Blog do Pessôa

Centenários surreais

29.01.2009 · Deixe um comentário

Um dos momentos mais surreais da história do futebol mundial! As imagens que marcaram o centenário de dois clubes importantes do Brasil. Primeiro o clube mais meridional, por assim dizer. O detalhe da imagem: a reação de surpresa do atacante do time amarelo e azul no momento da manifestação nas arquibancadas.

O Coritiba foi rebaixado no ano do centenário. É complicado. Mas como a primeira imagem, esta também não precisa comentários, mas atitude. Urgente.

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A cristaleira alemã

29.01.2009 · Deixe um comentário

Comovente a manifestação da chanceler federal alemã Angela Merkel sobre a participação de Mikhail Gorbachev e Lech Valeza na reunificação alemã em seu discurso na comemoração dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Olhando para os dois históricos líderes do Leste Europeu, ressaltou a coragem de mudar e de contestar que influenciou os alemães do leste na luta pela reunifcação.

Alguém pode dizer que o discurso de Merkel foi marcado pelos clássicos chavões envolvendo a liberdade e o significado da queda do muro para os alemães mais jovens, ”que crescem sem se importar se vem do leste ou do oeste”, embora o preconceito sofrido principalmente pelos do leste, os “Ossi”, é algo forte na sociedade alemã.

Angela Merkel

Merkel: não abraço a causa, mas respeito o testemunho.

Ora, mas quem estava falando ali era uma mulher que nasceu em Hamburgo, mas cresceu como “Ossi”, na Alemanha do Leste. Uma testemunha do regime da DDR. Com bastante emoção e alguma euforia, nas últimas semanas, a chanceler lembrou insistentemente da morte ou da prisão daqueles que lutaram pela reunificação. Sublinhou enfrentamentos, reuniões na Igreja de São Nicolau, em Leipzig, para manifestações pacíficas no final da década de 80. Foram declarações com um tom especial porque era Merkel, era uma testemunha.

As minorias conservadoras da Alemanha

Hoje Merkel fala como uma “Ossi” no poder. A primeira mulher chanceler da Alemanha compõe o governo com um ministro do exterior homossexual (Guido Westerwelle), um ministro da saúde filho de vietnamitas (Philip Rössler) e um jovem yuppie como ministro da defesa (Karl-Theodor zu Gutenberg). Um grupo de minorias em um governo conservador. É ou não é de vanguarda o quadro que temos aqui? Vanguarda em um governo conservador… estou maluco!

Enquanto alguns jornais aproveitavam a data para pedir uma verdadeira unificação econômica das duas regiões, que ainda têm traços bastantes desiguais, Merkel estava empenhada em apresentar os planos da nova coalizão para o parlamento. Naturalmente, foi curioso ver o ex-ministro do exterior, Frank-Walter Steinmeier, assumir a voz forte da oposição no Bundestag e liderar a crítica.

beijo do muro

Clássico pintado no muro: o ex-presidente da URSS Leonid Brezhnev se inclina para beijar o líder alemão Erich Honecker

Curioso nesta manifestação também foi Merkel falar em “Medidas de Aceleração do Crescimento”. Seria o PAC alemão? Não. Aqui não se fala em investimento na infra-estrutura, mas em redução de impostos e reforma no sistema de saúde. Porém, para um brasileiro desavisado, soa bastante redundante Merkel usar a retórica da “aceleração do crescimento” aqui e o presidente dos EUA, Barack Obama, usar a filosofia de universalização da saúde. Será uma espécie de SUS? Não. Nem uma coisa nem outra.

Atmosfera de comoção

Também comovente é a repercussão da morte do goleiro reserva da seleção alemã, Robert Enke, de 32 anos. Na noite de terça-feira ( 11.11.09), ele teria parado o carro na estrada, afastado-se 100 m do veículo, ultrapassado uma cancela de segurança e chegado aos trilhos do trem para se matar. O jogador do Hannover 96 estaria em tratamento contra depressão. A imprensa passou toda a quarta-feira destacando a trajetória do goleiro e procurando razões para a sua atitude.

A matéria do Jornal da Noite da RTL destaca a morte de Enke falando da reação imediata dos fans, da chance que ele teria de ser goleiro na próxima copa, da morte de sua filhinha que poderia ter motivado a depressão.

Para finalizar, comentava com um ar um tanto positivo os 20 anos da queda do muro com um amigo alemão, referindo-me que até mesmo crianças brasileiras estavam lembrando com alegria o marco da reunificação. Sem alteração, ele virou para mim e disse: “na verdade esta data é bastante pesada porque é a mesma data da “Noite dos Cristais”, ocorrida em 1938, quando Sinagogas e estabelecimentos identificados como pertencentes a judeus foram atacados por nazistas”.

Com a mesma tranquilidade, respondi: “por respeito à euforia de alguns alemães com a queda do muro e à tristeza da “Noite dos Cristais”, faço uma média do peso destes acontecimentos e prefiro ficar em um silêncio não-neutro. É tudo muito forte e me perco nesta confusão de sentimentos distintos que nutre este país, um lugar único e re-unificado”, ele sorriu. Eu fiquei mais aliviado.

Abaixo matéria da TV alemã no dia 10 de Novembro de 1989.

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Qual o diploma de Ban Ki-Moon depois das eleições afegãs?

29.01.2009 · Deixe um comentário

Sim, passei recluso por um período, mas já estou de volta à ativa. Após uma hibernação de cinco meses, preparando-me para provas, experimento agora uma sensação que não tinha há quase 10 anos, a vida de estudante. Uma década longe das salas de aula faz qualquer um pensar mil vezes antes de encarar a empreitada de mais um curso acadêmico.

Está tudo certo, preenchi os pré-requisitos e resolvi mergulhar de cabeça no desafio de um mestrado sobre Governança Democrática e Sociedade Civil na Universidade de Osnabrueck, uma cidade alemã da Baixa-Saxônia, com aproximadamente 150 mil habitantes, próxima à fronteira com a Holanda.

Já que o diploma de jornalista não está valendo nada aí no Brasil, o que custa estudar alguma coisa que, com certeza, vai valer algo dentro dos padrões terceiromundistas tupiniKINGS? Vou garantir agora um diploma alemão e quero ver se o STF vai tirar este de mim. Se bem que, como já havia dito em outras oportunidades, com as faculdades que temos, será que o nosso diploma valia realmente algo?

Karzai, Karzai…

Bom, mas isso já passou. O que se discute hoje no mundo é um outro diploma inglório. O novo diploma de Harmid Karzai, que vai para o segundo mandato como presidente do Afeganistão. Ele queria tanto este título que não está nenhum pouco constrangido em reassumir o cargo após um pleito fraudulento, do jeito que o Taleban queria. Uma eleição que não legitima absolutamente nada.

Claro, o país está em guerra e realmente é difícil ter participação popular expressiva em um ambiente de caos e medo. Há de se considerar também que quem se opunha ao pleito era nada mais, nada menos do que a organização extremista mais temida e midiática do planeta. O mínimo de ordem para uma eleição sadia é impossível no Afeganistão. Porém, esperava-se que a sabotagem das eleiçoes viesse apenas do Taleban, não do governo afegão liderado por Karzai.

Fora a indigesta eleição de Karzai e a estranha “desistência” de seu oposicionista, Abdullah Abdullah, a uma semana do segundo turno – abandono este também duro de engolir, com declarações forçosas de quem se coloca na posição de vítima -, o que fica desta eleição afegã, para mim, são as declarações do chefe adjunto da missão da ONU no país sobre o tratamento que a organização internacional estava dando ao escrutínio.

“BandeEide”

Segundo o norte-americano Peter Galbraith, a ONU estava tentando encobrir as fraudes ocorridas no primeiro turno. Depois de se desentender com o norueguês Kai Eide, seu chefe na missão, Galbraith foi demitido pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. As palavras do diplomata, que não queria deixar suas funções:

“Eu não estava preparado para ser cúmplice no encombrimento ou minimização da fraude que estava acontecendo lá. Eu senti que nós teríamos que fazer vista gossa áquelas irregularidades. Kai minimizou a fraude”, disse.

Mais tarde, a verdade foi aparecendo e realmente ficou difícil de esconder a roubalheira a favor de Karzai no pleito. Logo, Galbraith estava certo. E aí? Quem vai esclarecer os interesses da ONU em colocar debaixo do tapete as sujeiras do processo eleitoral duvidoso afegão? Como ficam Ban e Eide nesta história? E a credibilidade da ONU? Neste interesse internacional de democratizar na marra o Afeganistão, o que pensar da desistência de Abdullah Abdullah?

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Obama-Fieber

29.01.2009 · Deixe um comentário

O que já era impressão de analistas está comprovado por um estudo. A eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos fez mesmo a chamada relação transatlântica melhorar não somente em âmbito governamental. É o que destaca a edição digital deste final de semana (25.07) do semanário alemão Spiegel.

Uma pesquisa feita pelo Pew Research Center (PRC), de Washington, aponta que os alemães estão especialmente eufóricos com a nova política externa norte-americana, apesar de se manterem críticos com relação ao conflito no Afeganistão.

A pesquisa aconteceu entre maio e junho, ouvindo 26 mil pessoas em 24 países europeus. A matéria de Gregor Peter Schmitz, correspondente da revista Spiegel em Washington, destaca como “especialmente dramática” a mudança de postura dos alemães em relação aos Estados Unidos após os seis primeiros meses do governo Obama.

Não tem pra Merkel na Alemanha. O negócio é Obama.

Não tem pra Merkel na Alemanha. O negócio é Obama.

Obama é mais popular que Merkel na Alemanha

Conforme o texto, 64% dos entrevistados alemães têm uma posição positiva sobre os Estados Unidos. No ano passado, conforme a Spiegel, 31% dos alemães deram esta resposta quando o presidente ainda era George W Bush.

Cerca de 93% dos entrevistados na Alemanha disseram que confiam no atual presidente norte-americano. Obama só é tão bem-quisto assim no Quênia, país onde seu pai nasceu. A própria chanceler Angela Merkel não tem tamanha aprovação aqui na Alemanha. Fica nos 75%, o que também não é um índice desprezível.

Quase 93% dos alemães ouvidos pelo PRC acreditam que Obama é capaz de tomar as decisões corretas no cenário internacional. O índice já impressiona por si só, porém quando comparado ao de George W Bush, que na mesma pesquisa obteve 80 pontos a menos, ou seja, 13%, o quadro se torna contundente.

Europeus se mostram crédulos em relação ao presidente norte-americano

Guantânamo é o “calcanhar de Aquiles”

Conforme teria declarado o pesquisador do PRC, Andrew Kokut, à Spiegel, os entrevistados acreditam no potencial de Obama para “agir de forma multilateral, buscar o apoio internacional em caso de uso de violência, além de colocar em prática a idéia de retirar as tropas norte-americanas do Iraque e fechar Guantânamo “.

Também em outros países europeus como Inglaterra, França e Espanha, os cidadãos parecem mais simpático aos Estados Unidos. “Colabora para isso o interesse de Obama na retirada das tropas do Iraque e o fechamento de Guantânamo”, conforme a Spiegel.

Na Alemanha, 84% dos entrevistados aplaudiriam o fechamento da prisão de Guantânamo, conforme a pesquisa do PRC. Abaixo, um dos momentos mais marcantes da política internacional dos últimos anos. Barack Obama, há um ano, discursava em Berlim, em plena campanha eleitoral norte-americana. Quem está fora deste eixo da chamada “Aliança Atlântica” precisa refletir um pouco sobre este tema. O significado do gesto e a simbologia das palavras de Obama se dirigindo ao povo alemão não podem ser simplificados.

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Michael, eles não ligam pra gente!

29.01.2009 · Deixe um comentário

Lembro-me como se fosse hoje da badalação que a mídia brasileira fez na ocasião da gravação do clip They don´t care about us, de Michael Jackson, no Rio de Janeiro, no morro Dona Marta. Comunidade cuja história é contada no detalhe ao longo das linhas de Abusado, de Caco Barcellos.

Na ocasião, o diretor do clip, Spyke Lee, teria negociado com os traficantes que dominavam a área para que tudo corresse nos conformes. Apesar da euforia midiática, lembro-me muito bem do desconforto que tive com aquela situação toda.

Afinal é um bocado contundente a indústria Michael Jackson escolher o Brasil para gravar um clip sobre injustiça social. Não somente porque não é a temática que baseou sua carreira, mas é o primeiro lugar que veio à cabeça da produção para fazer a representação visual da música. É impossível um brasileiro ter orgulho disso.

Um contra-ataque

Na época, a reportagem extasiada com a presença do mega pop em uma favela arrastou seus textos e imagens para o inusitado espetáculo. Negligenciou o foco da crítica e o bizarro fato de Spyke Lee ignorar o poder público e buscar contato direto com o tráfico. Isso é contado em Abusado.

Nesta época de luto profundo pela morte de Michael Jackson around the world e de mais um momento lindo de Roberto Carlos no Brasil, conforme li pela Internet, eu tenho pouquíssimo a dizer. Não vou externar amargura gratuita nem vou contra a corrente.

Aliás, até respeito os homens em questão pelo apelo popular. Principalmente o Roberto, que nos anos 70 foi brilhante. Embora não participe da onda, contribuo em outra direção, eu diria. Brindo este blog, portanto, com um momento diferenciado de Sinéad O´Connor e Massive Attack naquele que é pra mim um dos melhores álbuns deste início de século no gênero que esses caras são realmente mestres absolutos – o Trip Hop. Disco 100th Window, Special Cases – 2003.

Special Cases

Don’t tell your man what he don’t do right
Nor tell him all the things that make you cry
But check yourself for your own shit
And don’t be making out like it’s all his

Take a look around the world
You see such bad things happening
There are many good men
Ask yourself is he one of them

The deadliest of sin is pride
Make you feel like you’re always right
But there are always two sides
It takes two to make love, two to make a life

Take a look around the world
You see such mad things happening
There are few good men
Thank your lucky star that he’s one of them

Mais Massive Attack. Dessa vez com Elizabeth Fraser. Teardrop do álbum Mezzanine, de 1998.

Teardrop

Love, love is a verb
Love is a doing word
Fearless on my breath
Gentle impulsion
Shakes me makes me lighter
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Nine night of matter
Black flowers blossom
Fearless on my breath
Black flowers blossom
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my……

Water is my eye
Most faithful mirror
Fearless on my breath
Teardrop on the fire of a confession
Fearless on my breath
Most faithful mirror
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

You’re stumbling a little (x2)

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La urticaria

29.01.2009 · Deixe um comentário

Vai ser impossível provar se Maxi López realmente cometeu a estupidez de chamar Elicarlos de macaco na partida de ida das semifinais da Libertadores da América no estádio Mineirão, em Belo Horizonte. Imparcialidade é o que não há entre as testemunhas. A não ser que surja uma imagem definitiva, uma câmera, um super microfone que registrou o momento.

O que fica da repercussão dessa história, que mais uma vez insere o Grêmio neste tema – o que é catastrófico para um clube popular em um país multiétnico –, é a certeza de que o caminho é longo para fazer com que o futebol volte a ser apenas um esporte no Brasil. Hoje, é conflito totêmico dentro e fora do campo.

Não há como aceitar que, de um grupo de profissionais tão bem pagos, surja uma questão tão lamentável. Caso López tenha realmente ofendido seu colega, mereceu a humilhação na polícia e na mídia. Mereceria muito mais, mas, como disse, será difícil provar.

Resposta rápida

Agora, se Elicarlos entendeu errado, não tem certeza do que foi dito ou inventou a história, também deveria ter punição exemplar. A necessidade de o futebol brasileiro sair da berlinda e começar a dar exemplo exige que esse episódio seja apurado com total rigor. O problema é que provavelmente a questão não será esclarecida, alguém vai sair injustiçado e ninguém vai punir quem não conseguiu ou “deixou de conseguir” trazer a verdade à tona.

O comportamento da torcida do Grêmio não espanta porque massa não tem cérebro. Porém, também não orgulha. A notícia é lamentável, merece reflexão e não a condenação da suposta vítima. Os dirigentes e jogadores do clube gaúcho devem apoiar o colega, que deve estar bastante arrependido, caso realmente tenha falado algo do gênero.

Porém devem ter a consciência de que suas declarações refletirão no comportamento da massa, que já surge bem claro na Internet. Profissionais e dirigentes de todos os lados devem ter tranquilidade porque podem contribuir para desdobramentos ainda mais graves deste episódio.

Debate necessário

É uma questão de justiça e de harmonia no convívio social em um país multiétnico. O necessário debate na mídia vai causar bastante desgaste. O que é válido. Tem que ficar claro, todavia, que a paixão por alguma agremiação não justifica o esquecimento de valores básicos.

É melhor se concentrar no jogo a falar bobagem. O Grêmio precisa ter mais futebol do que o Cruzeiro. E ponto. A vaga será conquistada na bola. Criar um ambiente hostil com base neste fato lamentável não é prudente nem é o que se espera de homens de notoriedade social.

Os fãs deste clube tradicional do Sul do Brasil têm um poder de mobilização natural neste tipo de situação. Trata-se de uma equipe acostumada a reverter resultados negativos. Logo, transformar este episódio em combustível para as arquibancadas é estúpido e desnecessário. Ora, vão jogar mais futebol!

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Talvez um cartelzinho amigo, um protecionismozinho… Afinal, eu te dou a vida!

29.01.2009 · Deixe um comentário

Eu não tenho dúvida de que o futebol brasileiro é um dos exemplos de má gestão que, ao longo dos anos, têm sido apresentados pelo nosso país ao mundo em setores que ironicamente o Brasil tem potencial de liderança. Qualquer brasileiro que conseguiu completar o ensino médio sabe que nos negamos a dar as cartas e sermos protagonistas em vários momentos de nossa história.

Temos os melhores jogadores, talvez o campeonato mais disputado do planeta, diversidades continentais valiosíssimas que influenciam na cultura das equipes, torcedores apaixonados e participativos e cidades que respiram futebol. Em resumo, somos os maiores nesta indústria milionária em quase todos os sentidos e quesitos, porém falhamos ao gerenciá-la.

Ai! Cuidado, cuidado com o empresário

Ai! Cuidado, cuidado com o empresário

Quem conseguir, responda a seguinte pergunta: como um jogador é comprado por 3 milhões de euros de um clube brasileiro e revendido na Europa por atravessadores, 6 meses depois, por 20 milhões? Não vou afirmar que existe um “esquemão” que favoreça setores indiferentes a torcidas e clubes no Brasil, mas que esta lógica é um bocado estranha… Ah, isso é inegável.

MC´s do espetáculo

Uma das grandes falhas que o consumidor do futebol brasileiro comete é não se perguntar por que o país que mais forma talentos no planeta tem clubes tão ricos em tradição e frágeis financeiramente. É uma realidade tão difícil de engolir que é impossível não desconfiar daquela falha moral que é de praxe no Brasil e que, como o futebol, dá-nos fama internacional. Veja, não estou acusando ninguém de corrupção.

Para provar que existe corrupção na estrutura do futebol brasileiro, seria necessária uma cultura de investigação no chamado “jornalismo esportivo”, uma vez que muitas autoridades são conselheiras de clubes. O profissional de comunicação social que trabalha com esporte no Brasil, em geral, nega-se a investigar pelo medo de se indispor com dirigentes dos clubes e da empresa que trabalha.

Clubes brasileiros são jogados para escanteio na Europa

Clubes brasileiros são jogados para escanteio na Europa

Por isso, para mim, jornalismo esportivo tem um conceito próprio que se distancia um pouco da essência do jornalismo. É um “quase lá” que precisa de um pouco mais de coragem para abandonar o “doutorismo” e encarar empresários e dirigentes de frente. É um profissional de comunicação social que poderia colaborar mais para a sua comunidade em detrimento daquele furinho esperto dado por aquela fonte de conduta duvidosa e alguns milhares de dólares no bolso.

Eu te dou a vida

Falta dinheiro para os clubes, mas há dinheiro em excesso perdido em várias mãos que movem este setor. E o torcedor nas arquibancadas repete: “eu te dou a vida, tu é a alegria do meu coração” em um mantra torpe, quase estúpido, do sujeito alheio aos bastidores da sua paixão. É o marido ou a esposa que faz vista grossa ao perfume e a maquiagem alheia perdida na blusa do seu grande amor.

Qualquer país da Europa ocidental que tivesse o potencial brasileiro para este esporte já teria se protegido e vendido melhor o seu peixe. Aliás, eles já fazem isso com o pouco que têm. Não consigo admitir que além de sermos privados de ver os nossos craques no país por mais de uma temporada (quando chega a isso) ainda os vendemos mal.

Um chinês há pouco tempo me disse com todas as letras onde este rapaz se formou

Um chinês há pouco tempo me disse com todas as letras onde este rapaz se formou

Muito se fala que os times preparam jogadores durante anos em suas categorias de base e os vendem por 2 milhões de euros para atravessadores descompromissados que os revendem por muito mais. Multas rescisórias têm garantido que alguns clubes consigam repor craques e ter bons resultados em certames, mas é preciso ter habilidade e projeto de gerência para tanto, coisa rara.

Em defesa do cartel

Não condeno quem defende uma reestruturação na marra, quase inspirada na lógica do cartel neste setor. Se os clubes brasileiros se organizassem, não conseguiriam evitar a evasão dos nossos talentos, mas poderiam chegar a cifras que o Porto, por exemplo, chega ao vender jogadores brasileiros para Manchester e outas equipes da Europa. Benfica e Porto hoje estão no rol dos clubes que rotulo como “atravessadores” nas vendas do Brasil para a Europa.

Estes clubes portugueses têm servido como uma espécie de incubadora para que empresários façam os jogadores brasileiros ganharem preço no mercado europeu. Neste esquema, o jogador realiza o seu sonho de atuar na Europa – onde a lógica de marketing, de capital e protecionismo faz com que campeonatos muitas vezes desinteressantes, sem emoção e sal, superem a audiência de certames tão ou mais tradicionais.

Um dos exemplos recentes da lógica moderna dos “clubes atravessadores” foi a transação envolvendo Ânderson, ex-jogador do Grêmio e agora no Manchester United. Ele foi vendido pelo clube gaúcho por 5 milhões de euros para o grupo português Gestifute, que adquiriu 70% do seu passe e o colocou no Porto. Foi vendido para o clube inglês por 25 milhões de euros em 2007.

Distorção

Ânderson valorizou 5 vezes mais por atuar em um país cujo campeonato é disputado por duas únicas equipes e o resto é coadjuvante. O ex-jogador gremista ingressou na lógica do mercado protecionista europeu. Protecionista, sim. Nenhum canal aberto europeu compra os direitos de campeonatos de outros continentes. Os europeus valorizam e investem no marketing do seu futebol, dos seus clubes, apesar de contarem com estrelas de fora da Europa.

Na ocasião da transação com o Manchester, o Porto fez questão de responder às acusações da imprensa inglesa de que não houve intermediários na negociação. Difícil acreditar, uma vez que muita gente colocou dinheiro no negócio desde o início da transação com o Grêmio. Vale lembrar que o presidente do Porto, Pinto da Costa, é bastante conhecido por acusações pesadas de corrupção no futebol. Porém, por outro lado, também é sui generis na habilidade de se defender.

Maracanã: o templo do futebol mundial não impressionaria... claro que não.

Maracanã: o templo do futebol mundial não impressionaria... claro que não.

Grupos de investidores, empresários de outros setores em Portugal, nomeadamente construção civil, descobriram o “excelente negócio” de atravessar transações futebolísticas. Pega-se a matéria-prima brasileira, dá-se um banho de marketing em território lusitano e se ganha o triplo da quantia investida com os compradores da Inglaterra, Espanha e Itália.

Todo mundo acaba feliz

Brasileiros de infância humilde chegam como salvadores em clubes europeus. São super-heróis e cidadãos públicos privilegiados. Pessoas, cujos familiares integraram a massa dos “brasileiros esquecidos”, adquirem prestígio, dinheiro e influência no planeta. Por vezes, são os donos da bola em seus times. Ficam embasbacados com os ares do chamado Primeiro Mundo, a fama na Europa, as festas e o trabalho até os 30.

Em cada elo dessa corrente, ganha-se. E muito. Só os clubes brasileiros e suas torcidas perdem. Eu não quero fechar mais o foco nas estruturas diretivas dos clubes porque aí poderíamos ver muita gente com a mãozinha molhada e seria necessária boa investigação (item básico do jornalismo que, como disse, ainda espero da chamada “crônica esportiva”).

E os empresários ou representantes? Ah, esses aí ficam alucinados. Uma coisa é você ganhar uma comissãozinha em uma transação de 100 mil reais, como qualquer corretor de imóveis. A outra é uma participação em um negócio de 3 milhões de dólares, com vários nós e possibilidades de lucros futuros.

Mano a mano

O peso da grife das equipes européias torna às vezes o preço do jogador até 10 vezes maior. A questão é saber como equipes européias tão tradicionais ou menos que as brasileiras e argentinas conseguem ter mais peso neste jogo de cena do futebol. Alguém desconfia da importância de um Grêmio, de um Santos, de um Flamengo, de um São Paulo no futebol internacional? Sim, somente seus rivais.

Espanha: lá todo mundo sabe que pode dar um ou pode dar o outro

Espanha: lá todo mundo sabe que pode dar um ou pode dar o outro

Nos confrontos diretos entre Europa e América do Sul no Mundial Interclubes, única forma de colocar as equipes mundiais frente à frente para medir forças, há 25 vitórias para a América do Sul e 23 para a Europa. Isso diz muita coisa. São os confrontos entre os melhores clubes da Europa contra os melhores da América. Os europeus costumam dizer que não dão valor à esta competição.

A choradeira dos jogadores do Barça, fregueses do futebol brasileiro; dos jogadores do Liverpool, do Milan, a cada mundial perdido para clubes brasileiros, mostra que isso é uma conversa fiada. E torna óbvio que, pelo menos, a postura dos jogadores é diferente da idéia defendida pelos clubes europeus. Mas eles estão no “direito de exercer o seu protecionismo”. Não querem desvalorizar o seu futebol por isso desvalorizam o confronto direto.

Cinco estrelas de lata à incompetência

Alguém acredita que se os jogadores brasileiros realmente fossem vendidos na realidade de preços das transações européias os clubes da Europa virariam as costas para o mercado brasileiro? Alguém acredita que eles realmente deixariam de se interessar pela melhor escola do futebol do mundo, pelos maiores formadores de talentos do planeta, caso os preços fossem justos?

Não, isso aí não é não gol de primeiro mundo

Então, qual é o medo do futebol brasileiro? O que o trava? Por que não fazer a reforma interna que todos desejam? Tornar os campeonatos brasileiros acima de qualquer suspeita, oferecendo-lhes o mesmo valor da seleção – respeitada em todo o mundo; acabar com a influência bizarra de empresários e cartolas incrustados nos corações dos clubes e das federações; criar calendários decentes; renovação de gestores nas federações e confederações; fortalecer clubes em seus diversos níveis; estabelecer quotas democráticas de imagem e televisionamento; descentralizar a mídia esportiva para acabar com favorecimento mercadológico de Rio e São Paulo, são alguma das medidas urgentes.

Não se pode evitar que os jogadores sigam sua vida na Europa com a liberdade que merecem. Mas a lógica do comércio no setor tem que mudar. Talvez resolvendo problemas morais nas estruturas dos clubes poderemos vender o nosso campeonato, difundir a modalidade – que faz parte da nossa cultura – e dar ao futebol brasileiro o status e a credibilidade que merece. Ou isso não é possível?

Na minha opinião uma das maiores afirmações dos clubes brasileiros sobre os europeus

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Se eu fosse para a Tailândia, estaria tranquilo

29.01.2009 · Deixe um comentário

Dificilmente o ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, está errado. Até porque as informações são de que a Força Aérea Brasileira está fazendo um esforçado e bom trabalho. Não se trata de provar para alguém se as equipes brasileiras de resgate são capazes de fazer o que têm que fazer – encontrar os corpos e os destroços. Mas, sim, é urgente esclarecer por que vivemos em um momento em que voar no Brasil é tão arriscado?

O espaço aéreo e a infraestrutura da aviação comercial brasileira hoje representam pavor e angústia para qualquer usuário. Seja ele de voos domésticos de grandes empresas ou de aviões de pequeno porte, fretados. O que acontece neste setor no Brasil hoje é uma incompetência disfarçada de “azar” que já dura tempo demais. Oh, “urucubaca” mais sem vergonha!

Eu não me lembro de um período de quatro anos com tantos desastres aéreos graves no país. São dados tão contundentes que entraram para a história. Em 31 de outubro de 1996, 99 pessoas morriam em acidente com o Fokker 100 da TAM, em São Paulo. O avião caiu em residências próximas ao aeroporto de Congonhas logo após decolar.

Avião teria caído depois do arquipélago de Fernando de Noronha

Avião teria caído depois do arquipélago de Fernando de Noronha

Uma década trágica

Aí, houve um vazio de ocorrências, onde os brasileiros apenas assistiram tragédias envolvendo aviões fora de seu espaço aéreo. Veio a segunda metade desta década e estamos no auge de um período negro sem precedentes na história da aviação comercial brasileira.

Em setembro de 2006, o Boeing da Gol caiu entre Manaus e o Rio de Janeiro ao se chocar com um aeronave menor. Foram 154 mortos. No ano seguinte, um avião da TAM deslizou pela pista de pouso de Congonhas e colidiu com um hangar. Foram 199 mortos. Em dois anos, o saldo de mortes em voos comerciais era quase quatro vezes maior do que nos 10 anos anteriores – excluo aqui casos de voos fretados.

Em 2008, a aviação comercial brasileira teria vivido momentos de calmaria se não fossem as turbulências nos aeroportos provocadas por atrasos, reverberações do chamado “caos aéreo”, a ausência completa da histórica Varig em voos para fora da América do Sul e queda de faturamento de empresas que passaram a figurar com importância no cenário brasileiro, como a Gol (prejuízo de R$ 216,76 milhões em agosto de 2008). Fatos simbólicos para o setor.

Veio 2009, o quadro negativo se manteve, mas com novos tons macabros. Foram quase 230 mortos próximo a Fernando de Noronha.


Repercussão na imprensa internacional em clipping feito pela France 24

Prato cheio para especulações

Claro que não há elementos para relacionar este acidente da Air France à sequência de acidentes ano a ano no Brasil. Entretanto, eu me treinei no jornalismo a esgotar todas as possibilidades antes de valorizar a hipótese de “pura coincidência”. Afinal, é muita gente morrendo num estralar de dedos, de forma muito semelhante, na mesma área do planeta.

Mesmo considerando como coincidência mais este desastre de grandes proporções, o que parecia mera impressão fica cada vez mais concreto – o Brasil é uma das regiões mais perigosas para vôos do planeta e ninguém parece conseguir frear isso.

Seja por zona de forte turbulência, fatalidade, falha de sistema ou humana, o fato é que é fundamental que surjam explicações para este acidente da Air France o mais rápido possível. Do contrário, é natural que venham as especulações em cima da frágil estrutura de controle e segurança da aviação comercial no Brasil, escancarada nos últimos três anos.

Cinco perguntas que precisam de respostas

1) O que está acontecendo de tão diferente na aviação comercial brasileira atualmente em relação a década de 90?
2) Será que as aeronaves antigas eram mais preparadas?
3) A infraestrutura de controle e segurança da aviação comercial no Brasil piorou?
4) A demanda por voos ficou tão grande que é impossível oferecer qualidade 100% para o usuário?
5) Será que não é possível cancelar um voo por instabilidade no meio do oceano?

Este blog não poderia ficar sem prestar condolências às famílias dos que se foram neste episódio trágico. Poderia ter ocorrido com qualquer um de nós. Assusta-me porque estou atravessando o Atlântico pelo menos duas vez por ano e é impossível ficar tranquilo em um avião que entra, sai e atravessa o Brasil hoje em dia. Se estivesse indo para a Tailândia, talvez estivesse mais tranquilo.

Procedimentos de segurança de voos da Air France

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A admirável estrela de Cacau

29.01.2009 · 1 Comentário

A Alemanha viveu neste final de semana momentos intensos e simbólicos. No sábado, as portas dos museus e dos prédios públicos foram abertas para a população devido à comemoração dos 60 anos da República. No dia 23 de maio de 1949, foi promulgada a constituição do país que serviria inclusive de modelo para outras nações. O ex-diretor do FMI, Horst Koehler, foi reeleito presidente pelo parlamento.

O Wolfsburg também entrou para a história no sábado por se sagrar campeão da Bundesliga pela primeira vez. O time contou com uma generosa contribuição de seu artilheiro Grafite (não jogou absolutamente nada no Grêmio por motivos ainda a serem explicados), que marcou 28 gols na temporada.

O Süddeutsche Zeitung nesta segunda-feira diz que Wolfsburg “deixou de ser aquela cidade que todos passam quando viajam de trem e logo esquecem”. Inclusive Grafite estampa a capa desta edição do jornal ao lado de Ferdinand Piëch – simplesmente o presidente Mundial da Volkswagen, empresa que garante absolutamente tudo em Wolfsburg. Tem gente que diz que Wolfsburg não existiria sem a Volkswagen.

Final de semana dos sonhos: Torcedores do Wolfsburg em partida disputada em Bucareste pela Copa da Uefa

Final de semana dos sonhos: Torcedores do Wolfsburg em partida disputada em Bucareste pela Copa da Uefa

Eu conversei nesta tarde com Cacau, atacante do Stuttgart, brasileiro com passaporte alemão há pouquíssimo tempo, que cobriu Grafite de elogios. Para ele, o atacante do Wolfsburg é um lutador. “Ele também passou por muitas dificuldades na vida, fico feliz quando vejo um brasileiro se integrar bem ao futebol alemão. A quantidade de gols que ele marcou não é para qualquer um”, disse Cacau em entrevista concedida na tarde desta segunda-feira (25.05.2009) para o programa em Língua Portuguesa da Rádio Deutsche Welle.

Interessante nesta história do Cacau é que ele foi convocado para dois amistosos que a seleção alemã fará na Ásia a partir da próxima sexta-feira. Depois de Paulo Hink e Kevin Kuranyi, mais este atacante brasileiro, de 28 anos, vai vestir a camisa da seleção alemã. Trata-se de um sujeito cujo futebol é extremamente respeitado aqui no país e não tem, definitivamente, o perfil de outros jogadores brasileiros procurados pelos jornalistas conterrâneos, que sempre se mostram bastante, digamos, inacessíveis – para não dizer coisa pior.

Cacau chegou à Alemanha para atuar no que ele chamou de “5ª Divisão”. Não saiu consagrado do Brasil, como a maioria que chega por aqui vinda de grandes clubes. Com fala mansa, paulista de Santo André, viveu em Mogi das Cruzes onde jogou em escolinhas de futebol. Hoje, é um dos maiores atacantes do futebol alemão e se mantém com os pés no chão. O fato de ser uma das estrelas de uma equipe tradicional alemã – um dos principais responsáveis pelo título de campeão nacional em 2007 – parece não ter “subido à cabeça”.

Cacau: um jogador maduro

Cacau: um jogador maduro

Disse-me que aguarda com ansiedade esta oportunidade de participar da etapa de qualificação da Liga dos Campeões da Europa e que está entusiasmado com a política do clube de revelar bons jogadores novos. O Stuttagart, totalmente descaracterizado, em um péssimo momento, inclusive sem Cacau, perdeu para o Inter no torneio de pré-temporada mais festejado da história do futebol mundial nos últimos tempos, a Copa Dubai de 2007.

Mas, continuando com Cacau, diria que se trata de um jogador que merece não só respeito, mas carinho e admiração. Trata-se de uma estrela brasileira, que venceu sem ser conhecido no seu país. Venceu e, pelo jeito, não perdeu a humildade, a naturalidade, a educação nem a elegância. Continua simples, gentil e acessível, como todos esperam que uma estrela seja.

Abaixo o gol que marcou esta bela campanha do Wolfsburg e o fantástico campeonato de Grafite. Esta partida pode ter sido a que decidiu o campeonato a favor do Wolfsburg, que terminou dois pontos à frente do Bayern. As imagens são da ZDF

Neste outro vídeo do Stuttgart, Cacau entrevista o colega de equipe Serdar Tasci. Comentam o período de preparação do time em Portugal na pausa de janeiro. Tasci brinca dizendo que foi como férias, mas depois diz que treinaram duro. A equipe terminou a Bundesliga em terceiro lugar.

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Personenschaden

29.01.2009 · 3 Comentários

Certa vez, voltava da cidade de Heidelberg para Bonn. Era inverno e tive que trocar de trem em Mannheim. As palavras do maquinista: “nós pedimos sua compreensão, mas vamos atrasar a viagem devido a um dano pessoal (Personenschaden)”. Muitas pessoas reclamavam por causa do frio, do atraso, do desconforto geral. Eu confesso que não consegui. Personenschaden é uma expressão considerada por muitos branda, utilizada também quando alguém se joga nos trilhos do trem para se matar.

São mais de 41 mil quilômetros de trilhos de trem na Alemanha. Em comparação com o Brasil, um país 25 vezes maior territorialmente – que engatinha ao tentar voltar ao projeto de investir neste modal -, a Alemanha tem o dobro da estrutura ferroviária. Um serviço que pode ser considerado por um usuário sul-americano como de alta qualidade, mas bastante questionado pelos usuários alemães devido aos atrasos.

Sendo sarcástico e de um humor negro altamente repreensível, eu sei, para um suicida, os trens alemães podem significar um prato cheio. Acho que o sujeito que quer se matar no Brasil deve dar preferência às armas de fogo. Suponho. É difícil afirmar com certeza porque não há facilmente informaçõe disponíveis sobre este tema no Brasil. Por convenção, a imprensa brasileira não noticia suicídio. O leitor, por favor, não interprete a comparação como uma apologia ou como estúpida frieza. Acho o suicídio um ato trágico e terrível. Não há como avaliar a atitude de um suicida e suas motivações. Não me atrevo a julgar como “um ato covarde”, como ouço a maioria das vezes. Aliás, não me atrevo a julgar.

Esperando no trilho

Esperando no trilho

Apenas para não fugir da comparação já iniciada, o Brasil tem uma malha ferroviária de 29 mil quilômetros, conforme o Denit (Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transporte), e dedica o modal basicamente ao transporte de cargas, que absorve 20% da demanda brasileira. Em 2006, a estatal Deutsche Bahn (DB) e cerca de 150 companhias ferroviárias privadas transportaram 2,24 bilhões de passageiros e 346 milhões de toneladas de carga, o que faz desta modalidade de transporte a terceira mais importante da Alemanha.

Atraso desconfortável

A revista mensal Chrismon, uma publicação evangélica encartada em um dos principais periódicos alemães, o Sueddeutsche Zeitung, trouxe alguns depoimentos de maquinistas, paramédicos, bombeiros e funcionários de estações de trem que presenciaram situações de suicídio em trilhos. A revista peca por não trazer dados atuais sobre estas ocorrências na Alemanha nem ouvir especialistas sobre motivações, efeitos e reações. Porém, traz depoimentos contundentes.

Fiz uma pesquisa aleatória sobre o número de casos de suicídios desta natureza aqui na Alemanha. Consegui um dado nada atual, de 2005, que se repete em diversas publicações. Na primeira metade da década, o número de suicídios na malha ferroviária alemã teria variado anualmente entre 1000 e 1200, segundo informações da DB.

Conforme ainda a estatal, isso significaria 4 mil horas de atraso e algumas pessoas irritadas apesar do fato trágico. É cruel, mas alguns marcam compromissos e contam com o trem para chegar em casa, ao trabalho. Outros, procuram o trem para abreviar a vida.

Pessoa embarca em um ICE na Estação Zoo de Berlim

Pessoa embarca em um ICE na Estação Zoo de Berlim

O trauma

A cada ano, conforme a DB, 5% dos maquinistas alemães se deparam com pessoas que se jogam na frente do trem para se matar. Alguns pulam de encontro a um ICE (InterCity Express), o trem-bala alemão. Outros ficam à frente de trens menos velozes. O maquinista Carlo Kuster trabalha com um S-Bahn, um trem menos veloz, e disse para a Chrismon que conduzia a 120 Km/h e sequer percebera que passara por cima de alguém.

“Naquele dia, não havia só acontecido isso. Pela manhã, um homem se jogou do seu apartamento em frente ao edifício que moro. No final da tarde, quando conduzia o trem, notei policiais em um determinado local. Pensei que procuravam um suspeito, isso sempre acontece. Percebi um barulho estranho no S-Bahn, uma espécie de bum-bum. Pensei que fosse a retranca de ajuste de trilhos. Logo recebi o telefonema do diretor me informando que se tratava de um suicídio e que eu precisava parar. Na estação seguinte, vi restos de roupa presos ao trem”, lembra o maquinista de 44 anos, afirmando que muitos colegas deixam de trabalhar depois de passar por esse tipo de situação.

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Recolher o que sobrou, limpar a área

“Cada um reage de forma diferente. Eu freqüentei um psicólogo e ajudou.”, diz Kuster. Jochen Heinze, um bombeiro voluntário, 33, da localidade de Limburg, disse para a reportagem da Chrismon que o seu grande medo é conhecer a pessoa que irá encontrar nos trilhos. “Certa vez demoramos para encontrar o cadáver. Já estava escuro. O que eu vi ao iluminar o mato com a minha lanterna ainda está diante dos meus olhos. Eram membros que precisavam ser procurados e reunidos. Uma pessoa que dificilmente seria reconhecida”.

O assistente da Cruz Vermelha, Peter Meyer, 57, contou para a revista que se deparou com uma tentativa de suicídio. “O jovem estava deitado na nossa ambulância. Os colegas já haviam prestado os primeiros-socorros. O trem passou por cima do rapaz. Ele queria morrer, mas acabou sobrevivendo. Teve as duas pernas amputadas”.

Ele conta que o jovem era irmão de um bombeiro que trabalha na frente da unidade da Cruz Vermelha. Meyer diz que chegou a estar feliz ao ver, semanas depois, os dois irmãos juntos pelas ruas. O bombeiro ajudava o “paciente” a caminhar com próteses. “Uma ano e meio depois, encontramos o rapaz novamente nos trilhos. Dessa vez, era tarde para socorrê-lo. Nem sempre se pode entender a vida”, diz o assistente da Cruz Vermelha.

Abaixo um vídeo anônimo que critica o reajuste de 3,9% do preço da passagem de segunda classe com base na baixa qualidade da prestação do serviço. Achei o protesto underground por isso publico

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