Debate Aberto

Sim, o Humberto…

Guardo com algum carinho a minha infãncia. Não que ela tenha sido sui generis, no centro urbano de Porto Alegre e na úmida Manaus dos anos 1980. Pelo contrário. Acontecimentos isolados, negativos, ainda reverberam na memória e atrapalham um pouco a minha convivência social. Porém o cheiro da pizza de sardinha que Dona Zinha costumava fazer nos meus aniversários era algo realmente único.

A minha expectativa pelo momento de abocanhar a primeira fatia era melhor até mesmo do que a própria degustação. Eu nutria a atmosfera com ânsia pueril pelo prazer prestes a acontecer. Era a certeza de que algo realmente excelente estava por vir. O cheiro daquela pizza me fazia salivar ao extremo, excitava-me. Eu tentava esquecer que depois vem o depois. Vem a esperança de uma nova pizza.

ingrediante da pizza mais simples, mas também mais marcante

Sardinha: ingrediante da pizza mais simples, mas também mais marcante

Barack Obama chegou e creio que  saiu do forno bastante quente. Mandou fechar Guantánamo e chamou a Europa para assumir a responsabilidade sob os prisioneiros. Os bastiões dos Direitos Humanos (DH) europeus reclamaram tanto da existência da prisão, que pareciam não ter nada a ver com ela, mas têm.

Como se não bastasse, alguns países do bloco europeu se manifestaram oficialmente – bancando independência – opinando que os prisioneiros são um problema dos EUA. Contraditório para quem vive pregando soluções globais para tudo. Ainda mais para quem está atolado até o pescoço na chamada “luta contra o terror”.

A iniciativa de receber os prisioneiros foi portuguesa porque Portugal está pressionado moralmente. O ministério público do país, eurodeputados, oposição e organizações de DH exigiram explicações sobre a permissão de aeronaves ingressarem no espaço aéreo português para levar os prisioneiros a Guantánamo. Aliás, explicações que ainda não foram dadas.

discussão sobre o Espaço de Schengen na Suiça. Medo de redução de emprego e segurança.

Livre-fronteira: discussão sobre o Espaço Schengen na Suíça. Medo de redução de emprego e segurança.

Áustria e Bélgica sopraram a corneta, reprovando a iniciativa portuguesa de receber alguns prisioneiros na União Européia porque, segundo seus representantes, “isso é problema dos EUA”. Que pena que eles não vêem o petróleo e a reconstrução do Iraque, o 11 de Setembro e a campanha no Afeganistão como problemas exclusivamente norte-americanos.

A questão é que o espaço Schenguen é uma das rotas do Afeganistão, do Oriente Médio, do Sudão para a América do Norte. É território aliado dos EUA, da OTAN. Os norte-americanos se sentem confortáveis sobrevoando o espaço dos históricos aliados. Aliás, Schenguen é uma localidade de Luxemburgo que dá nome a um tratado, assinado lá mesmo, por cinco países europeus, incluindo a própria Bélgica. 

O acordo de Schengen, em 1985, foi base para a criação do chamado “espaço Schenguen”, que talvez a Bélgica queira que seja revisado, excluindo o “espaço aéreo” Schenguen. Parece que os belgas querem se eximir de responsabilidades por Guantánamo, desejando que o espaço Schenguen se resuma a terra e água, de preferência alheias. E o mundo assiste a mais uma contradição da União Européia.

primeiro homem negro a mandar na casa grande

Obama: primeiro homem negro a mandar na casa grande

Obama começou polêmico e isso é necessário. São 60 prisioneiros que estão em questão, dos alegados 245 que ainda restam guardados. Não é à toa que analistas digam que nos 100 primeiros dias de Casa Branca o novo presidente vai dizer a que veio. Ah, valem meus votos de que o Governo Obama não seja como uma pizza de sardinha. Que não desperte somente o prazer do aroma. 

Meu lado cético diz, “Pessôa, se ele mandar matar menos gente já tá bom”.

Guantánamo – vamos refletir. Não parece um bocado nazista esta história de enfiar prisioneiros em campos de concentração no território dos outros? A base norte-americana fica em área alugada de Cuba. Auschwitz é na Polônia invadida. A história se repete mas a força deixa a história mal contada, como diria o Gessinger. Sim, o Humberto. 

Pessôa no Front

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2 Respostas para “Debate Aberto

  1. Ah, meu amigo, quando visitei Cuba, em 2003, pude perceber o quanto Guantánamo está entalada na garganta de cada cidadão…
    Mas falando em nível de globo, de mudança real…daquela que nos livraria do jugo da economia e do padrão para o qual vendemos a força de trabalho por salário…o quanto terá de força um Obama, contra a prática dos países de se eximirem quando lhes convém, e de entrar na briga idem, por vantagens? Diante da máquina criada pelos que realmente mandam no mundo, e nem sequer precisam aparecer – tamanho o poder que exercem de dentro das corporações e da economia… ? Quando nos veremos como um planeta só, cada cidadão responsável pela realidade que criamos? Estou sendo pessimista demais? Perdão, não posso deixar de ver que estamos sempre indo ao mesmo nenhum lugar, há milhares de anos – como disse o Nei LisbOa.
    O Forum Social Mundial terminou nesta sexta no Pará. Qual será o alcance dos encaminhamentos frente aos que mandam na mega-política de Obama? Ele mudará mesmo as entranhas neo-liberais, ou vai ser apenas um verniz do-negro-que-chegou-à-presidência? Nossa memória teimosa lembra que secretária de Estado Condoleeza Rice é da mesma cor, e no entanto, serviu ao viL.
    Quando nos negaremos a um sistema eleitoral que elege políticos que usarão dinheiro público (da Saúde..) para a perpetuação no poder?
    BeijO e bOa sOrte, estOU feLiz porque estás FeLiz.
    Namastê. SaUdade.

  2. Fiquei com vontade de comer a Pizza de sardinha da D. Zinha!! hahahahahah!
    Guantânamo sempre foi, desde o desastre da Baía dos Porcos, a tentativa Norte-americana de continuar Bostejando: “A América é dos Americanos!!!” Ledo engano…
    A prisão será fechada mas a Base continuará! Pq? Pq a América (segundo eles) é dos americanos!!! Rsrsrs!Ledo engano…novamente!!
    Os “interrogatórios” continuarão existindo. Dizem os entendidos (me inclua fora dessa) que não existe outro meio de obter informações importantes.
    Mas o mais importante é que eles (os “interrogatórios”) continuarão existindo…Em Cuba, na UE, no Iraque, em qualquer lugar… Esse é o estilo deles. Seu American Way of life! Aliás essa também não é do Humberto?

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