela e pisca

Bate nela e pisca

O sujeito que se diz transparente ao fazer uma prestação de contas cheias de notas superfaturadas é capaz de passar a mão na bunda da namorada do amigo, piscar o olho para o infeliz e sorrir. Diga que isto não é transparência? Canastrice transparente, talvez? Tem agente público que faz isso, rouba e dá aquela piscadinha marota de um olho só. Nem se arrepia.

A minha sugestão para a próxima pesquisa é criar critérios para avaliar como funcionam as auditorias destes orçamentos. Rotular estruturas públicas como transparentes ou não, sem saber – ou pelo menos deixar claro – a qualidade destas publicações não é bonito. Não soa sério.

Falando em transparência, o Blog do Pessoa é um sucesso absoluto, 100 mil acessos em menos de uma semana!!!! Maravilha! Viva a liberdade de imprensa! Pena que ninguém pode me auditar.

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Uma resposta para “Passa a mão e pisca

  1. Apesar da seriedade dos dados expostos no post, fiquei mesmo é imaginando o Little Person sonhando em ser jogador de futebol.

    Aliás, me lembrei daquela música Johnny, do Tim Maia, sabe?

    Bjs da leitora

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