Africanos influentes

A revista The Africa Report publicou na edição deste mês o que chama de “50 africanos mais influentes”. Na lista, personalidades consagradas como a sul-africana comissária dos direitos humanos da ONU, Navi Pillay; nomes emergentes como o porta-voz do partido do governo tunisiano Ennahda, Samir Dilou, e figuras bastante controversas como o queniano Uhru Kenyatta, que é acusado de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, cometidos nas eleições de 2008.

No grupo constam dois personagens do chamado mundo lusófono:  o ex-presidente da estatal petrolífera angolana (Sonangol), Manuel Vicente, de 56 anos, e o presidente do Conselho Municipal da cidade moçambicana da Beira, Daviz Simango, de 48.

Vicente é um dos homens mais poderosos do governo de José Eduardo dos Santos. Comandou a estatal Sonangol, menina dos olhos do regime, durante 13 anos. Foi uma das lideranças do boom petrolífero angolano e goza de prestígio com quem negocia o crude no planeta pela notória competência administrativa.

Teve a habilidade de desenvolver laços fortes com Duda dos Santos e sua família. Apoia os negócios da filha do presidente, Isabel dos Santos, no país e mundo à fora. A “princesa angolana”, de 38 anos, é hoje a maior investidora da Bolsa de Valores de Lisboa. É acionista nos setores bancário, energético e de telecomunicações de Portugal, além de ter importantes participações na indústria do país europeu. Também tornou-se a maior investidora privada da Sonangol.

Pupilo de Duda

Sob a gestão de Vicente, a Sonangol se aliou à filha do presidente da república para investir alguns bilhões de dólares no setor de energia português.  Assim, Vicente atingiu raríssimo patamar de confiança entre integrantes do clã e aceclas da família dos Santos. Compõe uma espécie de “tríade de ferro” do poder junto com Carlos Feijó, ministro de Estado e chefe da Casa Civil da Presidência angolana (responsável pela nova Constituição), e o próprio presidente. Conforme a The African Report, mesmo durante todos estes anos trabalhando para a estatal, Vicente conseguiu montar um império no setor privado.

Em fevereiro,  foi convidado para assumir o Ministério da Coordenação Econômica, deixando a Sonangol.  Será o próximo vice-presidente do país após as eleições de agosto, que serão vencidas mais uma vez por Duda dos Santos. Vai adquirir a experiência política que lhe falta para calar a boca dos críticos dentro do MPLA e colocar seu nome á disposição para suceder o atual presidente quando Deus ou dos Santos, é claro, assim o desejar.

Alguns colegas jornalistas angolanos festejam o fato de Vicente não colocar parentes na admnistração pública. Bem, eu sou um pouco mais cauteloso. Ele favoreceu a filha de Feijó, presenteando-lhe com a chance de encabeçar os parques industriais da Sonangol. Digamos, não tem consaguinidade, mas a moça é da “roda dos irmãos”. Faz  parte da clientela, é claro.

A volta da história

Certamente com uma conta bancária menos gorda, Daviz Simango integra a tal lista não somente para provocar júbilo naqueles que acreditam na rotatividade no poder para o desenvolvimento da democracia, mas também para marcar em definitivo os distintos momentos políticos dos dois maiores países africanos de expressão portuguesa. Enquanto Moçambique tem como personalidade em destaque um oposicionista, Angola tem um “neosantista”.

Daviz é filho do histórico Uria Simango, uma liderança shona de extrema importância na Frelimo, que chegou a ser vice-presidente dessa força política que lutou pela independência. Ouso dizer que, se este ranking existisse na década de 1960, certamente o reverendo Uria disputaria espaço com Eduardo Mondlane na lista das personalidades mais influentes do continente.

Muitos arriscam dizer que a história de Mondlane só é mais conhecida e consagrada porque Uria Simango perdeu a queda de braço interna da Frelimo para a corrente que ainda hoje domina o país. Outros avançam, afirmando que a derrota nesta queda de braço acabou resultando em sua morte e seu reconhecimento tímido na história de Moçambique. Hoje, Daviz surge simbolizando o novo na política moçambicana, sendo líder do principal bastião opositor à Frelimo, após o que chamo de esfacelamento do partido Renamo.

O Movimento Democrático Moçambicano (MDM), fundado em 2009, apresenta-se como uma espécie de “terceira via”, descolado do ranço das heranças da guerra civil e do neopatrimonalismo frelimista incrustado no poder. Nas eleições presidenciais de 2009, Daviz Simango conseguiu 8,6 por cento dos votos e ficou em terceiro lugar.

A questão é saber se o MDM e Daviz terão persistência para traçar estratégias consistentes a fim de superar as desigualdades impostas pela Frelimo no campo da disputa política, principalmente através da influência sobre mídia, justiça eleitoral e recursos públicos. Se o MDM for capaz de virar este jogo contra a Frelimo, o nome de Daviz ganha peso suficiente para uma lista de políticos emergentes em cenário mundial, não  somente continental.

Abaixo entrevista com Daviz Simango sobre as eleições intercalares de 2011. (Matéria da Moçambique TV)

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  1. Pingback: Angolan and Mozambican Politicians Among Most Influential Africans · Global Voices

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